• Max Christian Frauendorf

O Kolombolo, as raízes do carnaval, e o renascimento nas ruas


Os caminhos se cruzam

Histórias, cidade, lugares, pessoas

Uma história na verdade, nunca tem o seu início verdadeiramente identificado. Ela é sempre resultante de outras histórias que num determinado momento entram em conjunção, misturando-se, fundindo-se e transformando-se afinal numa nova história. Com o Kolombolo não foi diferente, de modo que não podemos falar exatamente de um começo, mas de vários.

Começo por mim porque são as lembranças que me chegam mais facilmente. E também já adianto desculpas se elas me falham, tantas são as pessoas, os lugares e os fatos que se alinharam ao longo destes últimos quinze anos para fazer do Kolombolo, a entidade que ele hoje é. Esta é uma tentativa de, nos limites deste artigo, tentar retraçar este caminho.

Eu tinha uma militância cultural na UESP – União de Escolas de Samba Paulistanas, desde 1985, quando ainda não havia a Liga, e todas as escolas e blocos reuniam-se em torno desta então, única e gloriosa entidade do samba paulista.

Lá entre idas e vindas e inúmeros projetos, mas sempre com a benção e o apoio do meu padrinho no samba, Marcos dos Santos, (fundador junto com Hélio Bagunça, Maria Helena, Ademir Fonseca, entre outros, da tradicional escola de samba Tom Maior), realizamos em 2000 um antigo sonho: o CDMS - Centro de Documentação e Memória do Samba de São Paulo, com base no vasto acervo acumulado pela UESP desde 1974.

Durante dois anos o Centro desenvolveu um intenso trabalho catalogando e disponibilizando livros, documentos, imagens, vídeos e áudios acumulados em 26 anos de atividades da UESP com o samba da cidade. As atividades, porém, se expandiram e em pouco tempo, o amplo salão do CDMS recebia os ensaios quinzenais das Tias Baianas Paulistas e os almoços mensais de confraternização da Embaixada do Samba Paulista. O centro de documentação tornara-se um local de encontro, aonde de inúmeras formas, a memória do samba paulista congregava sambistas de todas as idades, interessados em manter viva parte significativa da cultura negra da cidade de São Paulo.

Foi neste contexto que quatro histórias diferentes começaram a se cruzar para dar origem àquilo que seria no futuro, o Kolombolo diá Piratininga.

Renato Dias, então vocalista do grupo Sinhô Preto Velho, que junto com Lígia Fernandes Araújo participava de programas socioculturais na Escola de Samba Império da Casa Verde, andava muito preocupado com os rumos que o Carnaval paulistano havia tomado nas últimas décadas. De um passado não muito distante aonde a cidade era tomada por blocos, escolas de samba, afoxés, sambas-de-bumbo, bandas, batalhas de confete, concursos e inúmeros outros eventos espontâneos, o Carnaval desaparecera das ruas, para esconder-se no isolamento da Marginal Tietê. O sambódromo, em que pese a sua importância para consolidação dos desfiles oficiais, isolava-se da cidade viva e de sua cultura original, tornando-se um espetáculo com hora marcada para começar e terminar, a antítese da folia de Momo. Intrigado com este estranho processo social, Renato descobriu o CDMS e passou a realizar ali parte de suas pesquisas.

Sempre inquieta e com uma extraordinária capacidade para entender os misteriosos caminhos do samba, Lígia Fernandes era quem acalmava o jogo e colocava a bola no chão. Mesmo compartilhando e construindo os nossos “delírios de revolução sambista”, era sempre ela quem, de forma doce e absolutamente delicada, nos indicava um caminho concreto para realizá-los, mesmo que nem sempre com a amplitude com que os concebíamos. Naqueles primeiros dias ainda não dava para perceber, mas Lígia iria se revelar uma extraordinária produtora musical e artística, que ajudou a dar forma, luz e cores aos projetos e sonhos de todos nós.

Na quarta ponta da história, a roda de samba semanal do Projeto Samba Autêntico acabava de encerrar um brilhante ciclo no Villagio Café, legendário reduto do samba de raiz na cidade de São Paulo. Precisando de um novo lugar, e de preferência no mesmo Bixiga, o líder do projeto, T.Kaçula, já conhecedor das atividades da UESP nos procurou em busca de uma parceria. E assim, da Praça Dom Orione (aonde ficava o Villagio) para o seu novo endereço, bastou a roda de samba atravessar a Rua Rui Barbosa e pronto: o salão do CDMS passava a receber semanalmente compositores da velha e da jovem guarda do samba, cuja principal preocupação era enaltecer o samba da Paulicéia.

