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Capoeira e arte-educação: corpo, mente e emoção



As palavras arte e educação expressam bonitas ideias sobre qualidades humanas em seu domínio próprio, que é o da cultura. Somos humanos à medida que cultivamos aquilo que nos torna humanos. Entre as coisas que nos tornam humanos estão a arte e a educação, ideias dinâmicas que devem se expressar em imagens de processos e práticas em movimento e desenvolvimento. O que se move e se desenvolve é o corpo, o pensamento e o sentimento de quem cultiva a arte e a educação. Observando sua estrutura integral, a qual aponta nitidamente para o movimento e o desenvolvimento de cada uma dessas “partes” do ser humano, a Capoeira pode ser considerada uma forma bastante completa de prática cultural humanizadora.

Tudo o que é música, poesia e história na Capoeira movimenta e desenvolve os sentimentos, as emoções, o coração. Ao entrar em contato com uma canção tal como “Jogo de Angola”, de Mauro Duarte e Paulo César Pinheiro, os sentimentos são mobilizados pelo ritmo do samba, que estimula o corpo simultaneamente à letra poética, que por sua vez estimula a imaginação, tendo o tema da Capoeira como elemento de ligação entre a vivência individual e todo o conteúdo histórico, cultural e coletivo relacionado à arte. Aqui o indivíduo se “sente” imerso nas emoções de alegria e tristeza, com suas variadas gradações de acordo com a vivência de cada um. Se tal riqueza de sentimentos é passível de ser mobilizada pela simples audição de uma canção gravada, quanto mais será expandida no engajamento ativo pela participação numa roda, em que melodia e ritmo fluem de toda parte.

“Berimbaus, atabaques, ganzás, agogôs, pandeiros, tudo é som e movimento. (…) A música é um dos instrumentos de preservação da memória, transmitindo as tradições de diferentes épocas do passado da Capoeira. (…) as cantigas irão acompanhar e descrever - numa linguagem peculiar - as situações que acontecem na roda, quando não ocorre do canto determinar, de forma sutil, o desenvolvimento das ações. A poesia pode significar uma provocação a alguém ou uma brincadeira com qualquer dos capoeiras; pode traduzir uma advertência à forma muita das vezes perigosa em que transcorre o jogo; pode ser ainda a reverência a um orixá”, explica Camille Adorno no livro “A arte da capoeira” (p. 64).

O que chamamos aqui de “música”, inclui - além da arte que contempla a produção de aspectos especificamente rítmicos, melódicos, harmônicos e timbrísticos, formando gêneros específicos -, a arte da palavra, presentificada também em gêneros diversos, desde improvisos até cantigas e ladainhas, preenchidas de poesia e história. Os sentimentos estimulados e desenvolvidos através da música e da poesia podem ser capazes de gerar a energia necessária ao desenvolvimento dos aspectos corporal e mental.

Ao se emocionar o ser humano se abre para a construção do conhecimento em nível intelectual. O contato com a música aponta para reflexões sobre a importância da Capoeira como elemento cultural no contexto histórico e político concomitantemente vivenciado nas emoções. Através de reflexões impulsionadas pelo acesso a filmes tais como “Besouro” ou “Mestre Pastinha: uma vida pela Capoeira”, a livros, textos, bate-papos, rodas de conversa e leituras, desenvolve-se a habilidade de um pensamento crítico a respeito da função da Capoeira na sociedade. A construção desse conhecimento é ampla, podendo se concentrar nas especificidades culturais da própria arte, com a história e o papel de cada um de seus elementos, desde os instrumentos, gestos, origens, variações e mestres, até às importantes ligações da Capoeira com a luta antirracista pelos plenos direitos políticos à igualdade: “investigar a proveniência da capoeiragem no Brasil requer analisar a condição de vida dos negros escravos, as tradições africanas, o encontro entre diferentes etnias africanas e brasileiras, o contexto escravista, a conexão de diferentes linguagens”, explica Sonaly Torres da Silva em “Capoeira: movimento e malícia em jogos de poder e resistência” (p.29). Aqui se delineia a Capoeira como um poderoso instrumento de educação do pensar crítico, a partir do estímulo a investigações e reflexões.

