top of page

Três Cantos de Dona Nonata



O Canto como Grito de Resistência no Coração do Bico do Papagaio

A história de Raimunda Nonata Nunes Rodrigues, a Dona Nonata, é a narrativa viva de uma mulher que fez do trabalho, da luta e da voz um canto de liberdade.

Filha de Seu Calixto e Dona Augustinha, patriarcas da Comunidade Olho D’Água (Centro dos Calixtos), Dona Nonata é uma mulher preta, tocantinense, Quebradeira de Coco Babaçu e referência de força e sabedoria em São Miguel do Tocantins.


Com o olhar firme e o sorriso manso, ela carrega nas mãos as marcas do coco e na voz o poder do canto que empodera, une e emociona. Seu ativismo ultrapassou o movimento sindical rural - onde atuou como ex-presidente da Associação Regional de Mulheres Trabalhadoras Rurais do Bico do Papagaio (ASMUBIP) - e ecoa até hoje nas palmeiras e nos mutirões das Quebradeiras.

Para Dona Nonata, cantar é empoderamento.


“Eu sou tímida, mas quando canto a timidez vai embora. O canto é uma batalha, é o jeito que a gente mostra o que quer, o que reivindica. O canto fala tudo”, diz com a firmeza de quem fez da arte um instrumento de luta.


O Poder das Encantadeiras e a Força do Canto-Trabalho

Dona Nonata integra o grupo “As Encantadeiras”, formado por Quebradeiras de coco dos estados do Piauí, Maranhão, Tocantins e Pará. O grupo nasceu com o apoio do Movimento Interestadual das Quebradeiras de Coco Babaçu (MIQCB) em 2014 e deu visibilidade às vozes dessas mulheres como coro de resistência.


As músicas das Encantadeiras falam de trabalho, de terra, de fé e de liberdade. Cada verso é um testemunho de vida e uma forma de manter viva a tradição das comunidades babaçueiras.


Em suas apresentações, Dona Nonata mostra que cantar é libertar-se. Sua voz rompe o silêncio, quebra preconceitos e reafirma o orgulho de ser mulher, negra, trabalhadora, quebradeira e tocantinense.



Os Cantos da Tradição e da Luta



Canto 1

A Lida da Roça e o Legado de Seu Calixto


O cabelo da boneca é louro 

E o pendão do milho é cacheado 

Uma roça bem plantada vale ouro 

Quando o chão tá sempre bem molhado 


O sertanejo quando chega no roçado 

Chega no acero e a vista do outro lado 

Chega no eito quatro canto cada lado,

Quatro limpo bem batido e um facão bem amolado 


Quando dá meio-dia que o sol vai virando 

O almoço vai chegando que a mulher já vem trazer 

Acaba de comer que enfrenta seu batente 

Ver o sol no poente quando para se esconder 


O milho verde tá no ponto de comer 

O feijão tá maduro tá no ponto de colher

É tão viçoso que o caroço é graúdo 

O algodão promete tudo quando para de chover

É tão viçoso que o caroço é graúdo 

O algodão promete tudo quando para de chover


O cabelo da boneca é louro 

E o pendão do milho é cacheado 

Uma roça bem plantada vale ouro 

Quando o chão tá sempre bem molhado


O milho verde tá no ponto de comer 

O feijão já está maduro tá no ponto de colher 

É tão viçoso que o caroço é graúdo 

O algodão promete tudo quando para de chover

É tão viçoso que o caroço é graúdo 

O algodão promete tudo quando para de chover


O cabelo da boneca é louro 

E o pendão do milho é cacheado 

Uma roça bem plantada vale ouro 

Quando o chão tá sempre bem molhado


O canto é uma homenagem à agricultura familiar e ao trabalho coletivo. É uma lembrança do tempo em que Seu Calixto reunia os filhos para plantar, colher e cantar juntos, ensinando-lhes o valor da união, da terra e da palavra.