T.Kaçula, ainda que jovem, possuía já muitos quilômetros rodados nas estradas do samba paulista e como tal, era e é, possuidor de um repertório regional simplesmente inesgotável. Hábil e múltiplo instrumentista, compositor de grande inspiração, carisma e uma especial capacidade de interação com o público, ele foi durante muito tempo, a viga mestra de muitas e muitas Praças do Samba.

Foi assim que nos conhecemos, mas não podíamos jamais imaginar que naquele momento, mesmo sem a gente saber, começava uma nova história em nossas vidas, e porque não, nas vidas do próprio samba e do carnaval paulistanos.

No entanto, dois anos após a sua fundação, o CDMS tornou-se mais do que um acervo preservado, transformou-se num ponto de congregação permanente de sambistas interessados na memória e nos fundamentos do samba paulista fosse em escolas, comunidades ou rodas de samba da cidade. E foi justamente esta característica local que permitiu que estas quatro pessoas, eu, Renato, Lígia e T. Kaçula nos cruzássemos e posteriormente formatássemos o que viria a ser o Kolombolo.

Talvez tendo extrapolado os limites inicialmente imaginados para o projeto, a diretoria da UESP resolveu encerrar os eventos do salão, permanecendo as atividades do CDMS voltadas exclusivamente para as atividades de consulta ao acervo.

Inconformado com os acontecimentos, eu me afastei por um tempo, assim como os outros três amigos. Pouco tempo depois, fui convidado pelo Renato para uma roda de conversa sobre a história do samba de São Paulo em um apartamento na Vila Medeiros. Ao final do encontro, Renato, Lígia e eu especulávamos sobre a ideia de fundarmos uma entidade voltada para a pesquisa, preservação e difusão do samba paulista bem como de sua matriz cultural de origem africana.

Em 15 de maio de 2002 nascia assim o Mocambo Paulistano, tendo desde o início, o Galo como símbolo. Meses depois uma entidade nos procurou alegando já ter o mesmo nome e como a pessoa que ligou parecia muito decidida em brigar pela exclusividade, preferimos não iniciar um conflito. Pesquisando um dicionário bantu, começamos a ver qual nome poderia ser adotado, levando em conta a presença marcante deste povo na formação da cultura brasileira e da paulista em particular. Procuramos por galo e não deu outra: era Kolombolo e seria de Piratininga, em homenagem à São Paulo, cidade de todos os brasileiros.

Um pouco mais adiante convidamos o querido parceiro T. Kaçula, para nos ajudar a implantar definitivamente o grêmio de resistência cultural. Tivemos vários endereços, inclusive na rua dos Andradas, mas na maior parte do tempo o Kolombolo morava mesmo era andando.

É nesta parte da história que surgem duas pessoas que se não foram fundadores, são certamente um divisor de águas na história do Kolombolo: Guga Stroeter e Gisela Moreau. Portadores de uma visão absolutamente clara da cultura brasileira, ao mesmo tempo lúcida e sonhadora, foram os responsáveis pelo assentamento definitivo do Kolombolo em terras da Vila Madalena.

Inicialmente através de parceria que resultou na série de apresentações no saudoso Blen Blen Club, em que o Kolombolo cantava e contava sobre o samba paulista, sempre com a presença constante de grandes bambas da cena sambista. O resultado tinha sido tão bom que estreitada a colaboração, surgiria o projeto “Memória do Samba Paulista”, série de 12 cds gravados com a nata da velha guarda paulistana, até hoje uma obra de referência para quem quer conhecer o samba de São Paulo.

Mas o principal ainda estava para acontecer. Com a instalação da Sambatá, produtora musical de Guga e Gisela, no número 164 da Rua Belmiro Braga. Numa nova demonstração de confiança no trabalho do grêmio, o uso da casa foi compartilhado, permitindo assim que o Kolombolo finalmente conhecesse a estabilidade de uma sede. Uma generosidade para a qual toda gratidão nunca será suficiente.

A partir daí surgiu a Praça do Samba, fortaleceram-se os desfiles do Cordão Carnavalesco, criou-se a Ala de Compositores e uma infinidade de atividades foram desenvolvidas tanto na nova sede como também por toda a cidade. Seria demasiadamente longo descrever a quantidade e os detalhes dessas ações culturais, mas passados quinze anos desde o seu surgimento, pelo menos duas coisas merecem, sem falsa modéstia, um destaque especial como contribuição do Kolombolo ao cenário cultural da cidade.

