• Edvaldo Jacomelli

Estigma


Uma borrasca de vidrilhos coloridos invadiu minha vida, ardendo fumaça embaçada nas retinas defumadas, fumando cigarro do vizinho sem ser fumante, aliso a aerostática de meu estômago. Olho meu estômago, estou magro. Corpo presente, alma ausente.

Sinto-me como desembocaduras de olhares afoitos; um furor de riso, cabelos grávidos de experiência (velho).

Cabelo granulado de granizo, lábios lavados no beijo, lavas de insepultas paixões.

Molho o malar no esgar frente ao espelho, miro a medusa: - penso, me usa!

Um torpedo uivaste invade a sala de meu pulmão, acendo a pálpebra de espanto, o septo nasal da fome do mundo me espanta, rastilhos de passos descalços.

O lado nupcial de mim avisa que sou mole demais nas paixões, outros me taxam de leviandade e me vejo gordo demais; tatuada uma teia no seio, sou o teorema algébrico da ignorância.

Uma tocha surdina me dá uma alfinetada ardida nas asas do vento. As cavidades de breu querem degustar a sílaba entre os lábios. Quero acender o fósforo para explodir o fogo.

Pego a faca que cantou a dor do forte, faço germinar granizos no idioma de sol brilhante, vejo a urdidura do equilíbrio dos mundos, a vida inconclusa até na morte.

Mendigo mergulhado na sarjeta, chuva nupcial de grãos de arroz.

Insepultas esperanças nadando no cérebro, navalha ossuda na ponta do olho, pedregal linfático na película futurista de pirâmide moderna com luz solar nos subterrâneos.

Cuspo labaredas no interior do pigmento de água. Crio a cápsula anil do silêncio, engulo a pílula sonífera no travesseiro. O cão uiva meu sono acordado, o vaga-lume veloz vasculha o vazio, uma voz viril de minha consciência enrosca cristais no rastilho de meus pensamentos.

Vasilha vazia, barriga chia, pensamento dói.

Neste teorema algébrico de confabulações, supõe-se a pena máxima de execução para o feitor do esforço redobrado. Quais não foram as emoções, derramadas em folhas vazias, preenchidas de sentimentos, quando se resolve derramar o que se tem dentro.

Amanheceram as pálpebras umedecidas de quebranto, em pleno voo de sonho.

Aventureiros do nada; afogados no âmago do desencanto, somos o protótipo do estereotipado do nada.

Lanças disparadas de discos voadores nos injetam a fagulha de nossa fragilidade tecnocrata. Na multidão da areia do mar sou bancário. Ab aeterno sem chance de ser banqueiro.

O abismo se entreabre as pernas deixando transparecer a renda do fundo do poço sem luz. O barulho da água no mundo invisível. Pego o ábaco e calculo no nada existindo. Não mar, não praias, não sol, não lua. A dúvida no meio da rua.

O escuro nos dá um medo tragado pela ineficácia de sermos atados de poderes que transformam o nosso redor. Não possuímos o escudo que pique as balas como farinha; não temos embutido o segredo que dilacere o ódio das pessoas. Não eclodimos as pirâmides de nosso próprio orgulho.

Somos escravos da impotência humana a nós próprios. Ineficientes no combate à fome; sequer possuímos os trigais que se vertem em pão. Os donos dos trigais colecionam dólares, usam viseiras contra o sol e se escondem na urbe sedentária e inóqua.

Como se tudo isso não bastasse, estampado no atestado de nascimento o espaço para a data da morte. Burlamos todos os conhecimentos dessa verdade e nos orlamos de vaidade, presunção, arrogância. Donos da verdade, da justiça.

A miopia da inércia incomoda nosso intento de sábios. Ávidos de clarividência, sequiosos de poder, ostensivamente engalfinhando-se no sono da insensatez.

É mister se enquadre nesse universo de nossos pensamentos a gota salutar do otimismo. Para compreender a essência do aprendizado eterno. Para absorver a lição divina intermitente, para saborear o encanto destilado nas cascatas das cordilheiras. Para ser a sacarose adoçante do mau humor.

Quero ser adubo em terra infértil, o propósito do inesperado, a agulha sísmica que recoloque o eixo da terra em seu grau perfeito de encaixe.

Tenho um affair no afogadilho da esperança de anjo, embevecido dos ditames do encanto da vida, perfazendo a álgebra da criação sendo liquefeita em meu cerebelo, aceitando o sinal de pó na origem.

Algures há um braço que me espera, que nos espera, querendo que nos abracemos, a nos dizer: vem filho, sua lição está ao final.

Nas alturas do inconcebível, nas entranhas do incongruente, no limiar do intransponível as cabeças semióticas como a nossa.

É magia a mais. Bolha de fagulhas espumantes de amor, carinho transbordante de sais purificadores, dedicação derretida em vasilhas ferventes de doação.

Deus é essa energia flutuante que nos faz emergir de afogamentos afrodisíacos, de estrangulamentos ulcerosos em nossa moral, de dilúvios desastrosos em nossos mananciais explorados por preceitos banais de usura.

