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A Arte Persistente de Transformar

Fábio Takahashi visita com Luama Socio sua trajetória de trabalhos e ações artísticas transformadoras num mundo em constante mutação


Luama Socio: Me parece que a comunicação é concebida por você como uma espécie de lugar que precisa ser constantemente cuidado. Um espaço especial, com a finalidade de proporcionar condições para a emergência de uma cultura, ou de várias culturas. A materialidade desse espaço é constituída de arte e representação. Fotografia, cinema, vídeo, música, texto, constituem a base para a emergência da representação de corpos que são "normalmente" politicamente silenciados. Nesse sentido a realização da arte engajada em uma política de conscientização de direitos aparece como uma espécie de extensão do espaço público reivindicado aos modos de Judith Butler que diz: "o que vemos quando os corpos se reúnem em assembleia nas ruas, praças ou em outros locais públicos é o exercício – que se pode chamar de performativo – do direito de aparecer, uma demanda corporal por um conjunto de vidas mais vivíveis" (p. 29 de "Corpos em aliança e a política das ruas"). A arte, mediada pelo artista, é a voz multiplicada dessa vida que clama por justiça, essa que, segundo a mesma Butler, deve ser enunciada na forma de uma incessante interrogação filosófica por essa mesma justiça: "A questão do reconhecimento é importante porque se dizemos acreditar que todos os sujeitos humanos merecem igual reconhecimento, presumimos que todos os sujeitos humanos são igualmente reconhecíveis. Mas e se o campo altamente regulado da aparência não admite todo mundo, demarcando zonas onde se espera que muitos não apareçam ou sejam legalmente proibidos de fazê-lo?" (p. 39). Você pode citar alguns trabalhos seus, explicando sobre qual tipo de Justiça está-se perguntando em cada um deles? Em "interiores :diversidades", uma exposição fotográfica itinerante concebida por você, me parece que se interroga sobre a justiça da reivindicação de uma vida comum e igualitária para pessoas de gêneros diversos. Gostaríamos que você falasse mais desse e de outros trabalhos seus sob esse ângulo.

Fábio Takahashi: Ao longo da história, me parece que a arte esteve por diversas vezes ao lado das minorias que clamam por igualdade para simplesmente viverem suas vidas de forma digna e plena. Penso que é inerente ao artista e de uma curadoria, além de tantas outras urgências, a ideia de reverberação de causas, seja de um indivíduo, grupo, uma nação ou até de toda uma geração. A inspiração, a hora e a vez da arte pressupõe ecoar um lugar de consciência coletiva e a visão desse lugar já é parte do caminho percorrido.


Em “interiores: diversidades”, que teve início em 2008, em parceria com o fotógrafo Walter Antunes, uma frase, um olhar ou sorriso dos retratados se transforma em mensagem universal da causa LGBTQIA+. Essa mensagem, na época, ao contrário do grito e marcha de visibilidade das paradas mundo afora, é o da delicadeza e até do silêncio ensurdecedor de bocas ainda amordaçadas pelo sistema e seus modelos ilusórios. Hoje, quatorze anos depois da primeira exposição, “interiores: diversidades”, ainda é atual pela sutileza; é como se cada retratado colocasse sua história em uma garrafa e a lançasse ao mar, rumo ao desconhecido, para que quem a encontrasse se comovesse, se tornando um agente disseminador do fato e causa em si. A proposta do trabalho não era a do choque, polêmica e imediatismo. É bem possível que a exposição fotográfica, que também agrega o livro, tenha sido uma das primeiras, no mundo, a evidenciar os anseios, angústias e sonhos desse universo resumido em sigla. Eu e Walter concebemos as imagens a partir do cotidiano de pessoas comuns, que representariam sua causa extraordinária, aquém ou além do arco-íris, libertas ou ainda inconscientes da perspectiva da justiça e igualdade. Acredito que a arte enquadrada em fotos tenha despertado no público a sensação de que todo o mar cabe em uma única gota de água salgada e vice-versa. Já perdi a conta de quantas exposições foram realizadas e não me recordo do número de cidades e espaços que acolheram as cerca de quarenta fotos. Sim!, até o número de fotos me falha a memória. O público direto e indireto, também é incontável. Esse é o fato que mais me alegra porque artistas que admiro, inclusive, não sabem o quantitativo da sua obra. Em entrevista antiga, Caetano Veloso revelou que não sabia quantos discos já tinha gravado e quantas canções compusera. Da mesma forma, Fernanda Montenegro disse que há muito tempo já se esqueceu de quantos palcos pisou.







