Máscaras, selfies e humanos: experimentos transamazônicos
- Walter Antunes

- há 22 horas
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"Ou você é gente ou você é um rato."
(Seo Carlão do Peruche)
O New York Times em sua principal manchete traz a notícia do vídeo publicado pelo presidente dos Estados Unidos da América em que Michelle Obama e Barack Obama são dois macacos.
É fevereiro de 2026, quase noventa anos depois dos Jogos Olímpicos de Berlim 1936, quando Jesse Owens, atleta norte-americano, mostrou ao mundo e aos nazistas, eleitos pelo povo alemão, que as suas mentiras sobre raça e supremacia eram apenas mentiras. Exatos 81 anos depois da chegada das tropas soviéticas no campo de extermínio de Auschwitz.
A manchete do New York Times é do dia 6 de fevereiro, mesma semana em que o Washington Post demitiu um terço dos seus funcionários e a Amazon anunciou a demissão de 16 mil funcionários em mais uma das suas séries de demissão em massa, a mesma Amazon que anuncia o investimento de 200 bilhões de dólares em Inteligência Artificial para 2026. Desde 2013 o dono da Amazon é dono do Washington Post.
Uma semana antes, em 28 de janeiro, Ilhan Omar, a deputada americana de Minnesota, do distrito de Mineápolis, foi atacada por um homem branco que atirou nela um líquido, ainda de origem desconhecida, durante uma conferência. O presidente americano, diante das imagens do atentado, disse que deveria ser apenas uma armação da deputada para se promover.
Dias antes, o mesmo presidente acusou Renee Nicole Good e Alex Pretti de serem agentes profissionais contratados para promover distúrbios nas ruas de Mineápolis. Renee foi assassinada em 7 de janeiro e Alex no dia 24, ambos mortos a tiros por funcionários do governo americano.
No Brasil é época de carnaval, muitos sites politicamente corretos destacam que blackface é uma prática racista e que não é de "bom tom" pintar o rosto de preto. Inventa-se um debate sobre tons de cinza e preto, circunscrito apenas aos dias de carnaval.
O carnaval durante muito tempo foi um dos raros momentos na vida brasileira em que os pretos furavam a bolha de invisibilidade imposta pelos narradores oficiais da vida nacional. Isso tudo foi antes da mídia hegemônica reduzir, para a população, o carnaval a um mero concurso de mulheres brancas seminuas, coroadas como rainhas de escolas de samba, através de patrocínios e interesses diversos que definitivamente nunca tiveram nada a ver com nenhum samba.
E é neste Brasil, no mesmo dia 6 de fevereiro em que o vídeo dos macacos Michelle Obama e Barack Obama publicado pelo presidente dos Estados Unidos da América circula no mundo todo, que uma turista argentina, uma mulher advogada que está em férias na cidade do Rio de Janeiro, é presa por racismo. Ela imitou um macaco, fez sons imitando macaco para uma funcionária negra de um bar em Ipanema. A advogada-turista-argentina disse que não sabia que é crime imitar um macaco para uma pessoa negra.
Uma outra discussão acalorada tem surgido recentemente todos os anos no período do carnaval: é correto fantasia de índio? O Brasil que assassinou milhões de índios ou indígenas ou nativos ou povos originários ao longo dos seus 526 anos de invasão-ocupação europeia, é o Brasil que continua assassinando esses mesmos indígenas em 2026. Não importa se durante a COP 30 realizada em Belém, não importa se durante a COPA 2014 FIFA de futebol, o Brasil assassina os povos originários.
Tem vídeo, deste mesmo dia 6 de fevereiro em Santarém, mostrando um político avançando com o seu carro conversível sobre manifestantes indígenas dos povos do Baixo Tapajós. Indígenas que estão protestando contra o decreto do presidente Lula que privatiza e instala hidrovias em três rios amazônicos: rio Madeira, rio Tapajós e rio Tocantins. Indígenas tentando salvar o Brasil e o planeta enquanto o governo norte-americano prende nativos nos Estados Unidos para serem deportados para uma prisão estilo campo de concentração em El Salvador.
O Congresso Nacional no Brasil voltou das férias e aprovou uma série de aumentos de salário que furam o teto de salários que já estava furado. Não é o aumento de 262 reais e 86 centavos que foi dado aos professores brasileiros, nem os 103 reais de reajuste do salário mínimo, são 790 milhões de aumento para este ano nos salários dos servidores da Câmara dos Deputados e Senado Federal. Este Congresso que aprovou a destruição das leis ambientais e promete através de lei, de derrubada de veto sobre lei, liberar da cadeia os golpistas do mais recente golpe contra a república brasileira, enquanto o petróleo já vaza e mata a vida na foz do Amazonas, das plataformas da Petrobras autorizadas pelo Ibama.
