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A chinesa de Itanhaém


A caligrafia diáfana, registro do movimento sutil e exato do gesto da fiandeira celeste, preenche o vazio sem violentá-lo, embora a cor seja o sangue, nesses desenhos de Carla Diacov, a chinesa de Itanhaém.

Na sua auto-apresentação ela diz que corta, pinta, escreve e borda, tudo sem vírgula, sua obra é o seu fio, esse que se perde nas lacunas do silêncio e do vazio estruturantes, sempre invisíveis, mas sentidas. E por fim, fio que reaparece se entrelaçando em surgimentos estranhos de imagens invariavelmente clássicas, evocando a nobreza dos mitos que fundam os céus, a terra e os fatos, objetos e movimentos da criação.

É claro, ela “poderia estar matando” para sobreviver sob o seu tecido de seda nobre, difícil de ser enxergado pelos olhos mesquinhos desse mundo tacanha, quando de fato o que faz é trazer à tona os seres do movimento do seu gesto ao pincel, à ponta dos dedos: o corpo rápido da mulher, um lapso de homem entre montanhas fugazes, os peixes, os cabelos, a girafa, as bolhas, o olho, a água e o ar. Pinturas como jóias raras.

Sua arte se expande em imagens múltiplas: vai além da pintura, desenho, palavra, fotografia, teatro. Essas modalidades se completam entre si na performance da exposição nas redes sociais, blogs e revistas digitais, preenchendo essas mídias como as pipas chinesas preenchem o ar do céu: os vôos da harmonia.

Lançou um livro de poemas, “Amanhã alguém morre no samba”, pela Editora Douda Correria - Portugal, 2015, adicionado de sanguíneas ilustrações caligráficas que se sustentam perfeitamente autônomas em sua leveza paradoxal frente ao desespero lacunar da raiva implícita em sua intrínseca… existência.

A chinesa no samba está lá, está aqui, dançando entre a montanha e o monge, entre África e Ofélia, forjando os contrastes literários da sua clássica e irremediável poesia. Um dos poemas de seu livro diz:

mulher com galhos

cingida pelos teus próprios galhos

morrendo de medo de nada

nada é mesmo engraçado

mulher com galhos risonha

e a mulher com galhos passa atravessa a ponte de prata

ajeita os galhos

queima os cascos

e continua rindo abana o rabo égua

certa de que está no caminho errado

rindo

mulher de galhos

linda meio linda e metade égua

linda

rindo feito égua

tua língua é olho-d’água e gaiola

tecido que bordo

debrum da colcha onde quero me enrolar nos dezembros todos

tua língua d’égua

Em complementação ao contraste, sua Ofélia diz em gradação: “caçando nuvens, manchas, cacos, vielas para o carvão, carvão para o chão para que a caçada então, cacos, nuvens, manchas, uma…”.

É assim que Carla Diacov vai exercendo essas harmonias artísticas da composição em expansão: tanto contraste quanto gradação. Sua obra tem ainda fases de amarelo, preto, azul, riscos, brancos e espumas.

Carla Diacov, a fiandeira, cria os seres e cai no samba como uma autêntica chinesa de Itanhaém, se abrindo com ira e abundância para o mundo, esse dragão, que ainda há de honrá-la, mirando-a, por debaixo da água de seus pés, com seus mil olhos de admiração.

Embora esteja em Itanhaém, nasceu em São Bernardo do Campo em 1975, é formada em teatro e lançará ainda este ano mais um livro pela Douda Correria, "Ninguém vai poder dizer que eu não disse", e pela Edições Macondo lançará "A metáfora mais gentil do mundo gentil".

Suas peças e seu livro "Amanhã alguém morre no samba" podem ser encontrados nos seguintes endereços, onde também estão à venda:

poderiaestarmatandopoderiaestar.blogspot.com.br

www.facebook.com/diacovcarla/?fref=ts

carladiacov.tumblr.com/tagged/ophelias

https://doudacorreriablog.wordpress.com/tag/carla-diacov/

ou direto com Nuno Moura pelo facebook

https://www.facebook.com/douda.correria.5?fref=ts

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