Luama Socio: Existe uma aparente contradição interessante no fato de que, ao passo que a visão da teoria queer parece "provocar e perturbar as formas convencionais de pensar e de conhecer" (p. 51, "Um corpo estranho", Guacira Lopes Louro), do ponto de vista estético, as imagens escolhidas para a representação queer que geralmente vemos na mídia, parecem se esforçar por se alinharem justamente a símbolos massificados e massificadores, de modo tal que a resposta à luta por direitos parece ser dada mais em nível de cooptação econômica e mercadológica, uma espécie de estímulo ao consumo de produtos segmentados do que, de fato, através de modificações na estrutura social e política. Sabe-se que "a identidade de grupos diversos se constitui no conflito interposto ao desrespeito, à denegação e à privação de direitos e que a ação social mediadora torna-se necessária em função dos fenômenos negativos que devem ser superados na afirmação positiva do reconhecimento" (SENA e GUSMAN). Então de que forma conciliar a ação de valor social sem cair em novos estereótipos justamente quando se tenta dissolver os antigos e assim garantir a autonomia na produção de representatividade simbólica quando se faz uma arte militante? Do ponto de vista especificamente estético, como são realizadas as escolhas dos símbolos das imagens, cenas, histórias e personagens dos produtos culturais desenvolvidos sob o seu conceito? O engajamento da arte em causas sociais facilita ou dificulta as coisas, em nível de liberdade criativa, para o artista?

Fábio Takahashi: A arte engajada à causa LGBTQIA+ presente nos vários produtos como a websérie Transparências, Mostra de Cinema Interiores e exposição fotográfica “interiores: diversidades”, é pensada de forma coletiva e articulada com diversas redes e indivíduos, tendo um compromisso com a diversidade dentro da diversidade, a leques que se abrem a outros leques, em relação aos comportamentos sexuais, novos arranjos afetivos e de expressões de gênero que podem, ou não, se atrelar a afetividades e a orientações sexual. Uma pessoa com identidade de gênero oposta ao seu sexo biológico (transexual), pode ser heterossexual, bi ou homo. Uma transexual com identidade de gênero feminina, pode se relacionar afetivamente com outra mulher transexual e sexualmente com um homem cis, ou um homem trans.


A sigla LGBTQIA+ não é estática, em menos de uma década foi acrescida de contornos e multiplicidades, espelhando bifurcações e trifurcações do humano. Entre o binarismo do masculino e feminino existem outras cores, assim como no meio da heterossexualidade e homossexualidade é evidente a manifestação de outros temperos para o desejo e ligações de afeto. A representatividade simbólica da diversidade sexual e de gênero pode ser análoga à imagem do arco-íris, que vemos no céu, na natureza, no qual o entre o amarelo e o laranja não existe uma linha divisória acentuada. Existem nuances de definição sexual e afetiva que também são cores, que também tem sua existência marcada. No meio do azul e do verde é possível encontrar uma tonalidade alternativa viva.


As escolhas dos símbolos das imagens, cenas, histórias e personagens dos produtos culturais desenvolvidos estão – também - sob a o olhar transcendente de artistas como o fotógrafo Walter Antunes, o dramaturgo Dib Carneiro Neto, cineastas como André da Costa Pinto e Lufe Steffen. Juntos, no coletivo, no ajuntamento de ideias, valores e experiências tentamos nos conectar com um tempo e um lugar em movimento, em transformação. Para mim, a arte engajada não consegue ser solitária e olhar somente para cima ou para dentro. Existe uma parábola milenar chinesa sobre dois amigos inseparáveis, que andaram meio mundo à procura da felicidade, o primeiro um pequeno dragão e o segundo um urso panda. O pequeno dragão pergunta ao seu companheiro: o que é mais importante, a jornada ou destino? O panda responde: a companhia.


É interessante observar fenômenos culturais diversos, como na moda, que outrora era uma pirâmide onde a elite produzia para elite e a base, a plebe, copiava o topo. Os artistas da moda revolucionaram e inverteram essa pirâmide, na qual a inspiração da alta-costura também vem da rua e sobe às passarelas. A culinária, que hoje é vista como arte, também teve sua reinvenção ao evidenciar o simples como refinado. Podemos observar que a alta gastronomia já não tem mais reinvenção e se apoia na afetividade de pratos do povo, que são clássicos e eternos.


