A Não-Eleição
- Walter Antunes

- há 21 horas
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“Vou votar naquele que estiver na frente para não ter segundo turno
e eu não precisar perder meu tempo em ter que ir votar de novo”
_frase ouvida na barraca de caldo de cana
na feira noturna do Largo da Banana
A grosseria do escárnio
Poucos dias faltam para a votação na eleição brasileira e mais parece uma Não-Eleição, um não-acontecimento.
Investe-se na apatia, no desconhecimento, na desinformação, no desinteresse, na desimportância, na mentira como as engrenagens essenciais do mecanismo.
Políticos e partidos, justiça e instituições eleitorais, a imprensa velha e nova - ou o que dela restou, todos satisfeitos com o grande esquema de alienação que é o centro propulsor da não-eleição.
Quem diz “são os tempos atuais”, “é o mundo que temos”, “as coisas agora são assim”, revela na fala a grosseria do escárnio por absolutamente tudo que é o povo brasileiro.
Num ano de Não-Copa, em tempos de não-seleção, de não-futebol, de não-lugar, em tempos de imagens e realidades artificiais soterrando a vida miserável que a maioria das pessoas leva, argumentar que tudo agora é desse jeito, continua sendo o exercício do escárnio grosseiro, não é racional, não é inteligente, não é digno nem verdadeiro.

O esvaziamento da regra do jogo
Quando a regra não é aplicada ou quando ela é seletivamente aplicada, o jogo perde credibilidade e isso fortalece a apatia do povo-eleitor. A não-eleicão de 2026 no Brasil promete superar qualquer eleição anterior sobre a não clareza da regra do jogo:
O inelegível é candidato. Uma infindável multidão de políticos cassados, condenados, estará presente com suas fotos nas urnas como opção para o eleitor. A justiça é lenta não é mesmo? Tem governador que demorou quatro anos para ser cassado por abuso de poder econômico na outra eleição - o tempo de um mandato completo, tem governador que foi afastado, que por pouco não foi preso, que está de volta ao governo, fazendo campanha e influenciando os resultados, tem estado sem governador. Tem político que foi preso, condenado, uma, duas, três vezes, e está habilitado para a disputa.
Tem político do esquema do “maior crime financeiro da história do país” que é candidato. Tem golpista do varejo e do atacado na eleição, tem gente que tentou dar golpe na República e está na eleição. Foi golpe ou não foi? Se foi, como podem estar fora da cadeia? A justiça funciona mesmo para todos? Para o eleitor fica o descrédito nas eleições e em todo o sistema: se foram cassados, condenados, presos, como podem estar ali na urna?
O presidente do Tribunal Superior Eleitoral para o processo deste ano, ele mesmo escolhido para o Supremo Tribunal Federal sob controvérsia quanto às suas competências e capacidades, parece disposto a flexibilizar o entendimento das regras do jogo ao não punir o uso de inteligência artificial na propagação de mentiras e não vedar efetivamente a participação de condenados com os direitos políticos cassados por golpe contra a democracia.
Na imprensa velha ou no que dela sobrou, surgem em pequenas linhas como balões de ensaio e não como notícias com fontes abertas e confiáveis, as supostas predisposições de ministros do Supremo Tribunal Federal interferirem nas decisões do TSE se as “coisas desandarem”. Parece um processo eleitoral sem regra clara já na origem do jogo.

