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Urbana e ancestral: a mulher guerreira de Carolina Itzá


Semillas: onde o Zé Povinho não encosta

As figuras de mulheres desenhadas por Carolina Itzá aparecem aqui e ali, em muros e exposições de bairros considerados periféricos de São Paulo e nos espaços da internet, comunicando coragem e beleza como qualidades sinônimas.

A mulher que luta é a mulher em essência integrada com os elementos da natureza, da cidade, do passado e do presente. É a mulher desse país, de outros países, dessa cidade e de outras cidades. É a mulher que não recusa nada em sua história, que não foge de nada, embora paradoxalmente e, consequentemente poeticamente, apareça por vezes dizendo não e apareça também algumas vezes fugindo.

Icamiaba guerreira Tem um seio só Pra flechar certeiro. No seu mergulho Nas águas profundas Dos rios de dentro Traz, pedra verde Muiraquitã Amuleto fértil do povo seu... Nunca seca. (Assim me contou Beth).

Essas aparências são as expressões da presentificação da mulher universal que, através do olhar de Itzá, inevitavelmente significa-se através de luta e resistência num mundo evidentemente hostil a todos os valores do feminino. Então apesar de atravessar os tempos e espaços, essa mulher necessariamente expressa-se em figurações de guerreira desde que sua presença provoca sentidos de estranhamento e intrusão. Mascarada e nua, ela se expõe e não nega a guerra, deixando entrever as delicadezas próprias daquilo pelo qual ela luta.

Vitória e mangue

Em Vitória cai água do céu Evapora água entre os dedos dos pés Respiro água A toalha, nunca seca O cadarço, os talheres, o chão do busão A goteira se instalou em cima do meu travesseiro, e não adianta mudar de lugar Não sei mais se é sonho, se é o mar que resolveu levantar do leito, se as palavras lágrimas Do esquecimento O mangue pipoca ploc ploc Barulho chocalho, dias a fio Aquário de gente úmida E... Não adianta mudar de lugar. (Contracapa para o livro Cambalhota, de Silvio Diogo)

Carolina Tiemi Takiya Teixeira diz que seu nome artístico, Itzá, foi inspirado na personagem indígena da escritora nicaraguense Gioconda Belli no romance "A mulher habitada”, mas não apenas isso, ela também conheceu uma mulher com esse nome, no México, e diz: “há um tempo eu procurava um nome de guerreira, buscava me rebatizar com algo que significasse esse caldeirão de luta das mulheres em Abya Yala, que influencia muito meu trabalho.”

Os elementos estéticos inspirados no conceito de “Terra Viva” ou “Abya Yala”, palavra antiga, usada originalmente pelo povo Kuna para a denominação do que hoje convenciona-se chamar a América, estão presentes, nas figuras de Carolina, tanto como representação da ancestralidade, quanto como afirmação política de descolonização. Nesse ponto, as mulheres de Itzá parecem figurar a personificação dessa própria Abya Yala, irredutível, maltratada, nua e armada.

Malokêras: "a rua é o meu trabalho sem padrões, a minha casa sem marido, salão de festa colorido".

"Vivona", autorretrato

“Eu faço tudo de forma visceral mesmo, as coisas têm que sair da minha experiência. E dialogar com quem me rodeia. É o contato direto com todas as contradições e a resposta viva a isso que eu busco. A arte é pequena, o mundo é maior”, declara Itzá.

A forte conexão da arte de Carolina com os signos políticos relacionados às questões da mulher, da identidade e da periferia da cidade grande, porém, está associada à subjetividade da artista desde o começo de tudo: “desenhar foi a forma como ia preenchendo minha vida desde criança, pra não sentir solidão, pra sentir prazer, pra desaguar as coisas que sentia. Com o tempo, as pessoas em volta iam me puxando pra assumir algumas responsas, como fazer um cartaz, uma ilustração pra uma camiseta, uma banda. Eu não sabia que era artista. Foi a coletividade que eu fazia parte que foi me colocando nesse lugar, e eu fui entendendo com o tempo. Mas a virada ocorreu mesmo quando comecei a frequentar os espaços de cultura ligados aos saraus periféricos, fui colocando meus quadros pro povo ver, fui rompendo com a vergonha.”

"Em fuga...", imagem a partir de um sonho que tive

Rabiscando fugas

A expressão técnica principal de seus trabalhos é o grafite, mas Itzá passeia por várias outras maneiras. “Também tenho um contato muito íntimo com aquarela e tinta acrílica. Tenho feito peças em cerâmica e bordado. Mas tudo o que existe, pode ser matéria pra transformar. As minhas obras têm relação profunda com a vida cotidiana”.

"Segredo", fuga fértil em meio ao genocídio.

Mantendo o segredo, espalhando sementes.

A coletividade é um elemento importante na vida da artista. Para um futuro próximo ela vislumbra “um ateliê que possa ser um território de encontro e formação, que agregue mais gente”.

Carolina Itzá mora atualmente no Campo Limpo em São Paulo. “Nasci num lugar chamado Vila Indiana, e morei na zona norte de SP, Bauru, Vitória do Espírito Santo... todos esses lugares fazem parte de mim e carrego todo mundo que conheci. Tenho 36 anos, sou formada em Antropologia pela USP e faço mestrado em Artes Visuais na UFES”.

Foto: Cassimano Santos Nanau

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