Acredito que a arte, tão vasta e profunda, também é norteadora para novas formas do pensar valores, do viver em grupo e interagir com as diferenças, para além das questões LGBTQIA+. Reprogramar um sistema de pensamento baseado em divisões e muros está mais próximo do que imaginamos e pode ser mais fácil e rápido do que se prega nesse mesmo sistema.





Luama Socio: Sabe-se que houve mudanças (ou avanços) duramente conquistadas graças ao trabalho de movimento de grupos específicos nos temas de visibilidade LGBTQIA+ ao longo dos últimos 30 anos. Uma matéria do site Nexo traz a seguinte relação de avanços: em 1985 houve a despatologização do "homossexualismo"; em 1987 passou a ser enfatizada a compreensão da importância da adoção do termo "orientação" sexual ao invés de "opção" sexual na citada expressão linguística; a partir de 1997 os movimentos ganharam visibilidade através das "paradas gays"; a partir de 2013 passou a ser permitido o casamento civil entre homossexuais e a conversão de uniões estáveis homoafetivas em casamentos civis; a autorização para redesignação sexual de fenótipo masculino para feminino ocorre em 2002 e de feminino para masculino em 2010; em 2018 passa a ser permitida a mudança de nome no registro civil; a criminalização da homofobia e transfobia vem em 2019 e em 2020 o fim da proibição para doar sangue. A matéria destaca, no entanto, que as conquistas aconteceram sempre "a partir de decisões do Poder Judiciário ou Executivo, e não de novas legislações propostas e aprovadas pelo Congresso — reflexo de um país conservador, que ainda registra recordes de agressões contra pessoas LGBTI+". A partir disso, quais são os desafios que o momento atual coloca para a população LGBTQIA+? Em que a arte e a comunicação contribuem para os novos desafios?

Fábio Takahashi: O tempo é rei e transforma as velhas formas do viver, como diz a canção de Gilberto Gil. Em 2005 na novela América, de Glória Peres, torcemos pelo primeiro beijo gay em horário nobre, cogitado para o último capítulo. A história termina sem o beijo. Foi decepcionante! Dez anos depois, em 2015, Gilberto Braga, coloca no primeiro capítulo da novela Babilônia, o beijo lésbico de Fernanda Montenegro e Nathália Timberg. Foi um escândalo! E foi notório o avanço! Uma década se passou entre o beijo gay censurado dos jovens, mas na segunda novela, essa simples demonstração de afeto apareceu logo na estreia. O avanço foi rápido? Sim. Os progressos são definitivos? Não. E esse é o maior desafio: manter e ampliar a ascenção para a igualdade. Destaco que o conceito de igualdade não se trata de privilégios para LGBTQIA+. Por ironia do destino, as atrizes do beijo lésbico representavam um casal já na casa dos setenta anos, ou seja, a ideia do “antes tarde do que nunca”, a prerrogativa do esperar “o tempo certo”, que pode chegar tarde demais. Chavões à parte, nos últimos dez anos, artistas e a arte em geral invadiu os telões do cinema, as telinhas dos celulares, a música e os palcos. Já podemos, sim, falar em visibilidade diversa, porém a avalanche é pelo represamento.


A arte frente a uma causa tem uma contribuição mais larga e profunda que as leis da terra. Isso porque a arte é uma espécie de verdade acima do chão que pisamos, é etérea. É uma verdade quase sempre atrasada. Já as leis, o legislativo, oscilam entre o erro e o acerto, o tempo e o vento a favor, ou contra elas.






Luama Socio: Os produtos culturais realizados por você abordam questões diferentes entre si: o universo LGBTQIA+ na exposição fotográfica "Interiores Diversidades" e mais especificamente a transexualidade nos vídeos, e depois no filme, "Transparências", as mulheres portadoras de HIV na exposição fotográfica "Superpositivas", dentre outras ações. Que ligação entre esses trabalhos você pode destacar? Quais outras ações culturais você projetou e coordenou e também as que ainda coordena, além das produções que envolvem diretamente as habilidades artísticas (sabemos que você coordenou a Parada Gay de Rio Preto durante alguns anos, que realizou um festival de cinema em Rio Preto também durante alguns anos, e que coordenou um projeto de arte-educação junto a adolescentes da Fundação CASA em várias cidades do interior do estado de São Paulo)? Como você vê o papel do GADA, a ONG em que você trabalha, nisso tudo?

