Três Cantos de Dona Nonata
- Sara Gabriela

- há 18 horas
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O Canto como Grito de Resistência no Coração do Bico do Papagaio
A história de Raimunda Nonata Nunes Rodrigues, a Dona Nonata, é a narrativa viva de uma mulher que fez do trabalho, da luta e da voz um canto de liberdade.
Filha de Seu Calixto e Dona Augustinha, patriarcas da Comunidade Olho D’Água (Centro dos Calixtos), Dona Nonata é uma mulher preta, tocantinense, Quebradeira de Coco Babaçu e referência de força e sabedoria em São Miguel do Tocantins.
Com o olhar firme e o sorriso manso, ela carrega nas mãos as marcas do coco e na voz o poder do canto que empodera, une e emociona. Seu ativismo ultrapassou o movimento sindical rural - onde atuou como ex-presidente da Associação Regional de Mulheres Trabalhadoras Rurais do Bico do Papagaio (ASMUBIP) - e ecoa até hoje nas palmeiras e nos mutirões das Quebradeiras.
Para Dona Nonata, cantar é empoderamento.
“Eu sou tímida, mas quando canto a timidez vai embora. O canto é uma batalha, é o jeito que a gente mostra o que quer, o que reivindica. O canto fala tudo”, diz com a firmeza de quem fez da arte um instrumento de luta.
O Poder das Encantadeiras e a Força do Canto-Trabalho
Dona Nonata integra o grupo “As Encantadeiras”, formado por Quebradeiras de coco dos estados do Piauí, Maranhão, Tocantins e Pará. O grupo nasceu com o apoio do Movimento Interestadual das Quebradeiras de Coco Babaçu (MIQCB) em 2014 e deu visibilidade às vozes dessas mulheres como coro de resistência.
As músicas das Encantadeiras falam de trabalho, de terra, de fé e de liberdade. Cada verso é um testemunho de vida e uma forma de manter viva a tradição das comunidades babaçueiras.
Em suas apresentações, Dona Nonata mostra que cantar é libertar-se. Sua voz rompe o silêncio, quebra preconceitos e reafirma o orgulho de ser mulher, negra, trabalhadora, quebradeira e tocantinense.
Os Cantos da Tradição e da Luta
Canto 1
A Lida da Roça e o Legado de Seu Calixto
O cabelo da boneca é louro
E o pendão do milho é cacheado
Uma roça bem plantada vale ouro
Quando o chão tá sempre bem molhado
O sertanejo quando chega no roçado
Chega no acero e a vista do outro lado
Chega no eito quatro canto cada lado,
Quatro limpo bem batido e um facão bem amolado
Quando dá meio-dia que o sol vai virando
O almoço vai chegando que a mulher já vem trazer
Acaba de comer que enfrenta seu batente
Ver o sol no poente quando para se esconder
O milho verde tá no ponto de comer
O feijão tá maduro tá no ponto de colher
É tão viçoso que o caroço é graúdo
O algodão promete tudo quando para de chover
É tão viçoso que o caroço é graúdo
O algodão promete tudo quando para de chover
O cabelo da boneca é louro
E o pendão do milho é cacheado
Uma roça bem plantada vale ouro
Quando o chão tá sempre bem molhado
O milho verde tá no ponto de comer
O feijão já está maduro tá no ponto de colher
É tão viçoso que o caroço é graúdo
O algodão promete tudo quando para de chover
É tão viçoso que o caroço é graúdo
O algodão promete tudo quando para de chover
O cabelo da boneca é louro
E o pendão do milho é cacheado
Uma roça bem plantada vale ouro
Quando o chão tá sempre bem molhado
O canto é uma homenagem à agricultura familiar e ao trabalho coletivo. É uma lembrança do tempo em que Seu Calixto reunia os filhos para plantar, colher e cantar juntos, ensinando-lhes o valor da união, da terra e da palavra.
Canto 2
Palmeira-Mulher e as Fases da Vida
Eu já fui Pindoba
Eu já fui Palmeira
Hoje eu sou Coringa,
Hoje eu sou Coringa
Ei pindoba
Ei pindoba
Ei Palmeira,
Ei Palmeira
Eu tô cantando é os babaçuais
Eu tô cantando é os babaçuais
Eu já fui Pindoba
Eu já fui em Palmeira
Hoje eu sou Coringa
Hoje eu sou Coringa
Ei palmeira
Ei palmeira
Ei coringa
Ei coringa
Eu tô cantando é os babaçuais
Eu tô cantando é os babaçuais
Este canto é uma profunda metáfora sobre a palmeira babaçu e a identidade da Quebradeira. Dona Nonata traça as fases de sua vida por meio da árvore: Pindoba (a juventude), Palmeira (a fase adulta, tempo da força e dos frutos) e Coringa (a fase atual).
O Coringa é o cerne da palmeira que, ao deixar de ser frutífera, não é cortada, mas permanece em pé, carregando o conhecimento e oferecendo suporte à comunidade.
Ao se definir como Coringa, Dona Nonata incorpora a resistência ancestral e a permanência do saber, reafirmando que sua luta e sua voz seguem de pé, sustentando a comunidade mesmo após os 70 anos.
Essa analogia do Babaçu-Mulher-Coringa demonstra que a sabedoria da mulher madura é vital, ela é o tronco que sustenta, o elo entre as gerações e o símbolo da continuidade.
Canto 3
Em Roda, em Mutirão
Em roda, em mutirão
A Quebradeira quebra o coco assentada no chão
Em roda, em mutirão
A Quebradeira quebra o coco assentada no chão
Temos Quebradeiras no Pará, no Tocantins
No Piauí e também no Maranhão
E é por isso que eu convido vocês
Pra quebrar o coco em mutirão
Em roda, em mutirão
A Quebradeira quebra o coco assentada no chão
Em roda, em mutirão
A Quebradeira quebra o coco assentada no chão
Vamos pegar o coco na ladeira e no baixão
Pra quebrar o coco em mutirão
Vamos pegar o coco na ladeira e no baixão
Pra quebrar o coco em mutirão
O terceiro canto é um hino à solidariedade e à comunhão das Quebradeiras. Dona Nonata explica que o mutirão é o encontro em que as mulheres quebram o coco em comunhão, mas, mais do que um trabalho coletivo, é um espaço de aprender-ensinar-quebrar.
Ali, histórias, cantos, experiências e ensinamentos são trocados, fortalecendo a união e o aprendizado coletivo.
Ao citar os estados — Pará, Tocantins, Piauí e Maranhão —, o canto mapeia o território da resistência, mostrando que a literatura oral é o veículo da transmissão de saberes coletivos e uma prática educativa ancestral, construída no ritmo do trabalho e da partilha.