O ponto mais inovador e interessante do pacote do Congresso Nacional neste mês de fevereiro, tempo de carnaval, é a escala 3X1. No momento em que os trabalhadores são obrigados a trabalhar na escala 6X1, os deputados e senadores criaram a nova regra para os funcionários do congresso: a cada 3 dias trabalhados se adquire um dia de folga. Nada mal, já que é em ritmo de carnaval. Lembrar que haviam propostas para a Constituição de 1988 de 36 horas de trabalho semanal, apresentadas nesse mesmo congresso, nesse mesmo país.
Lula disse que em março vai aos Estados Unidos ter uma conversa olho no olho com o presidente norte-americano. Esse presidente que publicou o vídeo do Barack Obama macaco, da Michelle Obama macaca.
“Esse é o Cara!” disse Barack Obama para Lula, quando era presidente dos Estados Unidos (talvez seja bom lembrar que isso aconteceu na história norte-americana, assim como Jesse Owens e Martins Luther King), Obama disse isso para Lula em público, num encontro diante de vários líderes mundiais.
Ver Lula, o presidente do Brasil, olhando no olho do atual presidente dos EUA, que em janeiro sequestrou o presidente da Venezuela e que em fevereiro publicou um vídeo do Obama macaco - Barack Obama, o presidente, não o macaco, foi quem disse que o Lula é o cara - vai ser um evento esperado ansiosamente pelos brasileiros, talvez menos ansiado apenas que a cerimônia do Oscar na Los Angeles devastada pelos incêndios do ano passado. Brasileiros torcem pelo filme brasileiro indicado ao prêmio de Hollywood, um filme que trata de memória, história, arquivos e apagamento.
Serão bons eventos tira-ressaca pós-carnaval para o público assistir.
"O Brasil não tem povo, tem público", um dia disse Lima Barreto.
Lula deve se encontrar com um nazista? “Todos os Estados devem suspender imediatamente todos os laços com Israel”, disse Francesca Albanese, relatora da ONU para os territórios palestinos ocupados, em julho de 2025. “Se um nazista se senta à mesa com 10 pessoas e ninguém se levanta, então há 11 nazistas”, parece ser um ditado da militância de esquerda, mas às vezes aparece no google como uma frase infelizmente atribuída à Cora Coralina ou Clarice Lispector.
No noticiário brasileiro, desde os herdeiros dos grandes narradores-pautadores das mentes nacionais (velhos jornais, rádios e tvs), até a autodenominada mídia progressista, fala-se do cão Orelha. Anos atrás falava-se do cão Sansão, que agora já ninguém mais se lembra.
Fala-se dos rascunhos da caixa de emails do pedófilo americano, traficante de mulheres, amigo de presidentes americanos, amigo de primeiros-ministros e de príncipes europeus, amigo de lideranças sionistas, conselheiro dos então jovens-gênios do vale do silício, uma rede de criminosos, mas não falam dos seus negócios e de pagamentos milionários intermediados por ele aos engenheiros do acordo de Paz de Oslo, que foram responsáveis pelo sepultamento da esperança de um estado palestino. Uma escolha política de quais arquivos devem ser apagados ou divulgados.
Como de costume, no Brasil e no mundo, a mídia expõe covardemente o nome e a vida das mulheres e adolescentes vítimas dos crimes sexuais deste “pequeno clube de homens da elite mundial”, mas não investiga todos os criminosos sexuais e as redes de conexões de poder destes homens. A mídia não nomeia de verdade quem são eles, seus negócios e suas marcas. Um pseudo-jornalismo mascarado e mergulhado num prazer mórbido do público por fetiche, violência, abuso, sexo, dinheiro e poder.
Feminicídio no noticiário no Brasil virou nota de rodapé, assim como a morte de jovens pobres nas periferias de qualquer cidade brasileira ou o abuso sexual de crianças em escolas civis dirigidas por militares.
Já mortes de pessoas trans continuam na seção de mortes suspeitas, colocando a vítima sempre em situação de possível criminosa. Ro-da-pé.
Discute-se se o STF presta ou não presta, simples assim.
Mas o que a maioria dos veículos de comunicação têm apresentado em comum é o apreço por releases, por histórias prontas, por fotografias e vídeos enviados para as redações sem custo de produção.