Fábio Takahashi: Como é bom recordar anos de história, destacando-se nesse tempo, o convívio e o partilhar de emoções com tantas pessoas. Como foi bom protagonizar tanta gente silenciada. Destaco que “interiores: diversidades” e a Mostra Interiores de Cinema de Rio Preto foram idealizados e executados a partir de 2008. A Parada LGBTQIA+ teve sua primeira edição na cidade em 2000. Esses trabalhos têm em comum a urgência na apresentação para a comunidade, pois representam a voz sufocada por décadas ou séculos, diante de um acervo de produção cultural predominantemente heteronormativo, já mofado. Os comportamentos afetivos e sexuais, e até as apresentações estéticas em desacordo ao binarismo de gênero, eram e são coadjuvantes nas artes. Só agora, há pouco tempo, podemos falar em protagonismo LGBTQIA+ na cultura, só recentemente podemos ter modelos físicos e de comportamento positivos ou plenos, sobretudo diversos.


Apresentar e inserir o tema da diversidade sexual e de gênero em exposição fotográfica, livro, filme e afins, já estava atrasado. Era preciso correr contra o tempo para corrigir o próprio tempo perdido. É provável que esses produtos foram tão bem aceitos pelo público, em editais, prêmios, parcerias governamentais e da sociedade civil porque numa época anterior à explosão das redes sociais e o mundo virtual, a tela grande de cinema, as livrarias e o formato livro, as exposições e a rua eram palco de manifestações.


Ainda que em meio a uma dicotomia de construção versus desconstrução, sabe-se que a sociedade se organiza entre os poderes Executivo, Legislativo e Judiciário. Existem teses de que a imprensa e a internet com as redes sociais representariam o Quarto Poder. As ONGs, os coletivos diversos e os indivíduos não-governamentais, representariam - assim como os artistas - um outro pilar de poder. Acredito que pensar, apoiar e incrementar essa estrutura de poder da arte e das organizações da sociedade civil é repensar um caminho mais sábio, igualitário e democrático.


O papel do GADA e outra instituições que são centros de referência LGBTQIA+ sempre foi a de “casa de mãe”, o refúgio e o lugar de organização do coletivo para se projetar anseios por meio de políticas públicas. Para muitas ações foi, e ainda é, necessário um CNPJ para representar um projeto e a maioria dos agrupamentos, sobretudo os virtuais, não possuem essa legalidade. A obtenção de recursos públicos e privados para os feitos no universo do audiovisual já comentados, só foi possível pela representatividade do GADA em diversas instâncias de poder e sua trajetória de mais de vinte anos no enfrentamento das desigualdades. Implantar a arte e cultura como uma forma de pensar a comunicação da instituição com a comunidade em geral foi um divisor de águas, terras, tempo e espaço.








Link Transparências e Palavras Que Somos Nós

TRANSPARÊNCIAS

Bio

Fábio Takahashi é jornalista, publicitário e produtor cultural. Há vinte anos coordena projetos sociais de promoção dos direitos humanos e saúde integral, por meio da arte e cultura, no GADA, uma ONG de São José do Rio Preto, interior de São Paulo.

Instagram: @fabiotakahashibr

Fábio Takahashi




Texto: Katawixi

Imagens: Walter Antunes, frames de divulgação Transparências, fotos de exposições de Walter Antunes/Fábio Takahashi



Referências

A trajetória e as conquistas do movimento LGBTI+ brasileiro.

nexojornal

BUTLER, Judith. Corpos em aliança e a política das ruas: notas para uma teoria performativa de assembleia; tradução Fernanda Siqueira Miguens; – 1ª ed. – Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2018.

LOURO, Guacira Lopes. Um corpo estranho. Belo Horizonte: Autêntica, 2008.


SENA, Ercio; GUSMAN, Juliana Magalhães e Ribeiro. Apropriações do discurso neoliberal das lutas por reconhecimento. Contracampo, Niterói, v. 39, n. 1, p. 151-166, abr./jul. 2020


Será que podemos, mesmo, comemorar a visibilidade LGBTQIA+?

www.mundorh.com.br


Site GADA