• Luama Socio e Walter Antunes

Futebol signo cultural da república


Um diálogo sobre coisas da república e do futebol, num estilo quase debate de boteco autêntico, 11 X 11, entre um embarque e outro na plataforma para o Novo Mundo.

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Luama Socio: O futebol, assim como outrora os espetáculos de gladiadores é um elemento de harmonia da república. É o tipo de cultura elaborada de cima para baixo com justas correspondências de baixo para cima. Tem nas suas origens históricas uma associação com a ideia de camada popular trabalhadora. Como espetáculo promovido pelos governos para apascentar as massas há a contraparte do próprio povo se considerar como integrante de uma nacionalidade através da identificação com o esporte.

Walter Antunes: Os conceitos de harmonia e de república, bem como o do próprio futebol podem e são moldados ao gosto do freguês ou do filósofo em qualquer tempo. A apropriação da festa e do genuinamente popular “pelos de cima” para perpetuação de sistemas de dominação ao longo da história é facilmente observada em qualquer enciclopédia ilustrada. Uma disputa sob bandeiras é o ápice disto seja numa pátria de chuteiras ou numa república de bananas.

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Luama Socio: Alguns contos do Alcântara Machado, em “Brás, Bexiga e Barra Funda” ilustram o papel do futebol como mediador cultural na formação da identidade do povo da cidade de São Paulo na primeira metade do século XX. Ali o futebol é contextualmente naturalizado. É o cenário de disputas amorosas e emoções juvenis da camada popular. Esse é um exemplo de elaboração do tipo “de baixo para cima”. Já a elaboração “de cima para baixo” pode ser exemplificada através de um texto da jornalista Gabriela Costa, em que consta que o período em que o futebol foi mais evidentemente “utilizado” pelo estado brasileiro foi durante a Ditadura Militar (1964-1985): “Neste período - especialmente entre 1966 e 1971, no governo do general Médici -, a agência especial de relações públicas ligada ao Regime promoveu a associação entre a imagem da Seleção Brasileira e o governo militar”. Muita gente se lembra ainda do slogan depreendido de um jingle da época cujo núcleo leva a expressão “90 milhões em ação, salve a seleção”.

Walter Antunes: A crônica sobre a formação de uma cidade ou de uma vila pode ter a sorte de encontrar um cronista mais ou menos atento a certos detalhes, mais ou menos romântico e esperançoso. Arqueólogos que sejam minimamente verdadeiros dentro da proposta ciência vão sempre poder verificar através das ruínas e escombros o que de fato movia o surgimento e a manutenção do povoado e o quanto eram esperançosos e atentos seus poetas e cronistas quanto ao apito da fábrica e ao relógio da praça da Sé. Estudos que comprovam a utilização do esporte em favor da continuidade de um projeto de poder sempre acrescentam luz para a conversa, não importa que sejam sobre a Alemanha Nazista ou as Ditaduras sul-americanas. Quanto ao Brasil o golpe militar já estava consolidado e aceito pela população desde 1964 muito antes da Copa do México de 1970. Assim como todos os golpes no país sempre foram assimilados ou apoiados pela passividade quase total da população. A ditadura civil com disfarce de ditadura militar se estendeu até quando foi do interesse dos mandatários. Supor que o Tricampeonato da Copa do Mundo e a conquista da Taça Jules Rimet deram novo gás aos golpistas com a manipulação do povo é o mesmo que supor que pudesse haver uma revolta popular contra o regime após a não conquista da Copa de 1966, a primeira sob a ditadura e tida como título assegurado pelos torcedores antes mesmo da bola rolar.

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Luama Socio: Sêneca (4 a.C - 65 d.C) enfatiza o papel ordenador das festividades na organização da república já na época áurea do império romano: “Os legisladores instituíram os dias festivos para coagirem publicamente os homens a se alegrarem, interpondo ao trabalho uma interrupção necessária”. Este antigo filósofo obviamente descarta qualquer ideia de benefício à pessoa de personalidade filosófica, advinda da integração à massa submetida à autoridade: “E, certamente, nada é pior do que nos acomodarmos ao clamor da maioria, convencidos de que o melhor é aquilo a que todos se submetem. (…) Morremos seguindo o exemplo dos demais. A saída é nos separamos da massa e ficarmos a salvo.” Walter Antunes: Contra o Carnaval, o Futebol e a grande festa local ninguém nunca pode, sejam autênticos os rituais e as celebrações, ou já completamente manipulados pela “Lei Vigente”. Sêneca com sua inegável sabedoria está infelizmente também na raiz do estereótipo vazio de personagens contemporâneos que na arrogância da auto-consideração por seus notórios conhecimentos se distanciam ou se aproximam do povo conforme a moda. Seria assustador se não parecesse já tarde demais para uma mudança, constatar que as instituições que se gabam de serem grandes nesta nossa república da bola, adotaram desde sempre esse mesmo comportamento individual do sábio distante do povo, o que leva à própria morte do saber e o rompimento entre o conhecimento, a sabedoria e a vida, replicando o próprio Sêneca com sua morte tão absurdamente distante de toda sua obra.