O samba paulista na pauta

Trazer para o centro do palco a produção sambística de São Paulo não foi uma iniciativa exclusiva do Kolombolo. Tampouco a ênfase em bater diuturnamente na tecla da memória da cultura negra na metrópole paulista, pode ser atribuída como algo que tenha origem neste grupo. Inúmeras outras experiências já tinham sido anteriormente desenvolvidas, inúmeros outros coletivos ou instituições realizaram projetos voltados para estas questões, com maior ou menor grau de sucesso. Sambistas e artistas preocupados com esta herança cultural também realizaram importantes obras, apresentações e intervenções as mais diversas.

A novidade do Kolombolo foi tornar esta determinação uma bandeira permanente e norteadora de absolutamente todas as suas atividades. Confundida frequentemente por alguns como mero bairrismo, a determinação do coletivo reside em torno do fato de não se encontrar um único argumento, minimamente razoável, para que não se cantem nas rodas de samba da nossa cidade, os compositores que aqui produziram ou produzem suas obras. Composições que se encontram no mesmo nível de qualidade de quaisquer que sejam as referências em qualquer canto do Brasil. Composições que são reflexos diretos da convivência, quando não da sobrevivência, nesta bela e sofrida cidade. Composições que contam e refletem partes essenciais das nossas vidas, almas e identidades.

Somente uma espécie de “colonialismo” cultural pode explicar porque não tratávamos com o mesmo carinho e deferência um Ideval Anselmo e um Cartola, um Geraldo Filme e um Paulo da Portela, um Talismã e um Nélson Cavaquinho, um Toniquinho Batuqueiro e um Wilson Moreira, para ficar apenas em breves exemplos. Porque cantavam-se uns e simplesmente silenciavam-se outros?

E notem que não se pedia que um fosse preterido pelo outro, pedia-se apenas que ambos fossem cantados e lembrados como estrelas de uma mesma constelação. No entanto, como os pratos da balança insistiam em não se equilibrar, continuamos colocando todo o peso de nossa atuação ao lado do samba paulista, já que do outro lado, juntavam-se o histórico preconceito contra o samba de São Paulo, a força de uma mídia cultural que só valoriza o mero entretenimento em detrimento da arte e os estereótipos de um conceito de “brasilidade”, centrado num pseudopadrão “carioca”, completamente superado pela diversidade da realidade cultural brasileira.

Certamente nossos esforços ainda exigem complementos, mas através destes 15 anos de insistência e resistência levando a bandeira do samba paulista, conseguimos sensibilizar muitas rodas de samba e movimentos culturais sambistas de São Paulo a incluírem com mais frequência em seus repertórios sambas de compositores paulistas.

Também temos a honra de ter influenciado ou inspirado a criação de outros projetos permanentes de samba com ênfase na produção sambística local, seja vinculada à velha guarda seja às vanguardas do samba paulista, entre eles o Samba do Congo na Zona Norte e o Samba de Tempo na Zona Leste. Um lugar muito especial nesta área, ocupa a bateria Galo de Rinha de nosso Cordão Carnavalesco, comandada pelo Mestre Funk Buia e cujos ritimistas são integrantes natos da Torcida da Associação Atlética Ponte Preta do Jardim Leme, Zona Sul.

Por outro lado, até mesmo quando somos criticados ou mal compreendidos na expressão de nossas ideias, conseguimos por via reversa, colocar o samba paulista como tema de um debate cada vez mais necessário.

O carnaval de novo na rua

A segunda contribuição do Kolombolo foi mais difícil de realizar. Simplesmente porque na mesma proporção em que o samba e o carnaval sempre tinham sido vistos como a antítese da “capital do trabalho”, as ruas tinham se tornado a antítese do conceito de espaço público, lugar que se tornou de uso exclusivo dos automóveis e do capital sobre rodas.

Num país de forte matriz africana como o Brasil, a cultura popular sempre fez das ruas seu endereço e palco principal, mas na metrópole “que não pode parar”, ela foi expulsa das avenidas, largos e praças centrais. Frequentemente se ouve falar de que este ou aquele projeto cultural foi proibido; ou foi obrigado a se mudar de seu local de origem por “perturbação da tranquilidade”. Não surpreende afinal, que num país tão brutalmente racista e desigual como o nosso, a cultura seja vista como uma perigosa ferramenta de soberania popular.

No caso do samba, a simbiose desenvolvida com o carnaval, fez com que as escolas associassem seus próprios nomes aos bairros de origem, de modo que se tornaram sinônimos tais como Nenê e Vila Matilde, Mocidade Alegre e Limão, Rosas de Ouro e Brasilândia, isto quando não se assumiam os nomes integralmente como por exemplo, Lavapés, Peruche e Morro da Casa Verde.