foto do livro: As encantadeiras - Quebradeiras de coco babaçu que cantam e encantam
Um Legado de Voz e Esperança
Os cantos de Dona Nonata, 72 anos, são um grito de resistência e um abraço de esperança. Suas palavras e melodias falam de terra, de fé, de ancestralidade e de amor pelo que é simples e verdadeiro.
Na força de suas canções, ecoa o legado de Dona Augustinha, de Seu Calixto, de Dona Didé, Dona Luiza, Dona Quinô e de tantas outras mulheres sábias, cuja força inspira gerações de Quebradeiras e mantém viva a tradição de cantar e persistir.
E assim, entre o som das palhas dos babaçuais, o estalar do coco no machado e no cacete e a sombra das palmeiras, Dona Nonata segue encantando e mostrando que cantar é resistir, é empoderar-se, é existir.

Sara Gabriela Carneiro Silva Vieira
Mulher preta, mãe, professora de Língua Portuguesa e escritora.
De São Miguel do Tocantins, constrói sua trajetória entre educação, literatura
e lutas antirracistas. Graduada em Letras e especialista em Literatura e Ensino
pela UEMA, é mestra em Letras pela UFT e doutoranda em Letras pela UFNT.

texto: Sara Gabriela
link: instagram
foto e vídeos de Dona Nonata: Walter Antunes