As amplitudes de nossos vértices, a fogosidade de nossas vértebras, a antóptose do passado frurido, esse anuir em ser descendente do transcendente, conviver com a cápsula missionária da vida, passando a limpo os traumas inumeráveis e insondáveis pelo intelecto de nossa filosofia engolida por diapasão ilusionário de se gozar a vida pelas latrinas da torpeza.

Doenças infiltradas em nossa inanição de coágulos, expandindo os meios de locomoção em seu contágio, os dentes de fome proliferando no mundo (aparentemente conhecidos seus limites).

A carga geográfica da fotografia da violência. A radiografia do ódio mordendo a ranhura dos jornais. Borboletas formando o mosaico da biosfera que se gera automaticamente, se administra sem fórmulas senegalescas.

O buraco na camada de ozônio buzina nos microscópios dos cientistas, abre a cratera de nossa galáxia, ameaça os estrondos dos meteoritos, traz o cataplasma para o câncer de pele, arranca o calor dos labirintos do centro da terra.

Buraco negro no triângulo das Bermudas. Jeans. Gins. Licores de Baco.

A cópula das árvores fluidifica flores. A criteriologia da verdade em falso, neurastênicos de íons deflagrados. A noite invadida por mariposas e cigarras.

Dedilho o debulhar dessas angústias.

Acordo e olho o quarto. Deglutino a ruminacão do paradeiro de meu intestino, por donde e como devo me conduzir no aqueduto de minha vazão.

Fico perdido entre a decisão de comprar ou doar, do fazer indiferente ao agir consciente contra mim, dilapidar o patrimônio em troca da fome de outrem.

Sou vaga-lume da sombra covarde de não me decidir pela janela da secularidade viável da propagação das humanidades, pelos pigmentos dos embriões da continuidade das faces históricas.

A página a ser virada.

Dilatadas as diligências do espaço, despidas as perguntas dos filósofos gregos, desertificadas as drágeas de hormônios, afastadas as unhas da ganância.

O ecoturista na célula mater do pólen das pupilas do sonhador, a centopeia de Marte, anéis de Saturno, espadas de São Jorge. Existe um empacotador da virada do século vinte sempre a postos, as bandeirolas na esquina, em que se dobram os milhares de tempo.

Estampilha divina. Voz do vento que assobia. A eugenia se faz espiritualmente, com formas definidas em planos superiores; não por força desconexa e trajetos forçados.

A Escandinávia é passado. A faca derrete a febre do ouro. A garganta aumenta a força na gruta. Genuflexão. Aumento do respeito na crença.

Quando nascemos possuímos um histerômetro na epiderme. Incubação de aves. Inundação da explosão natural das coisas. Os momentos certos advindos por mágica. A leveza de linhas líquidas. Saliva espumante do desejo curioso. Lufadas de perguntas escorrem por todo o cérebro, inundando de dúvidas.

Jorra pensamento. Evaporam respostas. As moléculas perambulam nos íons. Os prótons. Os neutros. Músculos murmurando a jovialidade de outrora, hoje endurecidos na velhice. Muralhas de não-aceitação de novidades, najas proliferando magos da quiromancia. Nevascas de paranoias sondam os incrédulos; metralham de frases zombeteiras os fervorosos divulgadores das palavras dos profetas.

O néctar do ser humano é a perseverança, o pisar nos escombros da imundície. Orifícios do corpo expelem invontades de aceitação.

Pálpebras pesadas penetram na luz da noite. Estudam a palavra dos apóstolos, tiram películas dos manuais esotéricos. Quero perpetrar isso nos anais de mim. Tudo isso pulula em minhas veias, lateja na safena.

É como se derrubasse um Partenon por dia. Relâmpagos abrem crateras nas montanhas. Sinto-me o tecelão de minhas têmporas brancas. A Ursa maior de meus tentáculos.

Vasculho as cavidades do mistério. Por detrás da cortina uma verdade me espera. Para depois da morte.

Têm certos dias em que amanheço sombrio. Hoje não. Estrangulo minha angústia em meu aniversário.

Visto a vestimenta de gala. Carrego um estigma de alguma espaçonave-mãe. Sou porque devia ser.

Edvaldo Jacomelli nasceu em Irapuã, interior de São Paulo, em 22 de Maio de 1955. É escritor, cronista e poeta. Também é formado em Matemática e foi funcionário da Caixa Econômica Federal. É autor de vários livros, entre eles, “Profecia louca”, 1980, “Manhãs Ensolaradas”, 2007, “Irapuã”, 2013, “Colégio.com.Alegria”, 2015. Edvaldo Jacomelli também tem contos e poemas publicados em muitas coletâneas, além de ter recebido vários prêmios literários ao longo se sua carreira. Em Junho deste ano participou da Feira do Livro em Lisboa.

Contato com o autor e sua obra no link:

www.facebook.com/edvaldo.jacomelli

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