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“Do Amor”, a matéria resistente segundo Ana Rüsche


Fusionar uma narrativa tênue, mas bem formada, com frases dramáticas, poéticas e filosóficas contando as impressões subjetivas saborosas, ironicamente didáticas ou reconfortantes de uma história nada heroica, continua sendo uma façanha de alquimia literária. Esse livro da Ana Rüsche, “Do Amor, O dia em que Rimbaud decidiu vender armas” traz à tona uma destreza textual conquistadora da atenção bastante rara. O próprio livro é um bombom para quem lê. Gostoso.

“Alguns instantes mais tarde, na calçada ante o bombom e o ponto de ônibus, desembalo o celofane em 27 segundos de malícia e ruídos que embalam o coração. Mordo.”, diz a narradora depois de mostrar versos que fizera “a partir de uma aula sobre Blake”.

Um certo tom de paródia, em degradée, confere ao livro aquela atração peculiar dos sabores picantes. O exagero patético do romantismo pós-burguês da juventude do começo do século XXI que por sua vez leu e aprendeu aquelas coisas de duzentos anos atrás com Stendhal, Kierkegaard, sem falar de todos os livros daqueles americanos malditos da primeira metade do século XX: “Sim, fui muito vadia durante esses poucos primeiros meses de paixão extremada, como se com as pernas abertas para outros conseguisse tirar aquele ranço melancólico dos ossos”.

Agilmente, aquilo que seria só romantismo em outros tempos… imiscui-se num sentimento político aberto. O território do poder longínquo da dimensão social como horizonte político de se viver na cidade do ano 2000 acrescenta dimensões de meandros expandidos na vida da personagem narradora.

“Novamente os pensamentos são como serpentes inquietas nos cabelos de Medusa, com a óbvia diferença que meus olhos não possuem poderes de empedreirar heróis e de minhas entranhas não sairão cavalos alados - esta América Latina vai irregular, com certezas e turbulências, lembro do amigo com suas histórias de tangos e becos, tão próximas de sambas brasileiros, cheio do doce do açúcar e das pessoas comercializadas, histórias palpáveis, bastava estender a mão e as tocaríamos”.

A consciência da literatura é um tema contíguo, desde o título do livro, citando Rimbaud. Obviamente todo esse recurso a referências literárias é mais um bonito conteúdo estilístico e realmente homenageante a todo o modernismo brasileiro. Nesse sentido o livro de Ana Rusche é algo erudito. Mas não no sentido vetusto enjoativo e empafioso. Soa mais como um estímulo à recordação da inerência do nosso Modernismo antropofágico.

“Os estranhos que se banqueteiam na sala olham com gula as ancas de Penélope. Frágil responde com suas mentiras desfeitas em fios que enforcam seus dedos todas as noites. E ainda hoje estudiosos redigem dissertações a perquirir: seria Penélope fiel?"

O tempo passa. Está-se na segunda década do século XXI. O que ocorre é um momento de se olhar para trás meio que de soslaio. E isso é bom: lidar assim com o passado, não o fazendo de sério, mas apenas inevitável.

“Anos depois de escrever esta novela, fui efetivamente para Harar! Sim, a cidade em que, na lenda, Rimbaud se refugiou, onde largou a vida de escritor e passou a traficar armas”.

Eis que a própria literatura, encarnada na narradora, percorre passos que parecem conduzir à terra mítica da estrela Rimbaud! A parte do planeta Terra que reflete essa estrela é a África, que fica do outro lado do mar do Brasil.

Na mesma noite em que peguei nas mãos esse livro, li-o de cabo a rabo, num dos momentos de leitura mais divertidos que tive nos últimos tempos.

Ana Rüsche tem aquele tipo de humor inteligente, irônico, que toda pessoa que se identifique com a sua personagem, aprecia e se esbalda. Claro que talvez eu seja o público-alvo de sua personagem em “Do Amor”, alguém jovem, adulta, predisposta à poesia prática, trabalhador e um pouco boêmia em São Paulo nos anos 2000.

“Sim, este amor faz com que eu permaneça ali, matéria, mais resistente do que os rochedos intrépidos a apanharem vagas violentas da história”, escreve a narradora enquanto a personagem está numa boate.

Essa "até agora única edição” de “Do Amor, O dia em que Rimbaud decidiu vender armas”, de Ana Rüsche, é muito bem cuidada, artesanal, costurada, com a marca do selo Quelônio.

Ana Rüsche

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