Não gostava de Che Guevara!

por Levino Catú-Awa
Estava quase no sexto andar.
Isso para ele era sagrado: reafirmar que não gostava de Che Guevara a cada andar.
Ainda bem que estava chegando no sexto andar. Não gostava do quinto andar. Não gostava do número cinco. Afinal o número cinco não trazia sorte ou boas lembranças: 1965 foi o primeiro aniversário do golpe da ditadura militar (também civil, mas ele gostava de destacar que era uma coisa militar apoiada pelos Estados Unidos), em 1945 acabou a segunda guerra e ele lendo nos livros de história, gostava da guerra, acalentava a ideia de que se a guerra tivesse continuado, todos os povos do mundo seriam libertos pelo camarada Stálin. Cinco estava no número do ano em que Tancredo havia sido “assassinado”, ele não gostava de Tancredo, mas tinha certeza que aquilo havia adiado a volta da democracia, afinal o vice que assumiu era o presidente do partido da ditadura.
Pouco importa isso agora, estava quase no sexto andar. Lembrou que em 2015, um ano com cinco, tinha começado o golpe no Brasil, outro golpe, encolheu a barriga e se regozijou “como sou forte, como enfrento tantos golpes e continuo firme”.
A cada degrau lembrava da síndica, aquela burguesa de cabelos tingidos de vermelho, xingava ela no silêncio da sua mente enquanto sorria, tinha tesão por ela, apesar de ser uma analfabeta política. Pensava nela muitas vezes com a estratégica posição de dissimular para sua esposa, quer dizer provedora, afinal aquela “velha” que dividia a cama com ele, era quem bancava as contas com a herança de filha de militar.
Fizera bem em não ter casado, não no papel, não no registro oficial, assim podia continuar a receber os benefícios por ela ser filha de militar enquanto ele traçava planos e atuava em nome da revolução. Sim, ele era um cara de luta!

Revolução! Que delícia de palavra! Sentia um estremecer no corpo, um quase lá, quando pronunciava essa palavra. E eram várias vezes ao dia. RE-VO-LU-ÇÃO. Como isso soava bem.
Estava no sétimo andar. Parou para enxugar a testa e retirar a boina. A revolução já teria acontecido se aqueles adolescentes não tivessem ido para as ruas protestar pelos 20 centavos em 2013. Ele tinha certeza que aquilo havia sido o motivo do aborto da revolução em curso.
Aqueles pirralhos! Não sabiam nada de política, atrapalharam tudo. Um dia ele poderia, como chefe do departamento da revolução permanente, julgar aqueles pirralhos que atrapalharam tudo. O Brasil estava no caminho da revolução e eles puseram tudo a perder.
Se ao menos São Paulo tivesse praia, aí eles teriam ido curtir as férias na praia e não teriam sabotado a revolução que ele tinha certeza estava em curso, brigando pelos 20 centavos.
Ele sempre lembrava da análise do Zé que explicava como os adolescentes foram responsáveis pela saída de Dilma do governo, também ela foi burra, não seguiu as orientações do Lula. Como ele admirava a inteligência do Zé. Um cara galante, sempre rodeado por mulheres lindas, um cara que viveu clandestino no Brasil plantando a revolução depois de uma cirurgia na Ilha de Fidel, um cara que ele gostava de dizer nas mesas em rodas de conversa: “um cara foooda!”.
A síndica tinha sido legal na verdade ao aceitar sua proposta para não pagar o condomínio integral. Também ele soube argumentar que por não usar o elevador, ele e a filha do militar (aquela mulher velha que o esperava roncando da volta da militância), que ele merecia um desconto, não qualquer desconto, mas 50%, afinal o prédio não tinha mais porteiros. Ele em assembleia do condomínio tinha convencido que os porteiros eram desnecessários, primeiro foi demitido o da tarde, depois o da manhã e por último, com um certo custo da sua argumentação, o da noite. Assim quando ele se comprometeu (e colocou nisso sua mulher) a não usar os elevadores do prédio para conseguir uma taxa de desconto, foi fácil, como tomar doces de crianças no leste europeu em troca de fotos do camarada Stálin.
Que droga! Sempre lembrava da mudança do décimo terceiro andar para o décimo segundo. Ele tinha escolhido morar no décimo terceiro, sua mulher com os proventos do pai militar tinha conseguido o financiamento, mas duas parcelas de atraso, apenas duas, fizeram com que perdessem o apartamento no décimo terceiro e tivessem que mudar para um aluguel no décimo segundo. Tudo bem agora. Pelo menos eles não tinham que pagar o condomínio integral. Tinha sido uma jogada de mestre o acordo com a síndica para não pagar o valor inteiro por não usarem o elevador.
Já era o nono andar: não gosto do Che Guevara, ele não esquecia de dizer quando pisava os primeiros degraus da escadaria de um novo andar.
Por vezes, no automático, chegou a ficar parado diante do elevador no hall do térreo, até chegou a apertar o botão, mas lembrou-se a tempo para não perder o acordo com a síndica, fez sinal de continência para a câmera e foi em direção às escadas.
Na verdade tinha sido um grande negócio para ele, com o desconto aprovado pelo condomínio, poucas vezes a sua mulher (aquela velha com proventos do pai militar que o sustentava) tinha coragem de sair às ruas, também ele era um ótimo orador, destacando sempre que após 12 andares era provável que já estivesse chovendo quando ela chegasse ao térreo, que o mundo lá fora era perigoso, com usuários de crack na calçada, que meninas andando de skate poderiam atropelá-la. Tudo funcionava. Assim ela cada vez mais foi ficando reclusa e confiando nele para tudo: a senha do cartão, as compras, uma procuração para ele movimentar as contas bancárias. Perfeito! Exceto pelo ainda empecilho de ter que mantê-la viva pela maldita comprovação de vida anual.

