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Os corpos das mulheres negras e a ironia do Brasil contado por Machado


Estátua da cabeça de Luís Gama, advogado negro que lutou pela abolição da escravidão no Brasil da segunda metade do século XIX. Largo do Arouche, São Paulo, Brasil.




Em três contos de Machado de Assis os corpos das mulheres negras aparecem como o elemento social representativo da força nacional de subjugação colonial escravista. Lucrécia em O CASO DA VARA, Arminda em PAI CONTRA MÃE e Mariana em MARIANA.


Esse aparecimento revela a pessoa negra oprimida e massacrada justamente naqueles traços que fariam dela uma pessoa e não uma máquina, um objeto, um animal útil de pertencimento ao aparato do trabalho doméstico ou então um bicho de estimação âncora de afeto fácil.


A pessoalidade humana é suprimida de Lucrécia, proibida de participar de uma conversa e rir, de Arminda dar à luz um filho e de Mariana amar. Trata-se, pontualmente, da negação da intelectualidade, da maternidade e do amor, direcionada à mulher negra como uma arma apontada para a cabeça do condenado.

Ao traçar quadros literários dessas negações Machado de Assis aponta para o sentido de horror contido na percepção de uma cultura específica, imposta por uma estrutura social profundamente criminosa, caracterizada por uma brutalidade banal e difusa, qual seja, a brutalidade sobre a qual se fundamenta a organização do estado brasileiro desde seus inícios, prolongando-se até hoje.

A ironia do Machado é a ironia do Brasil. As definições correntes para essa famosa figura de linguagem machadiana devem se estender por entre uma visão polidimensional da obra. Ela aparece em todos os pontos do jogo de contrastes das composições.


Do ponto de vista moral é tratado aqui o contraste entre a potência de amar, realçada pela figura da mulher escravizada mas entrevista nos traços de todas as outras personagens, e a violência sistemática do arranjo social, realçada pela figura dos pares masculinos brancos: Damião, Cândido e Coutinho, ausente, no entanto, das figuras das mulheres negras; presente novamente nas figuras das mulheres brancas: Rita, Clara e Amélia. Moralmente é um contraste entre Cristo - as mulheres negras, ou Marias-Marianas, Nossas Senhoras Aparecidas - e Pôncio Pilatos lavando as mãos com a sua turma de césares, filisteus, fariseus e judas no backstage simbólico-religioso da sustentação da sociedade da colônia.


A potência de amar, tão bonita enquanto encarnada na mulher negra, sofre então uma caçada em cada um dos contos, a qual, com ares de aproximação sexual - portanto prosaicamente justificável diante da vaga promessa do florescimento do amor-, revela-se apenas a pura caçada fascista de sempre: caça-se para castigar com a vara, para capturar a escrava como um serviço devido a um senhor rico (até mesmo à custa do aborto de um feto de criança negra) e caça-se para recuperar a mulher-bicho de estimação da casa.

A potência de morte, tão aparentemente medíocre, encarnada no homem branco burguês, não haverá de ser confundida aqui com amor, pois que o substitui por desejos recalcados, ações egoístas e caprichos típicos de vidas que, todos sabem, caracterizam-se sobremaneiramente por apresentarem-se cheias de miríades de desatenções e desfazeres. Desatenções essas que fazem do Brasil essa colônia tão agradável, simpática e rica, capaz de sustentar nas conversas de seus salões e redações da pouca imprensa, o negro escritor, Machado.

MARIANA apresenta bem nítido o contraste entre o romantismo da personagem Mariana e o naturalismo prosaico das personagens narradoras encarnadas em Macedo e Coutinho. Esses dois poderiam ser, hoje em dia, quaisquer um dentre os homens brancos burgueses, portadores da indefectível personalidade cínica de classe média. E obviamente, coerentemente com o realismo do estilo machadiano, são justamente esses que narram e descrevem Mariana. Num híbrido de tons evocantes de coisas como Dom Quixote e Madame Bovary, forja-se o recurso estilístico de sustentação do patético: o patético amor da escrava Mariana - com seu nome vindo de Maria mãe de Jesus - a Mariana, mulatinha, cria da casa, tratada como filha enquanto submetida de bom grado ao cativeiro e tratada como escrava institucionalizada quando tenta se libertar do cativeiro. A construção da aura de deslocamento, desarmonia, enfim da impropriedade de um amor puro e verdadeiro sendo suavemente aviltado, no contexto do narrador, como um caso de romantismo ingênuo mas que, enfim, cabe na história do coração de um homem tristemente comum naquele espacinho reservado para as pequenas verdades de sua pequena vida.


É a vitória da mediocridade burguesa reivindicando seu direito de pequena proprietária performatizando o contraste de sua inerente brutalidade, mesquinhez e vulgaridade, em relação ao sonho de beleza, amor, potência e promessa de Mariana. A profundidade da mediocridade brasileira no Coutinho e a profundidade do romantismo de Mariana em contraste: a ironia de Machado é a ironia do Brasil. Os capazes de amar, no Brasil, são aqueles com raízes nos negros - e nos índios, atestariam depois Glauber Rocha, Caetano Veloso, tantos e tantos outros, etc. - os únicos talvez com a potência desse amor total e sublime de Mariana. Se há ideia de violência impingida através da figura negra, ela é transfigurada pelo significado de um amor profundo e selvagem - condizente com a tradicional composição imaginativa quanto à forma étnica brasileira: como as "raízes" de uma planta forte. Claro, nota-se também que muito da graça literária de Mariana está na descrição de maneirismos dos gestos "ocultistas" daqueles sentimentos amorosos típicos das paixões juvenis: e isso é também ironia.


Enfim uma escravidão prestes a terminar e um não-futuro pela frente às personagens escravizadas.


Não têm espaço no "mundo" brasileiro para as negras dos três contos: a jovem não terá no futuro um lugar, a mãe verá seu filho abortado, e Mariana... morrerá pelas próprias mãos. Realmente não há vestígios de liberdade nesse estado de coisas. Não há anteparo social para o desenvolvimento do amor. Em 2022 faz quatro anos que a vereadora carioca, negra, Marielle Franco, foi assassinada e ainda não se encontra quem a mandou matar.

Machado de Assis publicou os contos O CASO DA VARA, PAI CONTRA MÃE e MARIANA em diferentes datas e suportes - periódicos e livros - no Rio de Janeiro do Brasil entre os anos de 1871 e 1906.




Foto da Estátua da cabeça de Luís Gama : Walter Antunes

Agradecimentos a Walter Antunes, Léo Daniel da Conceição Silva, Soraima Moreira, Jeiciane Soares da Silva Bispo, Francivaldo Souza da Silva e a todos os participantes do Círculo Literário de CiberLeitura, projeto de extensão do curso de Letras da Universidade Estadual do Tocantins-Unitins, em especial aos que se reuniram para conversar sobre os contos "O caso da vara", "Pai contra mãe" e "Mariana", de Machado de Assis, no dia 12 de Março de 2022.