O conhecimento da arte, no entanto, só pode ser considerado efetivo, quando é vivenciado pelos membros do corpo visível. Ao se constituir em gestos específicos na esfera motora, na ginga, que é dança e é luta, aquelas emoções, histórias e conhecimentos da Capoeira, já contidos no corpo invisível das emoções e dos pensamentos, literalmente se materializam como forma de vida. Arte é sobretudo “vida” na acepção de emergência de “sentido”, de realização de uma forma almejada, de presentificação de uma cultura. A vivência da dimensão corporal, motora, a presença física na roda, é o aspecto acabado, “completado”, da Capoeira. Aqui o corpo individual se realiza ao mesmo tempo que também é integrado ao corpo grupal, o qual é apreendido pela noção de coletividade ao mesmo tempo que também é vivenciado por relações específicas, seja entre pares, seja entre diferentes. A prática física, na roda, é a encarnação, a vivificação, a atualização da Capoeira, em simultaneidade com as emoções e conhecimentos.

Embora a Capoeira possa ser apreendida a partir de impulsos e objetivos individuais, tais como considerá-la apenas um instrumento de condicionamento físico, por exemplo, sua própria estrutura impõe a vivência como “convivência” ao praticante. Essa especificidade dá sentido e importância ao corpo físico como modo de presença, ou seja, como elemento central da cultura humanizadora. Certamente é possível assistir a alguns vídeos de Capoeira e imitar seus gestos em casa, solitariamente, mas, com certeza, isso não poderá ser nomeado de Capoeira, ao contrário de outras práticas físicas, que podem ser realizadas integralmente sem a presença de outras pessoas. Isso mostra como a Capoeira é uma arte que nasce de uma visão de mundo integral, típica da sabedoria de povos originários, em que as dimensões física, emocional e intelectual dos seres humanos são todas simultaneamente vivenciadas, estendidas à convivência em grupo, ao viver cultural, em oposição à visão de mundo fragmentária e fragmentada, a qual, por sua vez, é típica do modo de vida colonizador, europeu.

Por mais que a Capoeira possa ser identificada como tal a partir das características expressões da ginga - movimentos tais como Negativa, Resistência, Meia-lua de Frente, Aú, Bênção, etc. -, ao mesmo tempo parece ser impossível determinar uma padronização para o movimento de seu jogo, o que corrobora a arte como esse espaço próprio ao desenvolvimento do corpo individual e coletivo ao mesmo tempo, ou seja, como um espaço educativo, sem que tal seja especificamente enunciado, porque a educação, numa visão de mundo integral, se faz pela abertura a uma liberdade possível a partir da determinação cultural vivida espontaneamente (lembrando aqui que originalmente as rodas de Capoeira se davam no cotidiano da cidade). É por isso que preferimos aqui chamar a Capoeira de arte, e não de esporte ou luta, embora também seja um esporte e uma luta.

“Não se pode classificá-la observando somente a função técnica dentro das possibilidades e aspectos da luta. Nesse caso ocorreria uma limitação dos elementos componentes, levando a uma padronização - ou estilização - derivada do seu emprego reduzido a apenas um propósito. Seria como se estabelecêssemos uma analogia entre a ginga, na Capoeira, e as bases das lutas orientais, ou a troca de pernas no boxe. Se admitíssemos esta relação, a ginga não mais diferiria das posições de luta mencionadas, apesar da sua dinâmica e uso indispensável. (…) Existe um princípio de movimentação em equilíbrio, com as ações circulares típicas do jogo, que determina uma forma de ginga para cada jogador, atendendo a suas características e preferências. (…) As padronizações - ou estilizações - levam à diminuição do espaço reservado à arte, aos improvisos de cada jogador, empobrecendo e descaracterizando o jogo, invertendo suas finalidades”, explica Camille Adorno (p.83).


