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Um longo e tenebroso inverno

há 11 minutos
8 min de leitura

A história conta de um encontro na praia no Rio de Janeiro nos primeiros dias logo após o primeiro de abril de 1964, data em que os brasileiros acordaram e souberam que o golpe tramado por décadas por militares, empresários, oligarquias, políticos, jornalistas e uma corja de oportunistas estava em execução, apoiado diretamente pelo governo dos Estados Unidos.


Na praia quase deserta, Tião Dentista encontra o amigo João. Nas palavras do próprio Tião, ele indaga com otimismo o João sobre a possibilidade de reversão do golpe, João estende as mãos, segura a cabeça do amigo e diz no seu ouvido “é um longo e tenebroso inverno”.


O verso “Depois de um longo e tenebroso inverno” é o segundo do poema “Visita à Casa Paterna” de Luís Guimarães Júnior. João Saldanha estava citando o poema ao falar do que viria com o golpe ou apenas pensou no que significa um longo e tenebroso inverno? Importa é a sentença de João sobre o futuro do Brasil. Na frase dita no ouvido de Tião, não havia “depois”, somente o “longo e tenebroso inverno”.


Passados sessenta e dois anos do início do golpe, o Brasil não encontrou o depois, o inverno tenebroso não tem fim. 


A eliminação do pensamento, a tortura física e mental que produzem o desespero e a procura por alívio a qualquer custo, fazem com que as mentes se escorreguem a acreditar que a Ditadura se encerrou em 1985. A Ditadura foi sucedida por um governo presidido pelo presidente do partido da própria Ditadura, o que escancara o escárnio da definição de fim da Ditadura. A democracia permitida e vigiada que veio a seguir, é o atestado, assinado por todos os brasileiros, de não-óbito da Ditadura.


O assassinato pela Ditadura de milhares de indígenas, o desaparecimento e assassinato de milhares de pessoas que os relatórios oficiais não dão conta de relatar, são apenas a ponta da profunda dor sentida na carne do povo brasileiro. 


Já o assassinato da inteligência e da própria alma nascente do Brasil, executado pela Ditadura, esse quase ninguém deseja admitir que exista.


A Ditadura assassinou mais indígenas do que a população das cidades para poder implementar a destruição da floresta, a “marcha para o oeste”, conclamada na primeira metade do século vinte, foi efetivamente realizada pela Ditadura.


Conceitos e princípios passaram a existir no Brasil desde a invasão dos portugueses, trazidos da Europa, com a Ditadura Militar-Civil, esses princípios antes disfarçados nas artimanhas lusitanas, se transformaram desavergonhadamente como lei inscrita na pedra em mandamentos para o novo velho país do futuro:


1 O guardinha da esquina é autoridade.


2 Você sabe com quem está falando?


3 As ordens vieram de cima.


4 Quem pode manda.


5 Quem tem juízo obedece.


6 Ordens devem ser cumpridas.


7 Eu era apenas o soldado que conduzia a barca que levava as pessoas para serem assassinadas no inferno.


8 Fi-lo porque Qui-lo.


9 Prefiro o cheiro dos cavalos ao cheiro do povo.


10 Brasil: Ame-o ou Deixe-o.



Entre os crimes da Ditadura Civil-Militar para implementação do neocolonialismo no território brasileiro, está o êxodo forçado, a expulsão do povo da própria terra, forçando ao abandono das suas vidas, das suas tradições, da sua essência, transformando essa população em habitantes das favelas como mão-de-obra barata para os empreendimentos das multinacionais importadas para colonizar o Brasil novamente.


Ao som urbano do iê-iê-iê, a Ditadura conseguiu algo que parecia impossível no país das sesmarias: aumentar o latifúndio, a fome e a miséria.


