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A impossibilidade lógica da escola sem partido


Obviamente a impossibilidade lógica da "escola sem partido" está enunciada no autoritarismo e repressão de um partido específico, o qual está agora no comando da educação pelo Estado.

A própria ideia de educação pelo Estado foi tomada, historicamente, pelos totalitaristas, como um partido específico, e portanto agora trata-se do partido das pessoas que dizem que o Estado é seu partido e que isso é ser sem partido.

Lembre-se que educação de massa só se dá pela alternativa da repressão. Essa é uma condição física da escola, como ela já ocorre, na obrigatoriedade da educação pelo Estado.

Professores amorosos têm tentado driblar essa triste condição. Em muitos casos isso se torna possível. Mas o amor jamais será apenas um método educativo. Trata-se de um princípio de vida. Por causa desse princípio de vida a educação tantas vezes torna-se aliada do verdadeiro desenvolvimento humano embora inserida no contexto estrutural de opressão.

Existem muitas teorias, muitas visões a respeito da educação, que alimentam o caminho profissional da cultura pelo amor. A compreensão e o entendimento profissional da educação pela ciência dessas teorias passa pelo conhecimento da existência dessas próprias visões e pelo aprendizado de pensamentos e metodologias retirados dessas teorias consideradas como conhecimento oriundo de fontes de sabedoria.

Vemo-nos, não obstante, numa condição terrível, de ter que defender a própria existência da escola, pelo Estado, nos seus moldes comuns e totalmente insatisfatórios, para que não se tire toda a esperança de uma população historicamente oprimida.

A relação da educação com a sociedade, com o Estado, com a política, deve estar sempre à vista. Os olhos do profissional não podem perder de vista jamais a contemplação desse ponto da estrutura das relações sociais.

Em matéria publicada em 31 de Outubro de 2018, o portal G1 traz o seguinte título: "Sintonia eleitoral: brasileiros se dividem sobre liberdade para professores ensinarem diferentes perspectivas políticas". Segundo o portal, trata-se de uma conclusão retirada de cerca de 500 respostas a um questionário feito por uma empresa canadense, contratada pelo portal, para fazer a pesquisa durante a época das eleições presidenciais de 2018. Os gráficos mostram um empate impressionante nas posições antagônicas. Em torno de 31% concorda muito que os professores devem ser livres para ensinar perspectivas políticas diferentes e 30% discorda muito. Entre os que concordam com a liberdade há uma ligeira maioria de mulheres, e entre os que discordam muito há uma ligeira maioria de homens.

O descalabro na dimensão ética com respeito a esse assunto foi sentido por uma grande parte de adultos responsáveis do país. A dimensão ética deveria ser pautada por uma percepção precisa das estruturas de relações sociais, e em primeiro lugar, das relações de trabalho.

Um diretor de escola da rede pública, um professor - assim como quaisquer outros profissionais de quaisquer áreas em qualquer lugar do país - se pensa de si que é apenas um diretor ou um professor, não está sendo plenamente responsável. Ele tem que saber - percebendo o tempo inteiro -, de qual estrutura faz parte: por que a escola existe, qual é o objetivo da escola; como a escola veio a existir nesse mundo; quem inventou, quem criou essa escola.

A percepção dessas questões é da máxima importância ética. Conheci professores que não possuíam uma imagem - ou imaginação - razoavelmente clara a respeito da estrutura comum dos departamentos públicos de Estado, incluindo a escola, com suas respectivas funções. Conheci um chefe de pátio de “centro educativo” para adolescentes infratores que não sabia onde o sol nascia e se punha tendo por base o quadrado superior do campo do pátio.

O não percebimento das relações sociais, políticas e ambientais em que se está inserido produz uma fragilidade estrutural séria no próprio sentido da existência profissional. Chama-nos a atenção o fato de que os profissionais da educação revelem-se tão impotentes na defesa de suas profissões. E isso, definitivamente, não precisaria ser assim.

Parece-me que seja gravíssimo quando as pessoas se alheiam, não sabem onde estão, a começar do ponto da crua percepção espacial. Chamo de grave um nível de percepção bastante baixo na esfera das relações humanas, agenciador de uma série de obscuridades psicológicas. Talvez este seja um dos fatores que fazem com que muitos adultos responsáveis tenham a sensação de estar no meio de pessoas dementes quando num sistema democrático as “massas” escolhem o que é pior para elas mesmas: o pior nesse caso significa escolher participar o menos possível do governo da comunidade humana, iludindo-se de que já se está fazendo o máximo da obrigação cidadã votando em representantes do povo ao governo, sobre os quais não se sabe suficientemente.

Entre as graves distorções conceituais veiculadas em meio à diversão emocionante dos incautos nas últimas eleições destaco a identificação de "ser consciente do sistema de governo e reivindicar o direito ético à participação" com "ser comunista".

A distorção intencional de muitos conceitos importantes culturalmente e historicamente é diametralmente oposta à missão do professor, à função da educação. O simples conhecimento a respeito do sentido histórico e simbólico da palavra "comunismo" no nível do conteúdo de Ensino Fundamental bastaria para desfazer qualquer confusão caso a uma pessoa faltasse o senso de espaço e tempo.