A palavra jogo também é uma ótima maneira de referirmo-nos à Capoeira, mas seu significado é mais generalizante do que o de “arte”. Segundo Johan Huizinga, em sua obra “Homo Ludens”, o jogo pode ser considerado um fenômeno anterior à própria cultura e sua primeira característica é justamente a liberdade: “Antes de mais nada, o jogo é uma atividade voluntária. (...) Chegamos, assim, à primeira das características fundamentais do jogo: o fato de ser livre, de ser ele próprio liberdade” (p.12).

O jogo é essa espécie de elemento contraditório no seio da cultura, já que confronta a própria noção de sociedade como a forma de vida considerada normal, cerceadora da liberdade à medida que se estrutura e se fixa em leis e regras. Talvez, por conta de sua natureza de “jogo”, a Capoeira vai se metamorfoseando livremente em estilos diferentes, partindo do tipo Angola para se ramificar em Regional e Contemporânea. Nesse sentido a Capoeira filia-se adequadamente ao significado de “jogo”, expressando, desde suas origens, justamente a liberdade inerente à vida daqueles que eram considerados escravos pelas classes dominantes escravagistas. Ao filiar a Capoeira ao significado de “arte”, no entanto, operamos uma aproximação à ideia de educação, à medida que se pode tomá-la como uma espécie de instrumento para a evolução das potencialidades humanizadoras da cultura. Portanto, embora seja bastante comum a identificação da Capoeira como uma atividade eminentemente de destreza física, essa acepção se configura extremamente incompleta porque não leva em consideração a sua integralidade.

Mas considerar a Capoeira como arte, ao mesmo tempo que a vincula a uma noção educativa, garante também sua total independência e autonomia em relação a essa esfera. Isso ocorre da mesma forma em todas as artes, as quais devem ser consideradas em seu valor intrínseco, pois embora a pintura, o desenho, a escrita, constituam importantes instrumentos educativos, isso acontece porque essas artes existem em si, para si. Van Gogh, Tarsila do Amaral ou Machado de Assis foram pintores e escritores e não educadores, e suas obras são quadros e livros e não rascunhos, anotações e processos de aprendizado. Aqui novamente somos remetidos ao aspecto cultural da Capoeira, o qual se delineia mais precisamente a partir de uma visão do plano mental. Nesse sentido aprende-se que há um nível na arte que ultrapassa essa instrumentalidade a qual a define como algo a ser utilizado pelo ser humano em direção ao desenvolvimento de habilidades gerais (os objetivos educacionais). Existe um nível em que o ser humano é que será o instrumento da arte, ele é que vai alimentar e sustentar a Capoeira, criando níveis de excelência dentro de seu gênero. Aprendemos sobre isso acessando a história dos mestres e, com sorte, convivendo com algum deles. Assim, a Capoeira, como instrumento educativo, deve ser também uma porta de entrada para níveis de excelência reservados aos futuros mestres, os quais são, na verdade, os guardiães da arte.

Do ponto de vista da educação, situamo-nos, ironicamente e contraditoriamente, na posição de fomento ao desenvolvimento integrado das dimensões emocional, física e mental do educando, justamente fazendo parte de um projeto de civilização baseado no desenvolvimento fragmentário dos saberes e disciplinas, ou seja, imersos em um ambiente que preconiza o contrário da expressão de uma prática cultural tal como a Capoeira que é, em si, atividade integralizadora. É a ciência da educação que olha para a Capoeira discernindo em sua estrutura o direcionamento aos aspectos físico, emocional e mental e apontando para suas especificidades, ao passo que, em sua prática, a Capoeira é a vivência simultânea desses aspectos. Nesse sentido a Capoeira vai de encontro a um certo anelo da educação, que é fomentar o desenvolvimento integral do ser humano. Podemos encontrar essa aspiração educacional em diferentes correntes teóricas, desde os escritos de Paulo Freire até a teoria psicológica de Piaget, passando pela pedagogia Waldorf - a qual concebe a arte como aspecto central e privilegiado no processo educativo – dentre outras para, por fim, a própria educação ser considerada também uma forma de arte, como diz Paulo Freire: “Para mim, a educação é simultaneamente um ato de conhecimento, um ato político e um ato de arte”.


Imagem: Walter Antunes