A criação e difusão de falsos mitos pela Ditadura ocupou as mentes, também através do assassinato e da tortura, ao ponto que em 2026 até os que se opõem a Ditadura não se livraram desses falsos mitos, nem mesmo quando parecem contra eles argumentar:


“A Amazônia é um inferno verde”


“Unidade Nacional”


“Brasil: país das oportunidades”


“No Brasil não prospera quem não quer”


“Brasil país do futuro”


“Brasil, o maior do mundo”


“Os militares são a salvação nacional”


“Primeiro a gente trabalha para o bolo crescer, só depois que a gente divide o bolo”


A eliminação física com o assassinato das pessoas pela Ditadura Militar-Civil apagou as melhores mentes brasileiras no campo, na cidade, na política, na arte, na academia. Sobreviveu dessa inteligência brasileira quem teve sorte de fugir. Mesmo os que sobreviveram tiveram que se adaptar ao que restou, ao que a Ditadura Militar-Civil permitiu que continuasse existindo ou que ela mesma estimulou para que surgisse, para que viesse à tona e ocupasse o espaço anterior da alta inteligência e espíritos brasileiros: um oceano imenso de mediocridades passivas, incompetentes, descompromissadas com o país, amedrontadas, que atuam sempre sob auto-vigilância, auto-censura, produzindo o que quer que seja com o rótulo “ao menos isso é permitido”.


A não punição dos articuladores, dos executores, dos beneficiários do gigantesco esquema de corrupção da Ditadura Civil-Militar pelo período de 1964 até 1990, que hoje fica evidenciado apenas como período inicial do Golpe-Ditadura, permitiu, autorizou, a continuidade do Golpe e do sistema implantado a partir do primeiro de abril de 1964, agora atualizado sob a máscara de governos eleitos democraticamente pelo povo.


As empresas que atuam sob o nome de jornalismo e que foram artífices do golpe em 1964, continuam atuando livremente e aprimorando o sistema implantado com micro-golpes, ajustes de rotas e itinerários.


As oligarquias, empresários, políticos, que tramaram e se beneficiaram do golpe de 1964, reinam livremente como a solução pacífica para a volta da democracia no país, como sustentadores, como empregadores, como mediadores, para um país pacificado por obra de uma borracha mágica que possa apagar o sangue, a dor, a destruição de um país, não em 1964, não em 1985, mas no dia-a-dia de 2026.


O aumento do latifúndio feito através da expulsão do povo da sua própria terra, através da baioneta e do canhão, foi acompanhado pela destruição da infraestrutura existente no país, pela destruição da indústria e do empreendedorismo nacionais, pela destruição do sistema de educação nascente, pela entrega de todas as riquezas nacionais, pelo fortalecimento dos cartéis e monopólios e pela institucionalização do crime organizado das altas esferas.


Assassinaram no nascedouro um país que fervilhava para nascer nas artes, no debate público racional e verdadeiro, nas ciências, na organização popular dos trabalhadores que semeiam a terra e conduzem o trem.



A luta sindical construída desde o início do século foi substituída pelo peleguismo, tolerado, permitido e alimentado pela Ditadura Militar-Civil, o mesmo peleguismo tomou conta da maior parte da universidade, das artes, da imprensa, do pensamento e do novo cotidiano dos brasileiros: aceitação, auto-vigilância, medo, tudo tem que ser dentro do permitido, sabe-se lá por quem.


Não é mero acaso, é a história que mostra a explosão dos mercadores da fé, das falsas religiões, dos falsos pastores, dos falsos padres, em todo o território nacional sob o domínio da Ditadura Militar-Civil, ao mesmo tempo em que ocorre o massacre dos verdadeiros líderes religiosos: cristãos, indígenas, candomblecistas, autêntico-populares, benzedeiras, rezadeiras, curadores da alma e por séculos também, os únicos médicos dos corpos do povo brasileiro.


Foi realizado o aborto do país que poderia vir a ser, para o retrocesso, para ressuscitar um período colonial ainda mais rigoroso que o de 1500-1822. 


As mentes da “grande e bela brasiliana” que estava a emergir em todos os espaços da vida cotidiana, foram mortas, silenciadas, torturadas, enterradas vivas, para o surgimento e a exaltação da nova máxima nacional: “como é bonito ser feio”.


O circo e as artes populares brasileiras foram assassinados para dar espaço ao entretenimento global massificador e doutrinário, pelo bem da invenção da identidade nacional, forjada pelos neocolonizadores.


Em 2026 o Golpe de primeiro de abril de 1964 segue vivo e mais forte do que nunca. Isso é o que permite uma eleição farsesca sem a participação popular, presidida por juízes envolvidos em corrupção escancarada nas páginas de qualquer noticiário, um país com a maior taxa de juros do mundo em que o índice de desemprego cai a todo momento porque não se contabiliza os desempregados, onde o povo que planta a terra, não pode plantar a terra.