Há em toda a mídia uma grande simpatia pelos anúncios de casas de apostas, enquanto noticiam festivamente que o campeonato brasileiro já começou - sim, a partir deste ano o campeonato brasileiro de futebol é de janeiro a dezembro. Um dos destaques é a nova dupla de jogadores do Flamengo, sempre é bom para o jornalismo esquecer que esses dois jogadores são processados por fraude esportiva em benefício de esquemas criminosos de apostadores, processos na Inglaterra e em Brasília.
Toda a mídia, hegemônica ou auto-intitulada independente, insiste em publicar o nome e fotos do genocida, quase ex-capitão, julgado, condenado e preso por golpe de estado contra o Brasil. Qualquer coisa vale para destacar o nome dele e dos seus familiares todos os dias, mantendo em evidência a marca da família para o eleitorado. Quem sabe a mídia não ajuda a eleger o filho do genocida para próximo presidente do Brasil, um slogan provável: “deu certo uma vez, pode dar certo de novo”.
As casas de apostas estão aceitando palpites sobre quem será o próximo presidente do Brasil, sobre quando o Irã será invadido, quem ganhará o Oscar de melhor ator coadjuvante, quem será o vice de Lula (filho de Jader, filho de Calheiros ou o próprio Kassab), qual escola de samba será campeã. Também aceita apostas sobre cartões amarelos e vermelhos.
No Brasil pré-carnaval existem 184 casas de apostas autorizadas, movimentando 30 bilhões de reais por mês. Isso sem tigrinho, sem lavagem de dinheiro em postos de combustível adulterado pelo crime organizado, sem cachês de artistas do agronejo superfaturados para festas de aniversário pelas prefeituras, sem abalo das criptomoedas, sem banco imobiliário, sem jogo master, sem fintechs.
Nos Estados Unidos, o filho do presidente foi contratado como consultor de duas das maiores plataformas de apostas. Zelenski sabe, é um jogo difícil, pago sempre pelo povo, no seu caso o povo ucraniano.
O vídeo foi apagado.
Michele Obama macaca e Barack Obama macaco foram apagados.
Foi um engano. Foi um descuido. Foi um teste. Foi um meme. Uma molecagem.
Afinal o mundo é virtual e no virtual nada é verdadeiro, nada é sério, nada existe. O problema não é um problema, porque simplesmente o problema não existe.
Tudo é meme. A foto do tripec do Lula, o genocídio inventado contra as pessoas brancas na África do Sul, a Rússia com os seus planos de invadir a Inglaterra, os bebês enjaulados pelo Hamas, as armas de Saddam Hussein que podem destruir o mundo, o Afeganistão derrubando as torres gêmeas em Nova Iorque, a culpa dos judeus pelos males na Europa durante mil anos. Tudo é meme.
Tudo vira meme. O Sofrimento de Marisa Letícia, a culpa de Barbosa no Maracanã em 1950, Nega Pataxó agonizando, o carro alegórico da Gaviões da Fiel enroscado no relógio no sambódromo, a facada que não existiu, as armas nucleares do Irã, o sexo biológico da primeira dama da França, Joãozinho Trinta, o tapa sexo da musa branca que descolou na reta final do desfile cronometrado da Globo, o coração de Dom Pedro sendo devolvido ao Brasil e não o ouro e todas as riquezas roubadas pelos portugueses. Tudo vira meme.
Tudo pode ser meme. A morte da moça trans que filmou o encontro com Ronaldinho, o Rei Leopoldo da Bélgica decepando os braços da população no Congo, uma candidata a presidente dos Estados Unidos da América escrevendo mensagens num míssil da ocupação israelita que vai ser atirado sobre crianças em Gaza, o pastor dizendo aos evangélicos pretos que eles são o povo escolhido pelo Senhor Deus de Israel. Tudo pode ser meme.
Memes matam.
Então o que as pessoas fazem diante da violência do meme?
Produzem um novo meme?
Enviam esse novo meme através das redes sociais?
Para quem?
Por que?
O dono do Facebook foi inocentado recentemente pela justiça norte-americana das acusações de monopólio na aquisição do Instagram e do WhatsApp.
O Tiktok chinês, do país em que o comunismo é uma coisa de mercado, passa agora para a posse da Oracle nos Estados Unidos, uma empresa que se iniciou e se desenvolveu prestando serviços para a CIA.
O dono do Twitter, aquele que trabalhou desmontando as instituições americanas no início do atual governo estadunidense após fazer saudações nazistas, é dono, além da Starlink, de uma empresa aeroespacial, assim como o dono da Amazon. Ele que produz memes com seu aplicativo de inteligência artificial tirando as roupas de mulheres e promovendo pornografia, já que tudo é um meme.