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Luama Socio: Há a utilização metafórica do futebol para designar momentos do jogo político. Por exemplo, o Paulo De Moraes escreve (na rede social mais utilizada) seu desalento diante do desgoverno atual posicionando-se como um torcedor ou jogador imaginário com parcas esperanças de vitória diante do adversário golpista: “A Estratégia de quem não tem nada a perder, porque já perdeu tudo: Neste caso, a única possibilidade, não de vencer, mas de superar a derrota do golpe, é a de aproveitar todos os pênaltis (risos). Ou seja, as oportunidades táticas. A Estratégia de quem não tem nada a perder, porque já perdeu tudo.”

Walter Antunes: Sabendo que o jogo começa como espetáculo com a chegada das simpáticas naus Santa Maria, Pinta e Nina e que a preparação para o “jogo do Brasil" é a própria continuação do Império Romano como nos lembra Darcy Ribeiro, é apenas por um gesto de simpatia que torcemos pelo lado mais fraco, aquele time que todos sabem que vai resistir boa parte do tempo, mas ao final dos noventa minutos acabará perdendo para a equipe mais forte. Já que é um jogo com ganhador já sabido. Não que o lado mais fraco seja o mais fraco, mas por ter assumido desde 1500 o papel de fraco e explorado, e insistir nele ao longo dos séculos. Então o golpe na verdade não é um campeonato, nem mesmo uma partida, apenas uma fração do jogo de Cabral.

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Luama Socio: A metáfora aponta para a estrutura política da qual o futebol faz parte. Se o futebol fôra instrumentalizado pelos militares, também serviu ao governo Lula à identificação com o povo. Professores universitários (Mascarenhas, Silva e Ribeiro dos Santos), num artigo relacionando o “Lulismo e o futebol”, escrevem: “No Brasil, parece ser correto afirmar que falar sobre o futebol é uma forma de falar sobre o país. (…) A capacidade retórica de Lula, capaz de cativar interlocutores os mais distintos, mas também alcançando com maior ressonância a população mais pobre, justifica-se, em grande medida, pelo uso da metáfora. (…) Não por acaso, o ‘futebolês’, inteligível a quase todo brasileiro, sem excluir os mais ricos e sofisticados, foi uma língua usada para falar de perto ao povo mais pobre”.

Walter Antunes: Lula não falou ao povo mais pobre e se falou, esse povo não ouviu, por estar demasiado ocupado em trabalhar ou ocupado em se tornar o primeiro universitário da família ou estar comprando a primeira casa da família ou estar acendendo a primeira tomada de energia elétrica da família ou viajando pela primeira vez de avião para rever a família. Se existe mesmo um lulismo, ele não falou ao povo como o chavismo, já que aquele povo venezuelano, mesmo sob cerco cruel e desumano, não aceita a volta dos 500 anos que antecederam Chaves. Lembrando o mestre do futebol Neném Prancha, ensinando aos jogadores para não dar chutão e sim priorizar o passe rasteiro: “a bola é feita de couro, o couro vem da vaca, a vaca gosta da grama, então a bola é no chão”.

