• Luama Socio

Uma voz de mulher negra levanta-se contra a escravidão



Que maravilha deparar-se com um texto abolicionista anti-escravista e feminista publicado em 1887 - portanto no ano anterior à abolição da escravidão no Brasil - por uma mulher negra, Maria Firmina dos Reis, contendo uma personagem-narradora mulher, branca, contando a história de uma mulher negra escravizada, Joana, injustiçada, livre de direito e de fato, tachada de doida, a qual, por fim e no núcleo, narra sua própria história, a história de A ESCRAVA.


Nesse conto Maria Firmina dos Reis nos mostra a imagem da exaustão no centro da composição de uma alegoria escravagista dialogando com o martírio crístico e com o esgotamento da "política" escravocrata brasileira. Trata-se aqui também de um pouco mais: do signo da chegada ao objetivo da abolição ou superação da injustiça escravagista em tons conducentes aos sentidos alternantes de sucesso, sofrimento e fracasso aparecendo na evolução narrativa da figura de Joana. Fica a mensagem da alegoria: essa mulher, esse Cristo, essa lei, essa mãe, essa terra, não morrem, mesmo parecendo que morrem. A alegoria é o símbolo do percurso da narrativa trágica.


A escritora brasileira Maria Firmina dos Reis realiza uma obra singular de lugar intelectual e político, performatizando o papel de cidadã negra do Império engajada na ideia de legalismo de Estado e, portanto, de progresso, circundado pelos símbolos do catolicismo amalgamado - porém plenamente compreendidos pela professora maranhense - como pilares dos lemas da revolução burguesa ou francesa, de 100 anos antes na Europa. Bem no início do conto, a aproximação entre o progresso econômico e a ideia de fraternidade, um dos lemas da Revolução Francesa, é enunciada nos moldes que se perpetuam até hoje dentre os argumentos sobre as desvantagens da escravidão: "Dela a decadência do comércio; porque o comércio, e a lavoura caminham de mãos dadas, e o escravo não pode fazer florescer a lavoura; porque o seu trabalho é forçado. Ele não tem futuro; o seu trabalho não é indenizado; ainda dela nos vem a desonra pública, a vergonha; porque de fronte altiva e desassombrada não podemos encarar as nações livres".

Esse é um tipo de texto em que é necessário notar a excepcionalidade da autoria da mulher negra no topo da hierarquia ficcional literária. Maria Firmina dos Reis foi provavelmente uma das únicas mulheres escritoras nos salões intelectuais do Maranhão, mesmo que estes se constituíssem metaforicamente por sob as páginas de periódicos com os quais colaborava. E assim como sobre Carolina Maria de Jesus, podemos dizer que Maria Firmina dos Reis faz uma escrita "de direito", "de lei", pois que ser negra, mulher e pobre, não impediu a essas mulheres serem sábias, pensadoras, escritoras. É ponto importantíssimo para o entendimento da alma negra iluminada representada nesse conto, que há o centro da lei, a qual aparece sendo descumprida no drama da escrava: a lei crística da humanidade, inclusive admitida entre os próprios brancos, e a lei do Estado brasileiro, a ser cumprida também pelos brancos, que a implementaram. Esse entendimento do progresso político relacionado com os lemas da revolução burguesa em processo de acolhimento pelo Estado brasileiro e seu imbricamento com o cristianismo talvez seja o ponto principal do didatismo de A ESCRAVA.


Considerando-se o texto do ponto de vista da função relacionada ao ativismo político e pioneiro, obviamente o conto pode ser considerado feminista em sentido lato, apenas por ser uma das raras obras literárias produzidas e protagonizadas por mulheres no século 19. Estudiosos dizem que Maria Firmina dos Reis é única dentre a escrita negra da Amérida Latina deste século. Acrescente-se a excepcionalidade do fato de sua escrita integrar-se às forças negras anti-escravagistas mais amplas, as quais aparecem um pouco apagadas no imaginário histórico em geral e na atualidade, como se a abolição tivesse sido decididaexclusivamente pelos "brancos" e não houvesse resistência nem luta dos africanos e de seus descendentes contra a escravidão. Nesse sentido, a voz negra aqui cumpre o papel da voz da Razão.


A estrutura do conto ocorre em camadas de três narrativas sobrepostas que também se espelham em personagens divididos em grupos de três, segundo suas tipologias: a senhora no salão, a senhora em ação, a história contada pela personagem Joana, ouvida pela senhora; três mulheres (incluindo a autora); três filhos; três figuras da lei: o feitor, o senhor de escravos, a lei de libertação.

