A beleza na cidade
- Afonso Peche Filho

- há 2 dias
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A beleza na cidade não é luxo, nem ornamento supérfluo: é uma condição ambiental de bem-estar coletivo. Quando a paisagem urbana é tratada com cuidado, árvores conduzidas com critério, praças vivas, calçadas acessíveis, rios e fundos de vale recuperados, fachadas e sinalização sem poluição visual, o cidadão percebe, mesmo sem nomear, que há ordem, saúde e respeito. Essa percepção produz efeitos concretos: qualifica a experiência cotidiana, reduz a sensação de abandono, fortalece vínculos com o lugar e amplia o sentimento de pertencimento. Por isso, a beleza cênica pode ser entendida como infraestrutura pública: ela organiza o espaço, orienta a convivência e traduz dignidade em formas visíveis.
Há um ponto decisivo: a beleza urbana precisa ser compreendida como bem comum e, portanto, como direito difuso. Não basta que existam pontos bonitos isolados; é necessário que o cuidado com a paisagem se distribua, que haja continuidade, coerência e critérios estáveis, capazes de atravessar o tempo. Assim como a comunidade exige água segura, mobilidade, saúde e educação, pode e deve exigir qualidade da paisagem. Não se trata de impor um padrão estético elitista, mas de proteger o essencial: visibilidade e segurança nas vias, conforto térmico, presença do verde, limpeza, conservação de marcos culturais, harmonia entre publicidade e arquitetura, e valorização de vistas e trajetos que expressam a identidade local. Uma cidade que se “enfeia” costuma revelar, silenciosamente, falhas de cuidado, permissividade com a degradação e enfraquecimento da responsabilidade compartilhada.
Nessa perspectiva, beleza e comunidade são indissociáveis. A paisagem não é um cenário externo às pessoas: é extensão do modo de viver. O que se enxerga nas ruas, nas praças e nos caminhos é, em grande medida, o resultado acumulado das escolhas coletivas, do zelo cotidiano e das omissões repetidas. A beleza se sustenta quando vira cultura: quando há atenção ao lixo e à limpeza, respeito ao espaço público, compromisso com a arborização e com o patrimônio, e disposição para pactuar limites contra a poluição visual e a degradação. É por isso que a beleza cênica não se mantém apenas por intervenções; ela se mantém por pertença. Onde a comunidade reconhece a paisagem como parte de si, o cuidado deixa de ser obrigação imposta e passa a ser expressão de identidade.
É nesse ponto que os cenários estacionais, as mudanças da paisagem ao longo do ano, ganham importância estratégica. A mesma rua arborizada pode ser corredor de sombra nos meses quentes, tornar-se celebração de floração em um período específico e, em outra fase, exigir varrição e manejo por queda de folhas e galhos. Praças alternam intensidade de uso conforme clima; rios e parques ganham ou perdem atratividade conforme chuvas e secas; caminhos rurais ligados à cidade oscilam entre poeira e lama, afetando mobilidade e fruição. Os cenários estacionais mostram que a beleza não é estática: ela é processo, e, por isso, pede previsibilidade, planejamento e rotinas preventivas, não apenas respostas tardias a emergências.
Exigir beleza cênica, então, é também exigir inteligência de cuidado ao longo do tempo. Antes das chuvas intensas, cabe cobrar manutenção de drenagem e correções que evitem erosões; na estação seca, cabe cobrar prevenção de queimadas, manejo de áreas verdes e redução de poeira; na arborização, cabe cobrar condução técnica, e não mutilações que empobrecem o cenário e aumentam riscos. A beleza aparece como resultado indireto de decisões aparentemente “operacionais”: quando um córrego é cuidado com método, quando um talude é estabilizado com vegetação adequada, quando a sinalização e a publicidade respeitam a leitura da arquitetura, quando se escolhe a espécie certa para o lugar certo, a paisagem se eleva e o bem-estar se expande.
A beleza na cidade, por fim, é uma forma de justiça ambiental cotidiana. Ela distribui conforto e dignidade, reduz desigualdades visuais entre bairros, fortalece a memória local e amplia a qualidade da vida comum. Por isso, não se pede beleza como favor: reivindica-se como política contínua de paisagem, uma ética comunitária do cuidado, especialmente nos cenários estacionais, que revelam, mês a mês, se o lugar é tratado como espaço vivo ou como superfície descartável.


texto: Afonso Peche Filho
fotos: Walter Antunes




