Bitita no centro da mandala-Brasil
- Luama Socio
- há 4 dias
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Combater essa miséria desgraçada é o destino da dignidade de quem é preto nesse país. Carolina Maria de Jesus mostra bem o quanto a língua é política ao fazer literatura. Dinamizando o movimento da linhagem legalista da intelectualidade negra brasileira, em Diário de Bitita, Carolina Maria de Jesus investe na esperança de um país organizado de verdade como estado de direito. O outro nome desse livro é Um Brasil para os brasileiros.
À criança brasileira do século XX não é possível que esteja reservada uma trajetória medieval de um Lazarillo de Tormes volvendo-se no futuro em Pedro Malazartes (na melhor das hipóteses). A nova criança fala, não é falada, e exige amor. Porém, à Bitita, é vedado o caminho-padrão das histórias de crianças que irão chegar num futuro “como se” num lar de braços abertos, o futuro da Menina do Nariz Arrebitado, inspirada na Alice (do País das Maravilhas) ou mesmo da Helena Morley (Minha Vida de Menina), todas elas instaladas em casas ricas ou da classe média do século do consumo, com seus maridos, filhos e netos. Bitita não é como essas outras porque Bitita é pobre e preta. Cercada de brutalidade por todos os lados. Uma menina natural-real-moderna e, infelizmente, também pós-moderna, desse país. O lar que Bitita almeja é um novo Brasil, um lar a ser inventado para além da medíocre intimidade da vida privada do modelo liberal feminino disponível para o século das grandes guerras. Sendo esse “além” um lugar que existe num depois da ultrapassagem da prática dos grandes crimes e das grandes injustiças; os crimes tradicionais do Brasil: todos aqui reunidos.
— Será que vamos ter um governo que preparará um Brasil para os brasileiros?
Porém, infelizmente, outro epíteto para este livro poderia ser: “a cultura brasileira resumida em crimes”. Carolina Maria de Jesus atua junto aos seus leitores como uma espécie de professora (como uma espécie de continuadora de Maria Firmina dos Reis), ensinando o que é esse país, para os que já sabem o que ele é, mas ainda não fizeram uma ideia coesa disso.
Os pretos tinham pavor dos policiais, que os perseguiam. Para mim aquelas cenas eram semelhantes aos gatos correndo dos cães. Os brancos, que eram os donos do Brasil, não defendiam os negros. Apenas sorriam achando graça de ver os negros correndo de um lado para outro. Procurando um refúgio, para não serem atingidos por uma bala.
Como se em nome desses mesmos brasileiros, são enunciados, no livro, todos os grandes crimes que indignam o século XXI, facilmente reconhecidos como plenamente atuais, enfim os crimes da sociedade privada dos brancos ricos, com suas intimidades na forma de posses, que modulam e tentam modelar toda a existência social.
Portanto, pretos são presos porque estão simplesmente passando na rua, sobrevivendo sob a polícia; explorados sobrevivem sob roubo, extorsão e escravização de patrões exploradores; meninas e mulheres pretas resistem sob o estupro do homem branco e sob as pancadas do homem preto; meninas pretas sobrevivem ao racismo dos brancos, dos pretos e dos menos pretos; alunos sobrevivem sob professores racistas; todos sobrevivem à fome, à falta de casa, de roupa, de educação, de dignidade trabalhista.
Que fome que nós passávamos! Conseguimos quinze mil-réis, e alugamos um quartinho na casa de um casal de italianos. Dois dias vivemos em paz. Mas no terceiro dia, o dinheiro do aluguel acabou-se porque o senhorio gastou no álcool. Ficou nos xingando: — Vão embora, negros vagabundos. Desocupem o meu quarto.
A criança Bitita expressa a crença de que a moral seja restaurada pela lei. Moral como dignidade humana, não como hipocrisia. Aquela moral indicada no avô, nas freiras, no leitor de jornais, nos médicos. Rui Barbosa sobrevive sob a elite: O Rui dizia que no Brasil ainda vai haver negros doutores, médicos, advogados, engenheiros e até professores. O Brasil não vai ficar assim. Os homens do futuro vão ser mais cultos. Esta canalha de prepotentes vai morrer.
Por hora a cultura reservada à existência da menina preta é ser possuída, explorada, abandonada, presa, maltratada e morta. Um paradoxo existencial daquilo que existe sem lugar para existir.
Se o filho do patrão espancasse o filho da cozinheira, ela não podia reclamar para não perder o emprego. Mas se a cozinheira tinha filha, pobre negrinha! O filho da patroa a utilizaria para o seu noviciado sexual. Meninas que ainda estavam pensando nas bonecas, nas cirandas e cirandinhas eram brutalizadas pelos filhos do senhor Pereira, Moreira, Oliveira, e outros porqueiras que vieram do além-mar.