Todos esses invejados e celebrados donos da grande máquina estavam na privilegiada primeira fila na posse do quadragésimo sétimo presidente dos Estados Unidos da América em janeiro de 2025. Um grande e sinistro baile de máscaras visto em De Olhos Bem Fechados, último filme Stanley Kubrick: poder, terror, sexo e fetiche sob máscaras venezianas.
Em janeiro de 2026 vários representantes das mais altas organizações do capitalismo predatório disseram em Davos que a Inteligência Artificial precisa ser freada em benefício da manutenção da atual ordem social.
Os tradicionais grandes acumuladores da riqueza no planeta perceberam que a ideia e o sistema de nações e estados organizados pós revolução francesa, que funcionou tão bem até aqui para o enriquecimento dos seus projetos, corre o risco de ruir diante do poder que se acumula na mão de poucos novos donos do novo modelo de exploração, do qual eles são sócios apenas minoritários.
É um jogo difícil, o povo ucraniano sabe disso. O povo venezuelano sabe disso.
Então o que as pessoas podem fazer?
Gerar um meme denunciando tudo isso?
Deletar as contas em redes sociais que pertencem aos donos da máquina-negócio-rede?
Usar um computador para escrever um texto e enviar por e-mail?
A Microsoft, também o Google, colaboram com o genocídio do povo palestino, coletando dados em tempo real para o aprimoramento do extermínio. Como é possível usar um computador sem essas marcas estarem presentes?
O que as pessoas podem fazer? Usar um aplicativo ou programa de domínio livre distante das grandes corporações para produzir conteúdo? Criar um manifesto ou um movimento? Imprimir uma carta? Uma mensagem? Criar um meme?
Como compartilhar isso com alguém? Convidar a pessoa para tomar um café? Dizem que em alguns lugares do mundo já se paga para alguém se sentar na mesa e ouvir as histórias do cliente enquanto ele toma café. Deve-se considerar também as dificuldades de concentração, já que segundo novas estatísticas, durante uma conversa de cinco minutos, olho no olho, as pessoas envolvidas olham em média 12 vezes para o celular.
Existe alguma forma de chegar até às pessoas que não seja pela internet?
Colar mini-adesivos ou grandes cartazes nos postes e paredes das cidades? Quem ainda anda pelas cidades? Quem escuta música? Quem levanta a cabeça e retira os olhos da tela repleta de prazeres imediatos e infinitamente distantes?
No dia em que arrebentaram covardemente com a Marielle Franco, eu estava em São Paulo. Minutos depois recebi uma mensagem de uma pessoa que meses antes tinha pedido meu contato, sob o aparente pretexto de querer relembrar histórias da nossa infância numa pequena cidade do interior paulista, A mensagem trazia uma foto, montagem grotesca de uma moça negra sentada no colo de um cara que segurava um fuzil, o ambiente parecia um boteco na favela. O texto que acompanhava a foto dizia que era Marielle na foto, que era ela deputada a serviço do tráfico, por fim dizia que era “uma mulherzinha de traficante a menos para o cidadão de bem sustentar”.
Bloqueei a pessoa na hora.
Bloqueei centenas de pessoas conhecidas, até então amigas, em 2018, bloqueei milhares de pessoas na internet. Isso não teve importância alguma para além de eu não me sentar com fascistas. Não impediu que os brasileiros elegessem um criminoso para presidente, para que ele cumprisse a promessa reiteradamente feita de promover o genocídio.
Você já conseguiu mudar um voto usando internet?
Você já conseguiu conversar verdadeiramente com alguém pela internet?
Eu não consegui.
Donald Frango ou Pato Donald, caso a Disney prefira, não existe. Ele é apenas um holograma do Tio Sam. Esse sim um personagem forte dos democratas e republicanos, aplicando todos os golpes ao longo dos séculos em nome da "primeira democracia" moderna do mundo novo eurocêntrico e autoproclamado civilizado. O holograma funciona apenas porque as pessoas com sua passividade e medo, permitem que ele siga funcionando.
Cuba, Síria, Filipinas, Panamá, Coreia, Líbia, México, Vietnã, Haiti, o mundo todo vilipendiado em nome da Estátua da Liberdade para o lucro fácil, imoral e desonesto.
Esse Tio Sam, travestido de Donald Frango, enriquecido através da fraude familiar com o dinheiro dos trabalhadores norte-americanos - bom ouvir Woody Guthrie para saber - continuado através das novas gerações da família com negócios imorais e fraudulentos, é o exemplar final do homem branco europeu, da raça pura, da misoginia, do racismo, do imperialismo, da colonização.
É o homem que evoca os puritanos das treze colônias, que constrói os primeiros campos de concentração da era moderna, que promove as grandes marchas de extermínio dos nativos americanos.