Tinha sido excelente, na sua análise de conjuntura, a manifestação em defesa do camarada Maduro na Avenida Paulista, a primeira do ano. Ele chamava a Avenida Paulista de “Nossa Praça de Maio", nisso ele sempre sorria secretamente, pensando nas mães da Praça de Maio de Buenos Aires e imaginando como agora a gordura rodeando os seus próprios mamilos, quase o fazia parecer ter seios, ele pensava e sorria para si mesmo “sou quase uma mãe da Praça de Maio”.
Duas jovens haviam olhado para ele na avenida paulista, uma negra, uma ruiva.
Ruiva, vermelho, como a ideia o excitava. A jovem, a síndica, tantas revolucionárias de cabelo vermelho na sua mente. Até heroínas da Marvel. Sim ele era um comunista revolucionário, mas se permitia ver quadrinhos da Marvel, aquilo tinha um pouco de verdade, um pouco de senso de justiça, muito melhor que Cebolinha ou Monteiro Lobato.
Lembrou-se do protesto contra o criador do Sítio do Pica-Pau Amarelo, na avenida paulista, claro, de como enquadraram o cara como racista burguês.
Lembrou da jovem preta que o olhou atentamente naquela tarde, no protesto em defesa do povo bolivariano da Venezuela.
Não gostava de pretas nem mesmo em fantasias. Gostava de pretos, bons para fazer número, para compor a fotografia, dar credibilidade aos eventos, pensava isso desde o tempo em que militava no partidão.
Sempre que procurava por pornografia, e julgava que pornografia é libertador, era por tags, hashtags, marcadores: “red hair”, “caucasian” e “pregnant”. Adorava ver mulheres grávidas em situações pornográficas constrangedoras, isso o excitava com a ideia de que o capitalismo havia fracassado.
Não, não era misógino, não era racista. Tinha certeza disso. Adorava e não perdia a oportunidade de dizer “maravilhosa” em cada foto de mulher nas redes sociais, na foto da das suas ex-cunhadas, das filhas das primas, na foto de militantes de esquerda, comunistas, feministas, anarquistas, achava que assim tinha encontrado uma forma de manifestar seu tesão sem parecer inconveniente, demonstrando aprovação pelo empoderamento das mulheres.
Estava no décimo andar, nas escadarias do décimo andar, pensou que logo estaria em casa e nas histórias que teria que contar para sua mulher chata e velha (mas que sustentava a coisa com seus direitos adquiridos de filha de militar), lembrou das vizinhas lésbicas do apartamento ao lado, de quantas vezes tinha fantasiado estar no meio delas.
Olhou no próprio peito e viu o adesivo “em defesa do povo da Venezuela”, próximo ao adesivo de “Democracia Corinthiana” que colaram nele naquela tarde, assim que chegasse em casa iria colocá-los no seu mural de lembranças das manifestações e atos políticos. Sentiu-se confiante pensando na próxima manifestação de protesto em defesa do Irã do Aitolá, inimigo do Tio Sam. Só desejou que isso poderia demorar para acontecer, afinal eram doze andares.

conto: Levino Catú-Awa
Semeador da terra, cultivador de abelhas, carpinteiro e poeta
fotos: Walter Antunes
a partir de grafite em Pelotas e da camisa comemorativa do Madureira pela comemoração de 50 anos da viagem do time à Cuba