Iconoclasta e fundamentalmente livre, Bitita expõe também os ângulos péssimos das pessoas boas. A flagrante complexidade da impossibilidade da construção maniqueísta simplificada das personagens ocorre, talvez, por que esta criança é excluída de quase todos os cenários, vagando por situações desfavoráveis em sequência. Além de personagem, Bitita é sobretudo a observadora. Os cenários são desfavoráveis para si própria tanto quanto como para os outros à sua volta. Sendo observadora e também participante, persegue ser justa. Trata-se aqui do exercimento de uma justiça enraizada na autenticidade da expressão. A criança pode ser autêntica, sem medo da verdade, porque não é vista como ameaça séria a ninguém.
O doutor Brand interferiu: — Você não tem educação? — Eu tenho. O teu filho é que não tem. — Cala a boca. Eu posso te internar. — Para o seu filho fazer porcaria em mim, como faz com as meninas que o senhor recolhe? É melhor ir para o inferno do que ir para a sua casa. Doutor Brand, aqui todos falam do senhor, mas ninguém tem coragem de falar para o senhor. Os grandes não têm coragem de chegar e falar! O seu filho entra nos quintais dos pobres e rouba as frutas. Foram avisar a minha mãe que eu estava brigando com o doutor Brand. Foram avisar os soldados. O povo corria para ver a briga. Quando o doutor Brand caminhou na minha direção, não corri e ele não me bateu.
Assim, Carolina Maria de Jesus é essa porta-voz de um modo de ver o Brasil, bem próximo à visão dos brasileiros. Os leitores lêem o Brasil de si mesmos ao lerem o Diário de Bitita. Esses leitores brasileiros, de agora, do século XXI, reconhecem nesse livro do século XX, o Brasil que está “ali”, porque ele está “aqui”. Sabe-se, na pele ou pelo noticiário: quantas pessoas estão vivendo agora sob as condições análogas à escravidão, presas às fazendas, às cozinhas, garimpos, comércios, mercados, indústrias e bordeis? Quantos pretos estão sendo mortos pela polícia nesse momento? Quantas mulheres estão apanhando de homem? Quantas crianças estão passando fome? Quantas meninas estão sendo estupradas? Quantas mulheres estão sendo abusadas? Quantas crianças estão sofrendo racismo na escola? Quantos trabalhadores pobres estão levando calotes? Quantas pessoas não têm casa para morar? Quantas pessoas não tem acesso a hospital? Quantas pessoas não tem acesso à informação? Quantas pessoas não tem acesso à educação?
A palavra “inveja” aparece algumas vezes no texto de Bitita, não como sentimento mau, sintoma de algum defeito de caráter da menina, mas como mecanismo social de compensação da exclusão discernível na voz da menina desejante.
Tinha uma negrinha Isolina que sabia ler. Era solicitada para ler as receitas. Eu tinha uma inveja da Lina! E pensava: “Ah! Eu também vou aprender a ler se Deus quiser! Se ela é preta e aprendeu, por que é que eu não hei de aprender?”
E então, o que é revelado pelos leitores como o bonito deste livro, sua literatura mesmo, seu charme, sua arte, o que faz emocionar, é a pura contradição da mente viva, em movimento, de Bitita; uma contradição inerente a tudo que é humano, que se debate entre o real e o ideal, entre o querer e o dever, ou entre não querer num momento, mas querer a mesma coisa em uma outra vez, uma cabeça que se contradiz nos detalhes, não obstante cumpra os requisitos de um discurso coerente no todo. A voz de uma Bitita que, num momento não consegue entender qual é a graça de bailes, e noutro, se demite do emprego com as freiras porque tem vontade de ir justamente… a um baile. A mesma menina que quis ser homem para ser forte também os analisa com olhos de namoradeira ou de feminista. Observa o pai, o avô, os tios, os primos, os patrões e patrõezinhos, os fazendeiros, as autoridades políticas, as autoridades intelectuais, os policiais, comerciantes, empregados, advogados, médicos, meninos pretos, meninos brancos; observa as mulheres, mãe, tias, primas, madrinhas, patroas, patroinhas, freiras, professoras, primas, avós; e nessa observação/visão encenada, Bitita expressa uma série de contradições emocionais sutis que vão tecendo o texto na forma da mandala-Brasil. Bitita ao centro, e a realidade social pelos raios e pelas margens. Enfim, uma voz que fala do Brasil através de todas as micro-contradições da cabeça de uma apenas menina.
Agradecimentos a Michelle Duarte, Walter Antunes, Naiara Nascimento e a todos os participantes do Círculo Literário de CiberLeitura, Projeto de Extensão do curso de Letras da Universidade Estadual do Tocantins-Unitins, em especial aos que se reuniram para conversar sobre Diário de Bitita, de Carolina Maria de Jesus, no dia 14 de junho de 2025.
Referência:
JESUS, Carolina Maria de.
Diário de Bitita. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1986.
FOTO: Walter Antunes