Assim como vimos em alguns contos de Machado de Assis, aqui também os signos do cristianismo católico são entrevistos nas figuras de Senhora-Joana-Maria, Feitor-Senhor-Herodes e outras. Soma-se à composição das personagens as figuras políticas mais evidentes, a narradora da história, não nomeada, chamada apenas de "senhora", mas, parecendo agora aos nosso olhos ligada - através de sua posição esclarecida, possível de ser ocupada pelas senhoras de toda a sociedade -, à prefiguração da Princesa Isabel e, obviamente, Joana, figura da mulher brasileira que deverá ser, juntamente com seus filhos, doravante, livre, como deve ser todo ser humano à luz do humanismo crístico e iluminista. Camadas de significação arquetípicas em associação somam-se a essas, tais como a figura da Terra, relacionada com a Mãe, e suas vinculações com Brasil e África, e obviamente a de Cristo, com a variação do martírio e exaustão encarnada também pela personagem Joana. Acrescenta-se que talvez seja inevitável espelhar os filhos de Joana, nomeados Carlos e Urbano, em Cosme e Damião, os santos-meninos tradicionais do sincretismo entre catolicismo e mitologia iorubá, de onde vem Ibeji, orixá que, dentre vários simbolismos, representa as forças da contradição e também dos opostos complementares, signos perfeitamente adequados para a formação das contradições estruturais da sociedade brasileira, que virá estruturada sobre os filhos de Joana.


Através de um drama excelentemente didático, combinando as cores fortes de uma tragédia que poderia ser considerada exagerada e patética não fôra a verdade trágica da realidade de seu fundamento, Maria Firmina dos Reis faz uma prosa organizada de forma romântica, porém puxando atrás ao barroco, pela construção alegórica da personagem Joana - e puxando à frente ao realismo, ou seja, ao seu seu tempo histórico, atestando em sua escritura os tipos humanos, demasiado humanos da época. Dissipem-se os símbolos e resta a realidade da dor de uma mãe que chora por seus filhos, por seus pais, por si, por tudo; um sofrimento cru que a sensibilidade de Maria Firmina dos Reis jamais representaria degradando para um insuficiente e ambíguo naturalismo que começará a entrar em moda em fins de século. É notável, porém, o fato estético de que a pintura do "quadro" de Joana, no conto, remete ao barroco no sentido de apresentar concomitantemente, linhas do exagero no drama e finura de engenho na trama, uma peculiar finura que percorre os escritos da linha literária brasileira desde Padre António Vieira, e que vai se amalgamando às oralidades indígenas e negras, chegando à grandiosidade espetacular do carnaval. A afirmação do barroco brasileiro em A ESCRAVA é corroborada, nesse sentido, pela função didática à qual se liga a profissão da autora. Enfim, Maria Firmina dos Reis fritou o romantismo no óleo quente do realismo saindo-se com uma figura barroca lançada até nossos tempos pós-modernos, passando pelo século 20 como uma alegoria flutuante, ou seja, "teológica" (como concorcordaria Walter Benjamin), sustentando-se através do ajustamento proporcional de suas partes cuidadosamente discernidas em tríades simbólicas: políticas, arquetípicas e mitológicas.


Por fim, por ser livre porque humana, Joana fôra chamada de doida pelos seus senhores e este nome, essa alcunha de louca, segue repetido, até mesmo pelos lábios de seu filho-anjo, Gabriel. Mas Joana é louca sobretudo porque sofre, e sofre acima de tudo por ter seus filhos sequestrados e escravizados, e por isso, no espaço intelectual brasileiro, levanta-se essa voz de mulher negra contra a escravidão.


Maria Firmina dos Reis é mais conhecida - porém só muito recentemente lembrada - como "a primeira escritora brasileira". Seu livro mais famoso é o romance "Úrsula", publicado em 1860. Seus textos, atualmente, podem ser encontrados na internet.


Agradecimentos a Walter Antunes, Léo Daniel da Conceição Silva, Francivaldo Souza da Silva, Michelle Duarte, Manoel Felipe Alves dos Santos, Érika Rodrigues e a todos os participantes do Círculo Literário de CiberLeitura, Projeto de Extensão do curso de Letras da Universidade Estadual do Tocantins-Unitins, em especial aos que se reuniram para conversar sobre A ESCRAVA, de Maria Firmina dos Reis, no dia 14 de Maio de 2022.

Foto: Walter Antunes