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A Mãe Terra é a Palestina


Alguém disse, não faz muito tempo, que a Palestina, que Gaza, marcariam o nascimento de um novo mundo.


A hipocrisia, a passividade, a total imoralidade da maioria da população do mundo diante do genocídio do povo palestino é o marco de nascimento de um mundo morto? Um mundo de espectadores entubados? Uma imensidão de pessoas que são apenas um número ou no máximo uma miniatura chamada de avatar?


A Terra é uma mulher, tem nome de mulher, nascida de uma mãe, a Terra é a mãe de toda a beleza que faz a vida existir, disso sabem todos os povos do planeta que não são filhos do deus da guerra, o deus da destruição, eleito o fundador do que se conta como civilização ocidental-europeia.


No Brasil todos os povos indígenas sabem da Terra, sabem da mãe, exatamente por isso são estes povos indígenas os que lutam com plena vivacidade para salvar a Terra, não é um acaso a solidariedade indígena imediata, desde o início, ao povo nativo de Gaza, eles sabem quem são os filhos da Terra, eles sabem quem são os invasores que carregam o verbo da destruição.


Uma flotilha, dezenas de flotilhas, centenas de flotilhas, pela liberdade, por Gaza, pela Palestina, pela vida. O aspecto mais bonito de cada flotilha, muitas vezes não percebido, é a beleza no fundo dos olhos de cada pessoa que navega em cada um destes barcos. Não é o olhar arrogante e doentio da ganância de Colombo, não é o olhar monstruoso das blitzkriegs nazistas, é o olhar leve e sublime do fundo da alma de quem navega no mar pela vida, pela Terra, pela Mãe-Terra, pela liberdade, por aquilo que faz a vida existir de verdade, o olhar de quem faz o que deve ser feito em nome da humanidade.


Em águas internacionais no Mediterrâneo, próximo de Creta, numa ação de pirataria, 22 barcos da Flotilha Global Sumud que seguiam com alimentos e remédios em direção à Palestina foram interceptados e 175 pessoas foram sequestradas por Israel.


O espanhol Saif Abukeshek e o brasileiro Thiago Ávila foram levados para prisões israelenses onde estão sendo torturados e espancados, segundo fontes independentes. É maio de 2026.


Na escola houve uma época em que se ensinava que Creta é o berço da civilização, quando se nomeava como civilização apenas a ocidental-europeia. Era uma história convincente contada para as crianças: o labirinto, o minotauro, a Grécia, o Helenismo. Faltava completar a história com a outra extremidade: a cruz e a espada como instrumentos das invasões dos bárbaros europeus em todos os outros continentes e o genocídio dos povos nativos.


Depois, fora da escola, aprende-se que a base dessa civilização ocidental imposta pelos europeus não é “amar ao próximo como a si mesmo”, não é “conhece-te a ti mesmo”, não é uma grande festa no Olimpo, regada ao vinho de Baco, com divindades transpostas de um Egito anterior. A base única que a Europa espalhou pelo mundo é a do senhor da guerra, aquele de Davi, que ordena o genocídio dos inimigos escolhidos para a ocasião, o assassinato de todas as crianças e mulheres e o roubo de todas as terras e riquezas dos outros povos.


Bem distante das lições da escola descobre-se que liberdade e paz é apenas um verso do Bob Dylan para ele mesmo ganhar dinheiro, que aquele beijo demorado do aviador na noiva antes de embarcar num avião para jogar a bomba atômica em Hiroshima e Nagasaki é apenas uma cena de Hollywood, não tem relação com a verdade sobre a vida e a liberdade dos “povos do mundo livre”. Massa, dois produtos da indústria de massa, que produz armas e guerras, petróleo e destruição, entretenimento e espectadores entubados.


Cem mil mortos em Gaza desde 2023, 300 mil feridos, 95% de todas as construções destruídas, um genocídio executado pelos europeus há cem anos.


Teresa Regina de Ávila e Silva é a mãe de Thiago Ávila, ela morreu em Brasília aos 63 anos no dia 5. É maio de 2026. Seu filho foi sequestrado e está preso em Israel, um integrante da flotilha que navega por liberdade. Quem não é filho do senhor da guerra, sempre sabe o nome da própria mãe. Mães de verdade têm nome. As mães de verdade nunca morrem.


Sim, a Palestina marca o nascimento de um novo mundo e não é um mundo morto que nasce: aqueles que são pedras não são humanos, não nascem mortos, porque jamais irão nascer.


A Mãe Terra Palestina é aquela que dá luz à vida, que reluz na beleza, que vibra em uníssono com toda a humanidade, que se banha todos os dias em solidariedade e amor. É um mundo novo que nasce desde que a humanidade existe. É novo porque nasce o tempo todo.


A Mãe Terra Palestina é uma mulher Munduruku, que ao salvar o rio Tapajós, está parindo o novo mundo de novo.






texto e foto: Walter Antunes

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