Canto 2

Palmeira-Mulher e as Fases da Vida


Eu já fui Pindoba 

Eu já fui Palmeira

Hoje eu sou Coringa, 

Hoje eu sou Coringa


Ei pindoba

Ei pindoba 

Ei Palmeira, 

Ei Palmeira


Eu tô cantando é os babaçuais

Eu tô cantando é os babaçuais


Eu já fui Pindoba 

Eu já fui em Palmeira

Hoje eu sou Coringa 

Hoje eu sou Coringa


Ei palmeira 

Ei palmeira 

Ei coringa

Ei coringa


Eu tô cantando é os babaçuais

Eu tô cantando é os babaçuais


Este canto é uma profunda metáfora sobre a palmeira babaçu e a identidade da Quebradeira. Dona Nonata traça as fases de sua vida por meio da árvore: Pindoba (a juventude), Palmeira (a fase adulta, tempo da força e dos frutos) e Coringa (a fase atual).


O Coringa é o cerne da palmeira que, ao deixar de ser frutífera, não é cortada, mas permanece em pé, carregando o conhecimento e oferecendo suporte à comunidade.


Ao se definir como Coringa, Dona Nonata incorpora a resistência ancestral e a permanência do saber, reafirmando que sua luta e sua voz seguem de pé, sustentando a comunidade mesmo após os 70 anos.


Essa analogia do Babaçu-Mulher-Coringa demonstra que a sabedoria da mulher madura é vital, ela é o tronco que sustenta, o elo entre as gerações e o símbolo da continuidade.





Canto 3

Em Roda, em Mutirão


Em roda, em mutirão

A Quebradeira quebra o coco assentada no chão

Em roda, em mutirão

A Quebradeira quebra o coco assentada no chão


Temos Quebradeiras no Pará, no Tocantins

No Piauí e também no Maranhão

E é por isso que eu convido vocês

Pra quebrar o coco em mutirão


Em roda, em mutirão

A Quebradeira quebra o coco assentada no chão

Em roda, em mutirão

A Quebradeira quebra o coco assentada no chão


Vamos pegar o coco na ladeira e no baixão

Pra quebrar o coco em mutirão

Vamos pegar o coco na ladeira e no baixão

Pra quebrar o coco em mutirão


O terceiro canto é um hino à solidariedade e à comunhão das Quebradeiras. Dona Nonata explica que o mutirão é o encontro em que as mulheres quebram o coco em comunhão, mas, mais do que um trabalho coletivo, é um espaço de aprender-ensinar-quebrar.


Ali, histórias, cantos, experiências e ensinamentos são trocados, fortalecendo a união e o aprendizado coletivo.


Ao citar os estados — Pará, Tocantins, Piauí e Maranhão —, o canto mapeia o território da resistência, mostrando que a literatura oral é o veículo da transmissão de saberes coletivos e uma prática educativa ancestral, construída no ritmo do trabalho e da partilha.


foto do livro: As encantadeiras - Quebradeiras de coco babaçu que cantam e encantam



Um Legado de Voz e Esperança

Os cantos de Dona Nonata, 72 anos, são um grito de resistência e um abraço de esperança. Suas palavras e melodias falam de terra, de fé, de ancestralidade e de amor pelo que é simples e verdadeiro.


Na força de suas canções, ecoa o legado de Dona Augustinha, de Seu Calixto, de Dona Didé, Dona Luiza, Dona Quinô e de tantas outras mulheres sábias, cuja força inspira gerações de Quebradeiras e mantém viva a tradição de cantar e persistir.


E assim, entre o som das palhas dos babaçuais, o estalar do coco no machado e no cacete e a sombra das palmeiras, Dona Nonata segue encantando e mostrando que cantar é resistir, é empoderar-se, é existir.



Sara Gabriela Carneiro Silva Vieira

Mulher preta, mãe, professora de Língua Portuguesa e escritora.

De São Miguel do Tocantins, constrói sua trajetória entre educação, literatura

e lutas antirracistas. Graduada em Letras e especialista em Literatura e Ensino

pela UEMA, é mestra em Letras pela UFT e doutoranda em Letras pela UFNT.




texto: Sara Gabriela


foto e vídeos de Dona Nonata: Walter Antunes

Katawixi é um lugar de crítica,
análise e divulgação de pensamentos, pontos de vista filosóficos, práticas
e produtos culturais, livres de vínculos institucionais, 
concebido por
Luama Socio e Walter Antunes.
 
Katawixi é antes de tudo o nome
de um povo que flutua agora
em algum lugar na Amazônia.

copyright © 2016 - 2026 KATAWIXI

  • Instagram
  • Facebook App Icon
  • Youtube
bottom of page