• Thiago Prada

A vida de Tomás que morreu com a alma à flor da pele


De noite Tomás acordava sobressaltado em sua cama das muitas voltas que dava em si mesmo enquanto dormia, isso quando realmente dormia e não ficava a madrugar os fantasmas da noite, confabulando histórias dos outros e de si para consigo mesmo.

Durante o dia, devaneava entre as coisas e pessoas, entretempos e contratempos: parava qualquer atividade e olhava ao derredor da existência, se perguntando pelos sentidos de cada pequeno gesto, cada pequena vivência até ao ponto de desfalecer os sentidos e abrir os olhos poéticos para os cachorros cheirando o lixo, pombas pousadas nos fios elétricos, senhoras conversando nas portas das casas.

A cada dia, Tomás contraía mais alguma coisa da vida: doía-lhe o peito em nostalgias das coisas inexistentes, dava-lhe a febre das palavras inauditas e chorava pelo irreversível.

Foi se consultar, "doutor, diz-me que coisa é essa que me sacode inteiro, estrebucha como um peixe no anzol fora da água, esse som aqui dentro, que mais parece um pássaro engaiolado".

O doutor auscultou o seu peito, examinou os olhos dele, tirou a temperatura, mediu o peso, ouviu suas histórias e convicto lhe sentenciou "o senhor tem alma e sofre de querências."

"É grave doutor?"

"Irreversível seu Tomás, viverás para sempre com isso até que suspire o último ar, somente posso dar-te o paliativo da dormência, para diminuir os sacolejos e olhares das coisas."

No entanto, logo depois que Tomás saiu do consultório, viu uma criança chorando a perda da vida que não teria, aconchegou-se a ela e contou fábulas da sua vila e acarinhou o coração da pequena que lhe sorriu e se aninhou nos braços mais suavemente.

Decidiu que morreria de calmarias ainda que tivesse os sobressaltos constantes das tardes lúgubres e das belezas que atingiam o peito causando tumultos na inconstante alma.

Ao cabo das noites, abriu-se um buraco negro nesse mesmo peito que a tudo sugava para a sua alma, que dilatava aos olhos fantasmagóricos de suas companhias, às vezes engasgava de tanta coisa que lhe ia por dentro, e os outros achavam que era quase translúcido e grave como um profeta. Por fim, um dia a alma se despedaçou toda e Tomás suspirou o último ar de uma noite fria de inverno, nos braços sepulcrais das companhias envoltos nas belezas das coisas que vira e sentira em sua vida.

Thiago da Silva Prada, nascido em 1985 na cidade de São Paulo, a Grande Esfinge devoradora de Homens.

Tem uma queda pelo Romantismo, se debate com os monstros da Razão, mas cumprimenta os que estão debaixo da cama. Formado em Psicologia, com pós em Filosofia Contemporânea e Mestrado e Doutorando em Ciências Sociais, apaixonado por Literatura e Cinema, é professor, palestrante, escreve por necessidade existencial e é leitor por ofício de vida.

Publicou dois livros de poesias, “Os Céus de Van Gogh” e “Da Noite Sem Fim – poéticas sobre tristezas e assombros” pela Caligo Editora e o livro de mini contos "As Feridas do Cotidiano & Algumas Belezas Frágeis", através da Editora Penalux, do qual o conto acima faz parte.

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