Por pura fanfarronice eleitoreira houve a colaboração na destruição da credibilidade dos dados inerentes aos sentidos básicos da mente humana: os sensos de espaço e tempo. O fato de termos direito à consciência de espaço e tempo em nível social e terrestre foi sacrificado aos sentidos do medo e da propaganda manipulados pelos engenhos trans-humanistas.

O direito a essa consciência, que deve ser desenvolvida por toda educação, e que deveria estar altamente desenvolvida em todos os professores e educadores conduz obviamente ao direito legítimo de se perceber e de se interessar por mais coisas além do que se alcança com o próprio “nariz”. Temos o direito de saber das relações entre coisas que consideramos distantes e coisas próximas.

A verdadeira ingenuidade está, no entanto, no entusiasmo com as tecnologias dos aparelhos de computação substituindo professores e escolas. Sabe-se que embutido nesse entusiasmo está o interesse de corporações que pretendem lucrar com equipamentos e tecnologias específicas. Porém essa explicação não parece sensibilizar grandemente uma considerável parte das pessoas. Há uma tendência em discutir o assunto em nível pseudo-filosófico, desviando a identificação das verdadeiras intencionalidades para o relativismo de valores no raciocínio dos que estão efetivamente ausentes do poder político.

Mais do que nunca o quadro delineado pela “querela” da “escola sem partido” anuncia a imensa necessidade de educação para crianças e jovens - para TODOS eles -, caso se pense como um educador ou professor do Estado. As intenções devem ser desenvolvidas, desveladas, desdobradas, decifradas. Apenas com o elemento educacional sistematizado torna-se possível a cultura e o entendimento das intenções nas relações sociais e a produção de poder real pela população.

Em tempos comuns seria redundante e ingênuo constatar que não é possível estimular o desenvolvimento ou educar o corpo, as emoções, os pensamentos e o senso crítico de crianças e jovens sem professor, sem escola, e suas específicas intenções.

As máquinas informacionais tais como os computadores, livros, interação virtual por correspondência seja em meio eletrônico ou papel, não são suficientes para educar ou estimular ninguém simplesmente porque são incompletos, inflexíveis e rígidos, comparados à presença condutora de outros seres humanos. É uma verdadeira loucura – no sentido de aberração grotesca - pensar a educação como “adaptação” das crianças e adolescentes às máquinas. Esse falso raciocínio sobre a educação promove apenas deformidades e não desenvolvimentos porque a máquina é sempre menor que o homem, por mais que pareça o contrário. As máquinas informacionais são suficientes para objetivos específicos de aquisição de saberes na esfera do mundo adulto, ou seja, na esfera do aperfeiçoamento de habilidades anteriormente adquiridas. Isso deveria ser de uma obviedade retumbante para os profissionais da educação.

Sobre as teorias do medo e do dinheiro como alternativas explicativas a respeito da loucura geral da nação não precisamos falar aqui. Muito se tem falado e explicado sobre isso incessantemente por vários professores em todos os meios de comunicação disponíveis à nação.

Uma pergunta que os professores deveriam se fazer é: por que a ignorância a respeito das relações sociais estabelecidas deve ser protegida. Assinalo insistentemente que não é possível aceitar a tese de que muitos professores têm medo do “comunismo”. É impossível que qualquer professor no Brasil, de boa fé, não saiba nada sobre essa palavra e ainda esteja no nível de compreensão de vítima de propaganda enganosa nesse assunto.

É preciso estar ciente de que vincular o direito à percepção dos processos sociais à permissão de autoridades do Estado é uma formação conceitual espúria. É verdade que Florestan Fernandes descreve o ânimo crítico e o entusiasmo pelo "saber" por entre o povo nos inícios da revolução comunista em Cuba; é verdade que o artista chinês Ai Wei Wei, por esses dias atrás, num programa de televisão disse que o comunismo de Mao se preocupava em formar o senso crítico. Mas essa questão da consciência, da percepção, é facilmente sequestrada por qualquer sistema de domínio. Vincular um fenômeno a outro - vincular o direito à percepção a uma ideologia política específica - é um tipo de pensamento que está fora de qualquer paradigma de construção conceitual. Esse tipo de vinculação espúria apenas promove uma deterioração do campo da ordenação conceitual que se reflete em interesses políticos. Conceitos degenerados não "moldam", não constroem nada. São instrumentos/armas/venenos de forças dominadoras que se acham a salvo do destino humano. São as ações dos proprietários das gigantescas máquinas moendo ração para animais destituídos de inteligência humana.

É importante, para professores, ter a capacidade de formar, em seus próprios entendimentos, imagens baseadas nas formas físicas reais das coisas, para poderem estimular nos alunos essa mesma capacidade.

A simples percepção e contígua reflexão pessoal a partir das categorias mentais de tempo e espaço leva ao conhecimento de que há compartilhamento de espaço e de tempo. É obvio que a percepção de um "eu" como centro do conhecimento pode prescindir dos interesses de sua personalidade pelo tempo da reflexão, ou seja, é óbvia a capacidade do ser humano refletir, imaginar e pensar sobre assuntos mais amplos do que as preferências de sua personalidade. Pertencer a uma classe profissional já é uma ampliação de si. Se o professor não tem consciência disso, eis aqui um belo problema ético.

Quais têm sido as pessoas que nos tem impedido de percorrermos as camadas de sentido a que dão direito nossas percepções, seja de signos, seja de sensações? Ou quais são as pessoas que têm ditado o que deve e o que não deve ser percebido?

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