Os cronistas do esporte eleitoral
Raro está encontrar jornalismo e jornalistas com o senso real da profissão e do que está verdadeiramente em jogo.
De um lado se tem a mesma velha imprensa e suas caras conhecidas que se ajeitam e se sustentam entre uma marca decadente de comunicação e outra, com o único objetivo de manterem as suas oportunidades. É a imprensa que apoiou a ditadura instalada em 1964, que se deu bem com a “redemocratização”, que foi a grande parceira do governo das privatizações de Fernando Henrique Cardoso, a mesma imprensa que teve lucros exorbitantes durante o período de inclusão da população na roda do consumo nos governos do PT e que por fim atuou para o golpe-impeachment de Dilma Rousseff. Não tem comprometimento algum com o povo, o país ou com a história. No momento atua para não sucumbir ao desinteresse por notícias que ela mesma fomentou com suas campanhas de ódio e a falta de credibilidade.
Do outro lado, dentro do que se acomodou chamar de nova mídia alternativa, ocorre um movimento veloz para igualar qualquer tentativa de jornalismo às práticas da velha imprensa, trabalhando com um recorte de público específico: há censura, há tabus, há distorções e o principal, fala-se a mesma coisa diariamente para as mesmas pessoas, uma repetição caricata de “nós e eles”, de “bem e mal”, de “Corinthians e Palmeiras”, sem nenhum aprofundamento nas questões cruciais do país, sem nenhuma crítica ao que inventaram chamar modelo-bloco-progressista salvador-da-pátria.
O que mais iguala esses dois lados cada vez mais parecidos de se fazer jornalismo, é o padrão “jornalismo de rede social” dos dois: lacração sem aprofundamento, disputa pela quantidade de likes e aprovação fácil e rasteira, manutenção de um público fiel ao mesmo conteúdo diariamente repetido quase numa replicação exata do minuto do ódio de George Orwell.
Para essa imprensa a Não-Eleição é mais um evento qualquer dentro da sua confortável bolha de conveniências e comodidades através das décadas.

Os números da sorte para apostar
Se em 2026 não existe nas vitrines da mídia-imprensa debate genuíno de ideias, programas, propostas, se não existe análise, reportagem, jornalismo, profundidade, existe a overdose do número, do joguinho, da aposta. A quantidade de pesquisas divulgadas todos os dias é assombrosa e claro vergonhosa. Escancaram o esvaziamento do processo eleitoral legítimo e a transformação em mero jogo de palpites, como se tudo não passasse mesmo de uma aposta, como se todos os candidatos fossem a mesma coisa, o que importa é acertar o vencedor da partida. A grande quantidade de institutos com divulgação diária de pesquisas não traz clareza e informação ao eleitor, ao contrário, dado aos diferentes gostos, estilos, metodologias e confiabilidades ou não, traz confusão, além de evidenciar que nenhum instituto se sobressai em confiança e credibilidade na preferência do eleitorado.
Nada mais parecido do que as casas de apostas disputando o eleitor-apostador, transformando a eleição em apenas aposta-jogo sem importância na vida real, como se fosse uma aposta em partida de futebol de times desconhecidos do campeonato da quinta divisão da Turquia, o importante é apenas apostar e contar com a sorte para ganhar.

O álbum de figurinhas
A normalização dos absurdos, a relativização das coisas e das pessoas através do formato pré-formatado da comunicação imposta pela bigtechs e aceita passivamente ou festivamente por todos, iguala tudo como se tudo fosse uma figurinha, um card, um stories, uma historinha.
Uma notícia sobre o assassinato de uma adolescente por seu namorado está na mesma rolagem de tela com o anúncio de um festival de música evangélica, no mesmo espaço de uma denúncia sobre corrupção na secretaria de cultura de São Paulo, no mesmo espaço da informação sobre a mobilização dos trabalhadores sem terra, competindo ainda com curso de dicas para o entregador de comida - também conhecido atualmente como empreendedor da uberização - se tornar investidor da bolsa de valores com baixo investimento, há ainda os milhões de vídeos de uma moça seminua divulgando o próprio trabalho de criadora de conteúdos na plataforma parceira, onde se promete um conteúdo mais completo da influenciadora. É esse o espaço destinado às campanhas políticas.
Existir fica igual a não existir. Estar vivo é quase igual a estar morto. Nada tem muita importância porque tudo parece tão igual, nada é verdadeiro porque tudo é instantâneo. Vida e morte são transformadas na mesma coisa, pois não se está presente de verdade em nenhuma delas.
Esse nivelamento de todas e todos como entretenimento e ao mesmo tempo tudo colocado como algo inofensivo, tudo podendo ser verdade, mas também podendo haver um pouquinho de mentira, esse “novo formato” do mecanismo que tanto sucesso faz promovendo mediocridades a celebridades, alimentado pela recepcionista da clínica de beleza clandestina, alimentado pelo famoso professor de história da USP, tem nos políticos o segmento que mais se beneficiou, são eles os que mais agradecem aos céus das bigtechs pela padronização universal.
Não há diferenciação, o que possibilita o não debate, a desnecessariedade de propostas e aquilo que mais agrada todos os políticos: o não comprometimento com nada.
A Não-Eleição é o jogo sem regras muito claras, transformado em concurso de apostas, rebaixada a disputa de “reality show” com os políticos se comportando como personagens padronizados sem destaque para as diferenças entre eles, cabendo ao eleitor-apostador escolher aquele que mais o agrada pelo seu gosto pessoal, talvez um detalhe, um adereço, o corte de cabelo, o chapéu, a barba ou não barba.
Há uma ruidosa sensação de que para os políticos todos ganhar ou não a eleição não importa tanto, o importante é não se comprometer verdadeiramente com nenhum programa ou proposta para o povo.
Alguém pode voltar a dizer: “é assim mesmo, independente de quem ganha a eleição, quem governa mesmo é o Centrão”, “veja as fotos deles abraçados, ontem inimigos, hoje juntinhos”. Isso mais uma vez não é argumento, é apenas escárnio. Um país nunca se construirá tendo como base o escárnio.

