• Daniel Placido

Os dilemas da vida de Rosa Luxemburgo num filme de Margarethe von Trotta



O filme “Rosa Luxemburgo” propõe não apenas uma leitura historicamente contextualizada da faceta política da revolucionária polaco-germânica Rosa Luxemburgo (1871-1919), mas também do seu lado humano e feminino, ou seja, da mulher sensível, culta e intensa, sempre cercada de muitos amantes. Os momentos naturais de fragilidade e hesitação -- sim, uma Rosa -- são conjugados com os de determinação e coragem -- todavia, uma Rosa vermelha --, destacando-se como intelectual e líder política em uma época na qual as mulheres sofriam, ainda mais do que hoje, com toda ordem de preconceitos, mesmo nos círculos ditos “progressistas”.


Conforme é apresentado no filme, Rosa Luxemburgo (interpretada pela atriz alemã Barbara Sukowa) é uma mulher que, não obstante ser oriunda de uma classe social abastada, assume um compromisso firme com a luta da classe operária de seu tempo, sem recuar mesmo diante da perseguição, da prisão e da ameaça à sua vida. Não se sente amedrontada pelo autoritarismo dos Impérios russo e alemão, tampouco teme discordar com veemência das posições de seus “camaradas” da social-democracia. Movida por uma avassaladora paixão, sofre uma espécie de transfiguração quando está em âmbito público: a mulher sensível e afável aparece como uma oradora implacável e sagaz diante da militância partidária e das massas, respeitada até mesmo pelos adversários conservadores. Entremeado por momentos de lirismo, de lembranças da infância, dúvidas e angústias existenciais, o filme delineia os principais momentos da biografia política de Rosa Luxemburgo, desde sua prisão na Polônia (na época, sob a égide da Rússia) até seu assassinato trágico durante a revolução na Alemanha entre 1918-1919, passando pelo período de prisão durante a I Guerra Mundial.


Ao longo do filme são retratadas algumas lideranças históricas do Partido Social-Democrata Alemão (SPD), como Karl Kautsky, E. Bernstein, Clara Zetkin, Karl Liebknecht, entre outros. Além disso, uma parte significativa das cenas tem por enfoque a relação de Rosa com esse Partido, amiúde marcada por tensão e polêmica. Conforme é revelado pelo desenrolar da trama, os dilemas de Rosa com o SPD podem ser resumidos em duas grandes questões.


A primeira delas é a necessidade do Partido construir uma aproximação com as massas, radicalizando sua estratégia, na concepção de Rosa. O Partido opta pela via da democracia parlamentar, o que, com o tempo, se revelará uma capitulação diante do jogo político da burguesia, a qual desarmará qualquer perspectiva de ruptura revolucionária.


A segunda é a questão do imperialismo e do militarismo em que o capitalismo do começo estava mergulhado desde o final do século 19. Rosa pressente nuvens carregadas a nublar o céu da Europa, até a tempestade da Guerra irromper furiosa no horizonte, com um nível de barbarismo e mortandade como nunca antes tinha sido presenciado. Como escreveu na época o poeta austríaco Georg Trakl, cujo ulterior e dramático suicídio teve relação inequívoca com os horrores da Grande Guerra: “...E levemente, nos canaviais, soam as flautas sombrias do outono./ Oh, dor orgulhosa! Vós, brônzeos altares,/ Uma dor portentosa alimenta hoje a chama escaldante do espírito,/ Os filhos que ainda hão-de nascer.”(“Grodek”, 1914; tradução: J. Barrento)


O filme de Margarethe von Trotta expõe o posicionamento majoritário dos sociais-democratas alemães, os quais, apesar dos protestos de Rosa e de outros militantes, acabam por apoiar a entrada do Império alemão na I Guerra, aviltando o internacionalismo da tradição socialista e operária. A posição radical de Rosa contra um conflito bélico “nacionalista” a ser travado por trabalhadores contra trabalhadores nas trincheiras tem um custo, entretanto: a prisão.


O filme reconstrói com a devida dramaticidade o momento em que, com a Revolução Russa de 1917 e a derrota acachapante da Alemanha na Primeira Guerra, cujo resultado será o colapso do Império alemão e a consequente criação da República de Weimar, Rosa Luxemburgo e seu colega Karl Liebknecht (filho de Wilhelm Liebknecht) separam-se em definitivo da social-democracia no poder e optam por uma tentativa de insurreição armada no quadro de crise política e social do país. A revolta, porém, malogra, pois provavelmente seus artífices políticos superestimaram a força e influência dos espartaquistas no meio militar. Em seguida, os revoltosos são reprimidos ferozmente com o apoio e conivência do governo de coalização do qual a social-democracia participava. Nesse contexto de agitação e derrota política, Rosa Luxemburgo e Karl Liebknecht acabam assassinados de forma brutal por grupos paramilitares de direita que, mais tarde, seriam a base de sustentação do nazismo... O martírio após uma revolta fracassada -- como outrora o trácio Espártaco -- foi o último voo dessa águia, como Lênin a chamou posteriormente, em forma de homenagem, apesar da existência de algumas divergências entre eles.


Embora o roteiro não explore tanto este aspecto, é amplamente conhecido o fato de que Rosa enxergava tendências perigosas mesmo no leninismo, como afirma a pesquisadora Isabel Loureiro: "Ela se opunha à concepção leninista de partido-vanguarda porque temia acima de tudo a separação entre dirigentes e dirigidos, chefes (como dizia ironicamente) e massas, tal como estava acontecendo no processo de burocratização da social-democracia alemã, que ela acompanhou de dentro. No seu entender, o papel da liderança é acabar com a divisão entre vanguarda e massa, é transformar a massa em líder de si mesma. A disciplina arbitrária imposta pelos dirigentes às bases retira a responsabilidade delas e as infantiliza, num movimento que leva o partido a transformar-se num aparato burocrático dominado por uma camarilha de líderes ‘infalíveis".


Rosa Luxemburgo, contudo, não viveu mais alguns anos para presenciar nos rumos da Revolução socialista na Rússia o hiato crescente entre dirigentes e massa, partido e classe operária, a tomar contornos policialescos, autocráticos e soturnos com a emergência do estalinismo.


Pode-se dizer em retrospectiva, sem exagero ou cair em um clichê: o fracasso da revolução socialista na Alemanha, com o apoio dos sociais-democratas, não só ceifou a vida de figuras políticas extraordinárias como Rosa Luxemburgo e Karl Liebknecht, mas abriu caminho para algo muito pior do que a tirania do II Reich e o rufar de tambores da Primeira Guerra: a solução nazifascista, alimentada em um clima de crise social e econômica, humilhação, ressentimento e desespero que marcaria a Alemanha dos anos 20.




Filme: “Rosa Luxemburgo” (no original, "Rosa Luxemburg"); Direção: Margarethe von Trotta; País: Alemanha/Tchecoslováquia; Ano: 1986


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Daniel Plácido é professor do ensino básico, licenciado em Filosofia pela USP, especialista em História pela PUC-SP e mestrando em Filosofia pela UFU. Atuou também como professor em cursinhos populares. Co-editor da revista Mística Revolucionária: https://misticarevolucionaria.com.br/