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Quatro modos humanos de ser animal



Um dos modos mais comuns, infelizmente, de ser animal, é o modo fascista. Esse tipo está presente exemplarmente nos contos de Bichos, livro que Miguel Torga escreveu e lançou em 1940 fazendo uma espécie de descrição fenomenológica do fascismo em Portugal pela perspectiva da observação das características psicológicas do seu povo.

Nos contos de Torga, a questão do animal como metáfora salienta a ironia de se tomar como “natureza” indelével um nítido princípio de perversão para a prefiguração do social, qual seja, a naturalidade da opressão, a "natureza" do subalterno compondo com a força do sistema ou dos dominadores. Trata-se de um livro divertido, agradável, e totalmente pertinente de ser lido nesse momento.

Os Bichos escolhidos por Torga para caracterizar o povo português são na maioria os animais domésticos, escolha que ressalta o papel fundamental da família como unidade econômica e sustentáculo moral do autoritarismo patriarcal fascista. Obviamente acompanhando esse quesito, não faltam também os outros elementos discursivos de sustentação do fascismo ao longo dos contos, quais sejam, religião, violência, patriotismo, repressão sexual, tortura, assassinato.

Aqui estão o cão, o gato, o galo, o jumento e, com eles, a subserviência, a preguiça, o egoísmo, o orgulho. Cada animal representando qualidades e defeitos psicológicos que fazem do animal-humano um humano, embora animal. E claro, o ponto central dessa psicologia é a questão da irracionalidade no núcleo dos comportamentos, colorida de modo mais ou menos uniforme pelo fundo da “essência” de todo e qualquer animal a saber: o medo. Assim esses bichos aparecem, cada qual à sua maneira, nas situações dos contos, em posição de defesa, porém como são humanos, essa “defesa” é construída como obediência aos ditames sociais de suas funções.

Nesse ponto Bichos dialoga com uma obra talvez bem mais conhecida, A Revolução dos Bichos, de George Orwell, uma possível continuação do livro de Torga caso os bichos resolvam fazer uma revolução. Nesse caso esses animais se caracterizam pela incrível capacidade de serem facilmente enganados pela perspectiva de uma revolução que, ao fim, se transforma exatamente no contrário de suas metas iniciais, ou seja, naquilo que fôra o próprio motivo da revolução.

No mundo animal obviamente o poder é material, é força, é poder sobre a vida. Força que se faz necessariamente pelo direcionamento das energias físicas pelos mandatários, pela opressão objetivando servidão. Servidão de animais à vida de outras espécies animais, as mais fortes, as que possuem maior força bruta, física.

Destaca-se nesse aspecto do livro de Orwell a questão importante do racismo vinculada ao fascismo, no sentido de serem descritas qualidades raciais consideradas determinantes no comportamento social. A vinculação moral da aparência da raça ao determinismo da sociedade de classes é um dos elementos emocionais mais poderosos do texto. Esse dispositivo também causa impacto em Bichos de Miguel Torga. Sob esse ângulo é possível concluir, com as duas obras que, como a raça é imutável, como a forma animal está acabada - e o caso poderia ser diferente com o ser humano -, não há muita esperança de modificação nas estruturas políticas e sociais denunciadas nas duas obras.

Piorando as perspectivas humanistas, em a Revolução dos Bichos a figura do homem, em contraste com a do animal, coincide privilegiadamente com a característica da abstração da inteligência animal para a arquitetura da exploração capitalista. No homem essa abstração, que equivale à própria exploração, está aperfeiçoada. Portanto o homem é sempre animal e nada além disso. Essa é a obviedade dos textos. Esse é o incômodo: o da racialidade. Os animais, os quais distinguem-se por suas raças, podem ser bem aproveitados pela economia exploratória. Veja o cavalo com sua força, as vacas com seus leites e as galinhas com seus ovos. As predisposições, os comportamentos, são traços biológicos. E as emoções são expressões das linhas animais. No capitalismo industrial fascista há ordem, cada coisa está no seu lugar de forma “natural”.

Claro, há as personagens extremas nos dois livros, aquelas que aparentemente não se encaixam na ordem. Mas essas são tão estáticas quanto as outras em sua racialidade definidora. O papel dessas personagens na sociedade, embora não produtivo, é previsível e tem o seu lugar de encaixe no sistema dominante. Em George Orwell os extremos selvagens são os ratos e os coelhos e o extremo doméstico é a égua, existindo ainda os vagabundos, como o gato por exemplo. Em Bichos, de Miguel Torga, as poucas personagens humanas centrais cumprem uma das caracterizações extremas, ou seja, da marginalidade: a prostituta parindo um filho morto, o amor crístico perdido em meio ao autoritarismo e medo, há um pastor assassino e também um aristocrata frustrado e depressivo. No mais, outros extremos são o sapo, a cigarra e o melro, os quais não possuem utilidade diretamente exploratória pelo sistema capitalista.

Obviamente há grandes diferenças estilísticas entre esses dois escritores contemporâneos. Em George Orwell as personagens têm uma consistência mais esquemática, até alegórica. Em Miguel Torga as personagens são seres psicológicos, trata-se da “raça” psicologizada. Se em Torga, não obstante, há uma denúncia da desesperança, parece que a leitura de Bichos indica a existência fresca de um espírito de revolta, na verdade encabeçado pelo tom de voz do próprio autor. Já em Orwell essa revolta já foi desvendada e desencantada.

Há um terceiro modo humano de ser animal. Para quem não quer saber de política em nível social mas quer rir das ininteligências ou inteligências do animal humano é possível se divertir à beça com A Ovelha Negra e Outras Fábulas do hondurenho Augusto Monterroso em que, apesar do estilo leve e aparentemente desvinculado de críticas sérias ao fascismo, o livro mostra como é mesmo que o leão e não o macaco, se revela como o mais apto ao governo, como as galinhas só pensam em reproduzir e, por mais que a mosca sonhe alto, ela jamais será como a águia simplesmente porque, pela sua natureza intrínseca, há o gosto por fezes em seu DNA. A animalidade é a condição natural do ser humano de tal forma que, mesmo ridículo em sua irracionalidade, o homem continua sendo apenas um bicho, imutável, do qual decorre toda sua miséria individual e, complementarmente, o sucesso de todas as regras mesquinhas da organização social com suas inerentes injustiças. O humanismo é apenas uma fantasia de ovelhas tolas.

Por fim há um quarto modo. Esse é para quem ama o animal e vê nele destacadas, não a irracionalidade indesejada, julgada assim pelas cabeças iluministas e humanistas, mas sim, toda a verdade e a força, reais e reprimidas, da condição humana que, se fosses liberadas, causariam revoluções verdadeiras e fariam as justiças dessa vida. Portanto aqui é necessário ler O Livro das Feras, da americana Patricia Highsmith, em que todos os bichos, do porco ao macaco, passando pelo cão, são doces e vingativos assassinos totalmente integrados à sociedade capitalista, consumista e hipócrita implantada pela ordem primeiro-mundista.

Enfim, para Torga, Orwell, Monterosso e Highsmith, definitivamente o mal não é o animal. E diga-se de passagem que, inclusive para Carlos Drummond de Andrade, os animais são anjos, segundo consta no poema Os Animais do Presépio.


Foto e arte: Walter Antunes


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