• Fernando Marques

A Arte Inominável de Seu Maloka



Eu vivo na produção musical há mais de quatro décadas e no audiovisual há mais de duas.


Trabalhei num dos mais históricos estúdios musicais de São Paulo: o Estúdio Vice-Versa, que tinha sua sede num antigo casarão, estilo francês, na rua Alves Guimarães, entre as avenidas Rebouças e Teodoro Sampaio, em Pinheiros (demolido recentemente). Por ali, vi entrar e sair uma infinidade de compositores, instrumentistas, maestros, gente famosa e muitos deles começando, gravando seu primeiro disco. Ainda estávamos na era do disco de vinil e o Vice-Versa finalizava o projeto do artista com uma matriz do disco, em vinil. Uma maravilha para a época. Ninguém pirateava. Hoje...


Foi ali que me apaixonei pela Feira de Antiguidades da Praça Benedito Calixto, descendo todo sábado pela rua Teodoro Sampaio, perto da avenida Henrique Schaumann. Deixei muitos salários ali.


Além de garimpar discos de vinil e antiguidades do cinema, ficava maluco com o grupo de chorinho e samba que tocava na praça, todos os sábados. Tinha um senhor de cabelos já bem brancos, tocando violão tenor, que era um primor. Outro que me chamava a atenção era um rapaz espigado, sempre com óculos na cabeça e um sorriso estampado no rosto. Tocava tamborim e surdo com uma alegria contagiante. Parecia que era a sua vida.


Um dia tomei coragem e me apresentei. Aí que fiquei sabendo que ele era o Magrão, grande jogador de basquete do Esporte Clube Sírio e professor de inúmeras crianças da periferia, que ele ajudou a tirar das ruas. Um trabalho magnífico, no Beco do Aprendiz, na Vila Madalena, que acabou ganhando publicação do jornalista e escritor Gilberto Dimenstein, que o nominou de “Herói Invisível”. Já tinha lido sobre ele. Ronaldo Belotti era o seu nome.


No final da década de 1990, voltei para a minha região, a Noroeste do Estado de São Paulo, mais precisamente São José do Rio Preto. Abri uma produtora e em quase uma década produzi mais de 150 discos (já na era do CD), de inúmeros compositores de toda região.


Na virada do novo milênio, chegou a pirataria desenfreada e, com ela, a morte das grandes gravadoras. A moda agora era ser “independente”, justamente o inverso da era do vinil. O audiovisual chegou também pra valer na metade do ano 2000, mudando, praticamente, todo panorama da música no mundo. O disco passou a ser apenas o cartão de visita do artista e muitos começaram a produzir o seu próprio trabalho.


Para diversificar, comecei a garimpar artistas de outras regiões, até chegar na capital e ter uma baita surpresa, mais de 15 anos depois.


Numa manhã de sábado, eu e a minha mulher fomos para a feira da Benedito Calixto e, passando por um bar que dava de frente para a praça, ouvi um som diferente. Era apenas um surdo e uma voz. Pensei: será que o cara da harmonia foi ao banheiro? Ou não veio? Mas não. Não tinha harmonia. Era só o surdo e a voz mesmo. Uma performance de cair o queixo. Parece que eu nunca tinha ouvido aquelas músicas antes. E eram músicas ultraconhecidas de Caetano Veloso, Gilberto Gil, Milton Nascimento, entre outros.


Ficamos malucos. Voltamos para Rio Preto com aquilo na cabeça. Mês seguinte, estávamos de volta Sampa e também a feira da Praça. Procuramos no mesmo bar, mas lá ele não tocava mais. Putz. Fiquei frustrado de não poder encontrar mais aquela figura. Porque não falei com ele da primeira vez?


Então resolvemos atravessar a rua e entrar numa galeria, que descia uns 3 andares num labirinto de lojinhas. Lá embaixo, avistamos um restaurante cheio de gente, servindo uma suculenta feijoada. Entramos e, para a nossa felicidade, lá estava o “cara”, batendo forte no surdo, arrepiando Haiti, de Caetano Veloso.


Um tapa na cara.


Pensei: "dessa vez ele não me escapa".


No intervalo, fui lá. Ele logo me reconheceu. “Você não é aquele que produzia música?” Respondi que sim e que agora estava também produzindo audiovisual, principalmente documentários e shows musicais.


Desse minuto em diante, cada 3 palavras minhas eu falava: "vou te produzir, vou te produzir".


Em conversa posterior, ele me confessou: “de prima, não dei pelota. Achei que era mais um tirando uma onda com suas promessas. Falei até com a minha mulher Guta, Não vai virar”.


Mas virou.


Alguns meses depois, Magrão chegava a Rio Preto e começamos a produzir o seu filme.


Ele estava radiante. E ainda deu um show numa casa noturna da cidade. Daí pra frente, não desgrudamos mais. Dvd na mão, Magrão e eu começamos a divulgar o seu trabalho.


Em seguida, fomos convidados para abrir o Festival “Cantos da Cuesta”, de Botucatu, interior de São Paulo. Outro show espetacular, agora com o auxílio luxuoso do internacional músico percussionista Marco Bosco, radicado no Japão há 25 anos. E tinha mais!




Meses depois, Magrão, agora com o nome artístico de “Seu Maloka”, apresentava-se no histórico programa Senhor Brasil, de Rolando Boldrin, na TV Cultura e torna-se protagonista no Festival de Música de São José do Rio Preto, fazendo a performance especial da noite, além de ser membro do corpo de jurados.


Mas, infelizmente, o gigante tombou no meio do caminho. Ronaldo Belotti morreu na sua cidade natal, São Paulo, em 2020, vítima da Covid 19, aos 61 anos de idade. Um personagem inesquecível, um ser humano incrível, um herói invisível, que estava recebendo apenas um pouco de tudo que ele já tinha dado a tantas pessoas com o seu esporte e sua arte inominável, indescritível.


Um jogador cuja a maior jogada era fazer o bem.




Fernando Marques

Músico, jornalista, historiador e documentarista. Fundou a produtora Tempo Livre Discos, em 1991, em São José do Rio Preto-SP, que produziu mais de 150 discos de toda região.

Proprietário da produtora de documentários Rio Preto em Foco Filmes e titular da coluna Rio Preto em Foco, no Diário da Região, desde 2019. É diretor do Arquivo Público Municipal de São José do Rio Preto.