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Luama Socio: Os professores mencionados acima citam um discurso feito por Lula em 2010 durante a cerimônia de entrega do Prêmio Nacional de Direitos Humanos: “Quando vai chegando o final do governo, a gente vai tendo a sensação de que estava assistindo a uma partida de futebol, e eu vou falar em futebol, porque as pessoas mais humildes compreendem mais se eu filosofar futebol. Então, nessa partida de futebol, eu não tenho dúvida nenhuma de que nós estamos ganhando o jogo de quatro a zero, cinco a zero... E aí, nós temos três tipos de torcedor: nós temos aquele torcedor muito otimista, que acha que era impossível fazer mais, que nós fizemos de tudo, que os gols foram os mais bonitos que já foram vistos dentro do Maracanã. Nós temos aquele pessimista, aquele que fica: “Pô, só cinco a zero! Por que não fez 10? Porque não fez 15? Poderia ter feito mais!”. Também não vai acontecer. E aquele que é um pouco o que vocês são: o torcedor forte emocionalmente, mas também forte racionalmente, que vocês estão contentes com o 5 x 0 mas, ao mesmo tempo, acharam alguns gols bonitos, outros mais ou menos, outros feios, e acham que o time poderia ter feito mais, se não tivesse perdido tanta bola, se não tivesse dado passe errado. A política é um pouco assim. Eu sei que nós fizemos muito, mas eu sei também o quanto falta ser feito neste país”. Walter Antunes: A principal fala de Lula sobre futebol passou despercebida pela quase totalidade das pessoas e hoje é já esquecida. Em 2007 ele disse sobre o rebaixamento do seu querido time: “O Corinthians tem que pagar e aprender pelos seus erros”. Talvez por ser metaforicamente/simbolicamente o mais brasileiro de todos, Lula estivesse prevendo o que estaria por vir. Num rápido paralelo política/futebol temos: o arco de alianças e partidos não confiáveis/a diretoria do time; a grandeza do Brasil/Corinthians; a força desprezada do povo brasileiro/torcida fiel. O jogo segue. Independente do governo ou presidência do time, o que importa é a vida e o Corinthians em campo, sabe-se que o juiz é ladrão - no campo de futebol e na política, mas insiste-se em jogar a partida.

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Luama Socio: A estrutura mítica do futebol, no mais pleno sentido grego do termo, foi apontada por um erudito político brasileiro, fundador do PSDB, o Artur da Távola (1936-2008), de uma forma bastante interessante. Ele explica que o mito básico de todo esporte é o suplício do herói, a luta permanente da força com a harmonia. “O futebol mitologiza a vida por representar a vitória do trabalho, da regra, da lei, do conhecimento, do melhor preparo. Significa a operosidade, a defesa do território (ou da propriedade) através da ação conjunta da comunidade (o time). Esta ‘comunidade' tem os líderes, guerreiros, sacerdotes, defensores, artistas, penetradores sorrateiros, estrategistas, teóricos e pensadores”.

Walter Antunes: O Sr. da Távola poderia ter levado um pouco da sua erudição para o partido que fundou, até porque os tucanos são aves míticas assim como a távola é redonda. Poderia ter mostrado por lá, também alguns preceitos dos boleiros como: não se fura a fila para ser titular, jogador com ego inflado não ganha campeonato, bola na trave não altera o placar, se macumba ganhasse jogo o campeonato baiano terminava empatado, o jogo só termina quando o juiz apita. É preciso aqui entender tudo isso também metaforicamente com relação à política.

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Luama Socio: O mais interessante, na análise de Artur da Távola, é que o elemento específico e diferenciador do futebol (em comparação com o sistema de pontuação dos outros esportes) é que é o esporte que “permite a mais elevada taxa de acaso” associada a uma privilegiada potencialidade orgástica. Infelizmente esse traço distintivo vem sofrendo tentativas de apagamento pela cultura da repressão disseminada na atual fase da civilização: “O momento do gol, por sua explosão e caráter de prazer total, é o instante de liberdade no qual o homem ganha o direito da plena expansão, do salto, do grito, da desrepressão. Limitar a efusão orgástica é grave manifestação simbólica do ânimo de repressão subjacente nas limitações dos autores das regras."

Walter Antunes: Durante anos vimos em setores intelectualizados e da mídia, essa persistência em comparar o gol ao orgasmo. Para o boleiro verdadeiro o jogo não substitui os outros aspectos da vida e outras paixões. Ele sabe que a vida é maior que o próprio futebol, que depois dele outros virão chutar a bola. Sobre a “atual fase da civilização”, talvez muitos não previssem que “a satisfação, o orgasmo, o prazer total”, pudessem se resumir em tão pouco tempo, de forma voluntária, e em escala planetária, ao onanismo-smarthphoniano. Alguém pode lembrar de Barbarella como enviada do planeta Terra - onde não se pratica mais “sexo carnal”, apenas se usa cápsulas para replicar sensações deste processo - chegando a um longínquo planeta e encontrando seres em diferentes “estágios civilizatórios”, desde o excluído que a reintroduz à tradicional forma de contato orgástico até o revolucionário responsável e consciente que prefere usar a “pílula do amor” para não parecer um mero selvagem. Em tempos de selfie-stories tudo isso é apenas uma fichinha de orelhão.