Até mesmo antes das escolas de samba, durante a idade de ouro dos cordões carnavalescos, entre os anos 10 e 40, os desfiles do Camisa Verde e Vai-Vai, conheceram sempre um longo trajeto. Começando pelas ruas do bairro em que nasceram, Barra Funda e Bixiga respectivamente, estendiam-se ao longo de todo o centro da cidade num cortejo que durava horas e envolvia toda a população por onde passavam.

Isto sem nos aprofundarmos muito na múltipla variedade de blocos, bandas, afoxés, sambas de bumbo, choros e grupos de regionais que faziam de São Paulo, um caleidoscópio artístico e musical nos dias em que o governante era Momo e a folia era a lei.

Se voltássemos mais atrás na História desta cidade, que insiste em negar sua profunda parcela de negritude, encontraríamos as congadas, os moçambiques, os batuques, as festas das irmandades negras e os caiapós espalhados por todos os cantos da Pauliceia.

O Kolombolo, devoto direto desta cultura afro-paulista, escolheu ser também um Cordão Carnavalesco, para justamente propor a reflexão sobre este passado e a necessidade urgente de voltarmos a ocupar as ruas massivamente nos dias de carnaval. Para jogar fora e bem longe a camada de opressão secular que nos roubou os espaços públicos e vetou a livre expressão da cultura popular.

Obviamente não fomos os primeiros, nem os únicos a propor a recarnavalização das ruas, tantas são as organizações populares de cultura que resistiram em seus espaços e estão aí para nos ensinar como se sobrevive com dignidade na selva de pedra, sem apoio público, sem verbas e sem patrocínios.

Mas o que o Kolombolo colocou como um princípio, ao lado de sua postura cultural em recolocar a formação de cordão carnavalesco no palco principal do carnaval, foi o compromisso político de reocupação das ruas como espaço de manifestação popular na cidade. Compromisso inseparável, inequívoco, inegociável e norteador de nossa atuação.

Começamos pequenos, quase simbólicos. Como parceiros do Projeto Samba Autêntico frequentávamos habitualmente a então Rua do Samba, um projeto que floresce da usina de música, cultura e arte da Rua General Osório, a Loja Contemporânea, tocada durante tantos anos pelo saudoso Seu Miguel Fasanelli e seus bravos colaboradores.

Os eventos na rua atingiam um ritmo vertiginoso quando ia se aproximando o carnaval de modo que foi quase uma decorrência natural que fizéssemos deste marco cultural de São Paulo, o local de nosso primeiro cortejo em 2007 quando cantamos a marcha-sambada “Esporão de Ouro”. No ano seguinte, tivemos a honra de desfilar pela primeira vez em nossa nova casa. Por onde passaram Acadêmicos, Tom Maior, Bloco Boca das Bruxas, Pérola Negra, Bando Sete e tantos outros grupos, talvez ainda anônimos. Um território histórico do samba paulista, muito antes de virar novela, e moda. A Vila Madalena.

Impossível não lembrar que neste ano, trabalhando com nosso cordão irmão e parceiro de luta, a Confraria do Pasmado, realizamos um histórico encontro de estandartes em frente ao Sacolão da Vila. Neste ano a marcha-sambada foi “O Galo Pioneiro homenageia Dionísio Barbosa”. Seguiram-se outros cortejos, todos eles captados pela lente ao mesmo tempo, sensível e lisérgica, do fotógrafo e parceiro de todas as horas, Walter Antunes.

O movimento ganhou adesões, parceiros, outros cordões, blocos, até que em maio de 2012 o movimento finalmente ganhou projeção à altura de sua importância. É lançado o Manifesto Carnavalista, plataforma de princípios de várias organizações populares carnavalescas que conduziu ao que hoje se tornou de fato, a recarnavalização das ruas da cidade. Claro que daí surgiram inúmeras outras questões como as relações com o poder público e com o poder do capital, hoje, infelizmente quase indistinguíveis. Um assunto que por si só daria um novo artigo.

Seja como for se alguém tinha alguma dúvida...definitivamente e sem falsa modéstia, não viemos a passeio neste mundo. Com o axé de Nhô João de Camargo estamos cumprindo nossa missão. Somos da falange Plínio Marcos que nos guia em nossa inspiração maior: “Um povo que não ama e não preserva suas formas de expressão mais autênticas jamais será um povo livre.”

Max Christian Frauendorf

Historiador pela FFLCH/USP, especialista em Gestão de Arquivos pelo IEB-USP, atualmente trabalha é responsável pela área de gestão documental da FAPESP. Foi coordenador de carnaval, jurado, instrutor de jurados, idealizador e coordenador do Centro de Documentação e Memória do Samba da UESP – União das Escolas de Samba Paulistanas. Ex-membro do Departamento Cultural do GRCSES Vai-Vai . É fundador do Kolombolo.

www.kolombolo.org.br

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