Em 2026 o Golpe de 1964 mostra que venceu e que continua: candidatos apoiados pelo próprio povo defendem a intervenção e a entrega do Brasil aos Estados Unidos, enquanto bandeiras norte-americanas e do sionismo israelense são levantadas em delírio nas praças públicas. 


Militares são candidatos, integrantes da Polícia Militar, uma invenção da Ditadura Militar-Civil, serão eleitos como protetores do povo sob o lema de “bandido bom é bandido morto”, os bandidos no caso são os filhos dos pobres das periferias criadas pela mesma Ditadura.


Estelionatários, condenados, fugitivos, foragidos, celebridades-desconhecidas, estão entre os preferidos do povo. Os defensores de qualquer forma de Genocídio contra os brasileiros são favoritos para serem eleitos pelo próprio povo brasileiro. 


Em 2026 o povo brasileiro se prepara para entrar para a história da humanidade como o único povo que elegeu duas vezes o seu próprio genocida.


A juventude nem mesmo se acredita brasileira, educados por bandeiras das bigtechs, os jovens sentem-se universais, envolvidos e escondidos atrás de um avatar ao som de música feita por inteligência artificial, desacreditam do Brasil, desacreditam de um futuro coletivo, mas têm a certeza, cada um tem a sua, que terão a sorte grande vinda da tela do celular.


A população adulta classificada como não-jovem e a população classificada como idosa, adotou o inconformismo em relação aos jovens, seria a juventude a verdadeira responsável por todos os males atuais por não saberem zelar pelo mundo maravilhoso construído pelas gerações anteriores. Adotou o conformismo e o auto-elogio em relação a si mesma e o mais notável: adotou uma nostalgia por um mundo que não existiu. Há os que pensam que são quase heróis que derrotaram a Ditadura, essa de 1964, que continua viva.


Sim, é bonito ser feio.


Sim a apatia venceu.


João Saldanha, o amigo do Tião Dentista, sonhou e criou o maior time de futebol da história humana. João sacrificou a si mesmo para não permitir que os militares estragassem a sua Seleção Brasileira. O Brasil venceu o tricampeonato, ficou em definitivo com a Taça (depois roubada diante dos olhos da Ditadura). Pelé cumpriu o destino do mito verdadeiro. Ali acabou a história e acabou o futebol com o Mistério Vivificado. De verdade, Brasil se transformou no maior do mundo. Desde então o futebol só existe nos campos com o espírito das crianças ou quando isso é transposto para um “campo oficial" como fez Sócrates, o brasileiro. João Sem Medo, o brasileiro de todos os campos e todas as áreas segue brilhando no céu como a estrela solitária de um Brasil que é, um Brasil que seria, que é. “Há de ser Glauber!. Há de ser!”


O caramujo que é observado pelo gato é fruto de um dos incontáveis crimes ambientais da Ditadura Civil-Militar. Caramujo africano trazido ao Brasil por auto-denominados empreendedores nos anos 1980, autorizados, financiados pela Ditadura, para serem cultivados no país e servidos em restaurantes da auto-proclamada elite brasileira. 


Não fizeram sucesso, sem predador natural, sem que os responsáveis da Ditadura fossem responsáveis com a terra, se alastraram por todos o país, de uma forma lenta e gradual, como a Ditadura se manteve, se mantém, lenta e gradual. Os caramujos não são os culpados por serem trazidos da África, eles cegam e matam os gatos. 


Na pracinha da cidade, o guardinha da esquina rouba o dinheiro que o menino preto conseguiu vendendo amendoins, o menino não se importa, quando crescer, ele quer ser policial para ter arma e poder matar gente.




Visita à Casa Paterna


À minha irmã Isabel.


Como a ave que volta ao ninho antigo,

Depois de um longo e tenebroso inverno,

Eu quis também rever o lar paterno,

O meu primeiro e virginal abrigo.


Entrei. Um gênio carinhoso e amigo,

O fantasma talvez do amor materno,

Tomou-me as mãos, - olhou-me, grave e terno,

E, passo a passo, caminhou comigo.


Era esta sala... (Oh! se me lembro! e quanto!)

Em que da luz noturna à claridade,

Minhas irmãs e minha mãe... O pranto


Jorrou-me em ondas... Resistir quem há-de?

Uma ilusão gemia em cada canto,

Chorava em cada canto uma saudade.


Luís Guimarães Júnior, Rio - 1876








fotos e vídeos: Walter Antunes

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