• Walter Antunes

Trânsitos e Atemporalidade


Sobreposições de imagens, produzindo novas imagens que abrem ao observador a possibilidade de trânsito, como se aquilo que se vê no dia a dia não fosse a realidade total das coisas, quase uma revelação, em que o observador se integra à obra com a possibilidade de, imerso nela, ampliar a própria visão das coisas e ter uma ação transformadora sobre si mesmo, é o que desvendamos no trabalho de Danna Durãez.


Um mundo de fantasmas, um mundo onírico de reverberação entre tempo e espaço. A alegoria do fantasmagórico, do mundo feminino ressoando no aqui e agora. Trabalho que conduz o observador a uma atmosfera de sonho, para um momento onde é possível reinventar uma nova forma de estar presente no mundo.




Um vestido de infância encontrado numa caixa de papelão produz uma conexão imediata com o objeto. O objeto tem e traz histórias: a descoberta que foi feita, “costurado pela mãe quando a artista tinha sete meses de idade, produz a eureka”. O vestido, como um objeto de afeto, memórias, evocando a presença do fantasmagórico entre corpo-câmera.








O preto e branco da fotografia e o analógico acabam – ao contrário do que inicialmente poderia se supor – trazendo camadas de profundidade, reflexos e reflexões e permanências num mundo cada vez mais condicionado a uma constante explosão de cores e movimentos nos instantâneos de micro-vídeos produzidos e apreciados pela maioria das pessoas com a facilitação dos mecanismos tecnológicos.


A aparente quase ausência de figuras humanas não traz desolação, muito mais que isso, acaba por produzir introspecção e conforto, como se dissolvesse o ego e investisse no eu com suas reais verdades e possibilidades.







O recurso da dupla exposição ou sobreposições acaba por velar o sujeito, dando ênfase ao percurso do olhar em várias camadas do corpo ausente, mas presente, e também das conexões simbólicas como o vestido, as nuvens, a natureza.

Um contraponto entre o ambiente urbano externo - as ruas, repletas de fantasmas e espectros, aparente insegurança e desconforto, quase um mundo acidental e infeliz - e o interior, o lar como mundo real, onde podem se tecer as verdades e belezas da existência. Dois mundos que habitam ao mesmo tempo o planeta.





Vivências, experiências, memórias.

Uma “busca do tempo perdido” dentro de “a poética do espaço”. Permitir “olhar e não olhar”. Identificar algo que está dentro das camadas, das sobreposições, ligando lugares, sensações, conexões simbólicas, afetos, sentimentos, jogos de ilusão.






A atmosfera de sonho produz um chamado e uma esperança. A arte da fotografia surge como possibilidade transformadora de mentes e corações neste momento de aparente civilização abduzida pelo próprio reflexo instantâneo de “stories” efêmeros.


Essa fotografia, mesmo quando trata do eu, está falando ao outro e do outro interrogando sobre a possibilidade de dialogar com o outro.


Trata-se de uma reflexão do olhar e ser olhado, de tocar e ser tocado. Além do diálogo visual, pictórico, há também trocas de experiências, vivências e até a problematização do idêntico e do diferente, a questão de compreender a experiência quanto à transformação ou a atemporalidade.





Danna Durãez é brasileira, artista da fotografia.


site: dannaduraez