As torcidas organizadas
Os movimentos populares todos e é quase impossível encontrar exceção, foram cooptados pela estrutura das bigtechs sob o pretexto de marcar território e posição no mundo internético, as lutas foram esquecidas no chão da vida real.
Esses movimentos todos, que de uma forma ou outra, foram se entregando, através das suas lideranças, à zona de conforto a partir de 2003 com a chegada do PT ao poder em Brasília.
Além de ajudar a promover a ruptura com a realidade, a “luta cibernética” de propaganda dentro do sistema das bigtechs é impossível de ser vencida ou produzir até pequenos avanços pela obviedade da origem do jogo e dos donos do jogo.

Partidas inesquecíveis
Em 2018 o país sucumbiu ao golpe midiático das velhas empresas de comunicação, por mais que se considere a importância da tecnologia naquele ano, foi mais um golpe sequência do golpe de 2016, dentro do formato tradicional dos golpes aplicados desde 1822. Os brasileiros pagaram com suas vidas pelo resultado de 2018. O genocídio da covid é apenas um dos genocídios dentro do genocídio do povo brasileiro, não menos importante que todos os outros.
Em 2022 “derrotar o fascismo” venceu por muito pouco, mas venceu. Diante da catástrofe que se abatia sobre a população, não se exigiu compromissos, não houve um aprofundamento do que seria a “reconstrução” do país.
Estamos em 2026, faltam poucos dias para a eleição, o país segue o ritual para se superar de novo e eleger “o pior Congresso Nacional da história deste país”. O escárnio e o deixar para depois permitiram que durante décadas um golpista habitasse a Câmara dos Deputados exaltando torturadores. Esse mesmo escárnio permite que em 2026 o juiz de Curitiba, instrumento e ator do golpe de 2016, dispute a eleição, permite que o apresentador da Globo, agora afastado do “horário nobre” continue livre, sem jamais ter sido responsabilizado por vazar conversas ilegalmente obtidas da Presidência da República, ele também, apresentador, é ator do golpe contra Dilma Rousseff e os brasileiros.

A bola da vez
Estar na foto com o Centrão, governar com o Centrão, não se diferenciar dos genocidas, não denunciar a promiscuidade de se ter golpistas disputando a eleição, pode não ser escárnio, mas se entregar ao jogo da normalidade das aparências e permitir que tudo pareça palatável ao eleitor, sem escancarar todas as diferenças do que se é, do que se quer para o Brasil, do que se faz pelo país, é uma jogada perigosa demais para todos os brasileiros, que em tempos de historinhas curtas de quinze segundos, já se esquecem do abismo. Por incapacidade ou total falta de vontade, não mergulhar na realidade brasileira e vivenciar o que está realmente em jogo nessas eleições é um erro fatal.
Alguém poderia dizer: “independente de quem vencer, os Estados Unidos é quem vai mandar no Brasil”, esse é o escárnio personificado, ver a vida e os destinos da humanidade totalmente decididos por forças ocultas ou não, revela o quanto o indivíduo, mesmo pensando que é o contrário, é apenas um tecnofascista.

“Nós não vamo paga nada
Nós não vamo paga nada
É tudo free!
Tá na hora, agora é free
Vamo embora dá lugar pros gringo entrar
Esse imóvel tá pra alugar”
Deixem Raul Seixas fora disso. Se alguém confunde a ironia do artista com as escolhas, a apatia e as não-escolhas dos brasileiros, esse alguém não entendeu nada, nada.


texto e fotos: Walter Antunes