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Luama Socio: outro lado, refletindo a identificação do povo brasileiro, com todas as suas mazelas e características específicas, projetadas na relação com o futebol, Artur da Távola diz: “Enquanto o país como um todo não realizar o grande metabolismo interno de suas fraquezas e forças, de suas caraterísticas, defeitos, estilos e virtudes, viverá por certo, da ilusão da vitória, do ‘milagre’, do ‘maior do mundo’, enquanto, a seu lado, medram a miséria e a iniqüidade social”.

Walter Antunes: Retornamos ao campo de jogo, mais precisamente voltemos ao Estádio do Pacaembu na tarde do domingo, primeiro de maio de 2011, clássico pelas semifinais do Campeonato Paulista, o Corinthians de Tite versus o Palmeiras de Scolari. O que menos importa é a vitória do time alvinegro e a classificação para as finais. O mais importante é o ensinamento filosófico que ficou eternizado na história, e que não veio de Sócrates (nem do jogador, nem do filósofo), mas do treinador alvinegro para o eterno admirador de Augusto Pinochet, técnico palestrino: “ Fala demais! Fala demais!”

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Luama Socio: Sêneca, estoico, portanto um tipo filosófico bastante “senso comum”, metódico, metafísico e enfim culpado de valores a serem refutados pela dialética; esse filósofo que figura entre os mais vendidos livros de bolso em aeroportos e rodoviárias; um vento de lucidez crítica que vem dos tempos áureos e frescos do império romano; já aludia ao que que viria a ser também o futebol apontando para a frivolidade desse tipo de “cultura”: “Seria exaustivo demais examinar cada um daqueles que desperdiçaram a vida em jogos de xadrez, de bola, ou bronzeando-se ao sol. (…) Ninguém duvida serem muitos os que se cansam sem nada fazer”. Walter Antunes: Sêneca sempre exato com as palavras nos coloca a responsabilidade que temos perante nós mesmos e nossas vidas. Uma humanidade que se desperdiça individualmente desde sempre entre suas opções: caçar mamutes congelados ou não, fazer rabiscos em cavernas, rabiscar milhares de anos depois sobre os rabiscos nas cavernas, torcer feito louco por um time de futebol, assistir cabeças serem decepadas e o sangue jorrar em arenas romanas ou até mesmo incendiar a própria Roma. A responsabilidade com o ser e o agir.

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Luama Socio: Na visão de Sêneca, a futilidade do tipo de conhecimento que perfaz a literatura e o discurso produzidos pelo futebol estaria classificada entre os maneirismos do afã típico de quem acha importante colecionar informações sobre feitos considerados quantitativamente gloriosos através da história. É possível resgatar aqui a crítica a esse conhecimento feito de uma historiografia quantitativa, transformada em estatística, e portanto em “ciência”, grandemente ajudada atualmente pela memória dos computadores, de modo que pode-se dizer sem medo de errar que, em futebol, a “história” é uma ciência exata. “Esse foi um legado dos gregos, procurar saber quantos remadores tinha Ulisses, se foi a Ilíada ou a Odisséia que foi escrita primeiro. (…) Eis que essa paixão de aprender coisas inúteis tomou conta dos romanos”.

Walter Antunes: Nestes tempos de contabilidades e disputas sanguinárias por curtidas em sistemas binários e não binários, de proliferação de almanaques e “sábios instantâneos” no Instagram ou não, de futebol de autômatos, de donalds e mitos de um único dia, verificamos as certeiras palavras de Sêneca e cada vez mais sentimos que Vicente Matheus também estava certo ao agradecer à Antartica pelas Brahmas enviadas para a festa.

Referências Bibliográficas

“Comunicação é mito”, Artur da Távola.

“Da tranquilidade da alma”, “Aprendendo a viver”, “Sobre a brevidade da vida”, Sêneca.

“A estreita e histórica relacão entre futebol e política”, Gabriela Costa.

https://www.huffpostbrasil.com/gabriela-costa/a-estreita-e-historica-relacao-entre-futebol-e-politica_a_21670047/

“Lulismo e futebol: os discursos de um torcedor presidente”, Fernando Mascarenhas, Silvio Ricardo da Silva, Mariângela Ribeiro dos Santos

http://www.seer.ufrgs.br/Movimento/article/viewFile/41837/28914

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