É o homem branco que adora e idolatra as ideias de Hitler, que não coloca isso tudo em prática já cem anos atrás, apenas por estratégia de negócios, pela avidez pelo grande lucro que a segunda guerra mundial lhe prometia proporcionar e que por fim proporcionou.
É o homem branco que se prepara para embarcar na nova arca de Noé recém construída no Kentucky.
O homem branco que se considera pronto para usufruir das riquezas da Antártida após a destruição de todo o gelo e de todas as riquezas até agora inexploradas dos oceanos.
O homem branco predador que pretende povoar as galáxias com o seu gene transportado nas suas próprias naves aeroespaciais.
É a mentira branca que reúne em camaradagem todos os fascistas do mundo, desde Varsóvia até o interior de São Paulo, numa enorme rede de crimes
Um jogo difícil, o povo cubano sabe bem disso.
Em seu discurso em Davos, Tio Sam além de todas as mentiras sobre a Islândia (sic) Groenlândia (não, isso não foi um erro, foi um aviso: Groenlândia primeiro, depois Islândia), ele conclamou seus pares europeus com a provocação de que a Europa estava preta, decadente e irreconhecível por causa dos imigrantes. É a voz de Mussolini, de Hitler, provocando a plateia contra o inimigo externo que "ameaça trazer a decadência" para a Europa "pura e branca escolhida por Deus" para governar toda a humanidade.
Lula tem 80 anos e vai encontrar, depois do carnaval, o presidente norte-americano que tem 79. Conversar não de olhos bem fechados, conversar olho no olho, disse Lula. São dois tipos bem diferentes: Lula nos faz pensar num mundo de belezas raras, possível de existir, ao nos contar sobre Dona Lindu, o outro exalta sempre apenas suas origens familiares numa cidade do Império Alemão. Lula apoiou Dilma para ser a primeira presidenta do Brasil, já o presidente norte-americano escancara a sua misoginia em cada aparição pública. Lula não usou a sua popularidade e aprovação em torno de 85% em 2010 para alterar a constituição e obter um terceiro mandato consecutivo, como tantos fizeram recentemente em vários países, o presidente dos EUA pretende com o seu “conselho de paz” ser o rei do mundo, além de acabar com a ONU.
O presidente americano que publicou um vídeo de Barack Obama macaco, de Michelle Obama macaca, ele não odeia Barack, ele odeia a Michelle. Ele a odeia porque numa democracia de faz de conta, em que ele mesmo já foi membro dos dois partidos que são os únicos representantes do Tio Sam, ela, Michelle Obama, foi a pessoa que disse as coisas mais verdadeiras sobre ele nas eleições de 2024. Mais que isso, ela falou com a forma mais contundente sobre os EUA e sobre a insignificância do Donald, ela foi genuína e brilhante e o homem branco não suporta isso.
Não foi o Biden, não foi Kamala Harris, não foi Sanders, não foi Alexandra Ocasio Cortez. Foi Michelle Obama, uma mulher preta, ex-primeira dama. Sem a necessidade de dizer, ela disse. E isso fere o Tio Sam. Isso fere Donald, o pato, o frango.
Ilhan Omar nasceu na Somália, é uma deputada federal nos EUA, ela incomoda o presidente americano verdadeiramente. Ele disse que a Somália é um lixo, disse que os somalis que vivem nos EUA são ladrões do povo americano branco pagador de impostos, que segundo ele é o verdadeiro dono do país. Ele disse o mesmo dos haitianos, afegãos, latino-americanos.
Ilhan está nos EUA por causa do imperialismo, por causa do jeitinho de ser do europeu, que roubou o mundo todo utilizando o velho testamento da Bíblia, está nos EUA por causa do Tio Sam e por sua política de destruição da África.
Ilhan Omar incomoda o Donald (da Disney ou não), ela é mulher, ela é preta, ela vem de um dos lugares onde a humanidade verdadeiramente surgiu.
Tudo o que o Tio Sam jamais conseguiu ser: ela é corajosa, honesta, verdadeira e reluzente.
Em 2026 temos finalmente uma grande e boa notícia: todas as máscaras caíram e não mais existem. Os véus da hipocrisia e da auto-ilusão estão desfeitos e como alguém disse recentemente: “nostalgia não é uma estratégia”.
Em época de carnaval o sambista de verdade sabe que nunca precisou de máscaras.
E as pessoas em todo o mundo o que fazem diante da molecagem a cada meme do Tio Sam?

texto: Walter Antunes
imagem da série: onde está o Lula?





