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Educação sem liberdade é pura contradição


Não existe desenvolvimento sem liberdade.

A liberdade é o próprio objetivo da educação já que o homem é justamente o ser em processo, essencialmente inacabado, o qual apenas realizará suas potencialidades em circunstâncias favoráveis ao seu desenvolvimento. Essas circunstâncias estão representadas no conceito de educação. A supressão da liberdade conduz ao atrofiamento, ao subdesenvolvimento e, em nível coletivo, a uma cultura de morte.

O subdesenvolvimento é observável e extrapola o contexto oficialmente educativo, podendo ser considerado tema de psicologia social, além de ilustrar juízos a respeito de paisagens sociológicas derivadas da ausência ou presença de trabalhos educativos desenvolvimentistas e humanizados.

As sociedades altamente desiguais, divididas em classes, como a brasileira, caracterizam sempre o atraso cultural e humano em relação direta com a falta de liberdade dos indivíduos. Paulo Freire, em 1970, analisa e ensina justamente a respeito desse contexto em sua obra mais influente, a “Pedagogia do Oprimido”, em que propõe reflexões e processos para a liberdade significando o sentido da vida.

Ele diz: “Tal liberdade requer que o indivíduo seja ativo e responsável, não um escravo e nem uma peça bem alimentada da máquina. Não basta que os homens não sejam escravos; se as condições sociais fomentam a existência de autômatos, o resultado não é o amor à vida, mas o amor à morte”.

Quando se fala em liberdade como prerrogativa da condição humana, todos tendem a concordar com sua elementaridade, como se a condição de liberdade fosse inerente ao ser humano, existente como uma qualidade natural, indissociada de seu ser. Porém quando o assunto passa a se relacionar com a educação institucionalizada, emerge toda a confusão, inconsciência, irreflexão e hipocrisia diante do tema.

Entre os professores, levantam-se inúmeras objeções, restrições, argumentos paradoxais relacionados à prática da educação sob a ideia de liberdade.

Há aquela clássica proposta geralmente colocada aos professores como início de reflexão em reuniões de formação, capacitação ou treinamento: qual deve ser o papel da educação, moldar o aluno ou conduzi-lo a desenvolver suas potencialidades? Ao que se seguem inúmeras respostas, que são dadas de acordo com o alinhamento psicológico ou liberdade subjetivos dos presentes, geralmente clevando à conclusão coletiva de um meio-termo entre “molde” e “liberdade”. Destarte, pensar o ser humano como um objeto que pode ser “moldado”, “libertado” ou “dirigido” chega a ser um lugar comum nas reflexões dos professores entre seus pares.

Aqui bem se vê o falso início da questão da liberdade em educação. Ela não pode se dar, verdadeiramente, numa relação sujeito-objeto. Então, o que é essa liberdade?

Por incrível que pareça: liberdade é justamente aquilo que extrapola tudo o que está posto, na estrutura da escola, como cultura a ser transmitida, reproduzida, replicada, a qual constitui o conteúdo de responsabilidade dos adultos, a ser incutido nos alunos. Paulo Freire ensina muito bem que o “método pedagógico”, no sentido de técnica de manipulação do educando, deve ser substituído pela consciência, a qual se caracteriza como o “estar com”: é aí que se dá uma relação verdadeiramente humana, entre pessoas livres, entre sujeitos, em lugar da opressora relação sujeito-objeto. Os sujeitos da educação, “ao alcançarem, na reflexão e na ação em comum, este saber da realidade, se descobrem como seus refazedores permanentes”, escreve Paulo Freire.

Essa questão passa por uma compreensão de que a educação deve incluir a atenção para com o processo de autoconhecimento, para o desenvolvimento de consciência de cada um dos integrantes dos momentos educativos. Não se trata de entender a palavra consciência apenas na acepção de percebimento e funcionamentos dos sentidos físicos na apreensão do mundo externo, mas sim no sentido de estimulação de uma visão integrada da vida, para além da avidez, busca de poder e domínio como ingredientes da formação da personalidade.

Trata-se de despertar a inteligência, estimular o desenvolvimento baseado em movimentos de compreensão e integração, fazer emergir a percepção de que os próprios seres humanos são o ambiente em que vivem. Tudo isso deve substituir o esquema tradicional de servilismo e dominação baseado na imposição da fragmentação psicológica e social que caracteriza a feição cultural de nossa infelicidade.

Repressão e padronização são o oposto de liberdade, portanto frequentemente o contraste com a autoridade que os representa é o exercício da liberdade no contexto da escola. Assim, na prática, a ação do professor, em direção ao desenvolvimento da liberdade deve ser sempre direcionada ao estímulo ao invés da contenção.

Como fazer significar a relação entre as ideias de educação e liberdade?

Obviamente um professor que educa seus alunos para serem livres deve, ele mesmo, ser livre. Isso exclui, por exemplo, a clássica postura autoritária, e exige uma ampla criatividade no ensinar, nascida da observação das necessidades do aluno e de uma disposição, do próprio professor, em aprender. Os métodos, as atividades, a própria ocupação do espaço e a organização no tempo na escola devem nascer da relação professor-aluno. Relação sem medo, sem expectativa de resultados rigidamente projetados.

O professor que nunca está a aprender, aquele mandão, sabichão, será o professor que quer o aluno a imitar-lhe ou obedecê-lo, apenas. Já o professor que está aberto ao aprender é o professor criativo. O estilo da criatividade varia, porém esse professor, apenas por ter uma consciência desenvolvida, será criativo espontaneamente, como reflexo da própria liberdade de seu ser. Até mesmo “tecnicamente" ele será um professor melhor do que o professor puramente autoritário.

À primeira vista essa posição parece ser oposta àquela que postula a educação como uma ação fundamentalmente preparatória para o futuro. O discurso “futurista" é um chavão na educação e tem sua razão óbvia assim como sua desrazão. Porém na verdade, apenas a concepção da educação para a liberdade é que pode almejar um futuro verdadeiro para os seres humanos. Os discursos baseados na projeção para o futuro, com vistas ao sucesso através da competitividade direcionada a um mundo externo congelado - pelo aprendizado de fórmulas prontas - em que o aluno irá “entrar”, na verdade supõem esse mundo como algo estático, dado e acabado, o que obviamente não corresponde à realidade.

Justamente pela ênfase no ensino da técnica e da reprodução de modelos perpetuam-se os defeitos culturais, dentre os quais distingue-se o núcleo do comportamento social da cultura de morte: a opressão dos mais fracos pelos mais fortes, o servilismo do povo aos senhores, mandatários e patrões. Eis de onde se parte e onde se chega com a educação que se faz “moldando” os alunos.

Através do típico paradoxo da dinâmica da realidade para além da rigidez dos conceitos ortodoxos, a própria cultura humana, de um modo geral, é ameaçada de extinção se faltar liberdade. Em lugar de cultura humana tem-se uma cultura de morte, que tem como resultado e até mesmo como objetivo, a produção da morte sob várias formas, por meio de vários sistemas conhecidos por todos nós: guerra, miséria, capitalismo, escravidão, massificação, etc.

A liberdade é necessária à transformação da cultura. Sem possibilidade de transformação, a organização social vai se tornando inadequada à sobrevivência dos indivíduos. A ação autoritária e simplesmente reprodutiva, no campo da educação, recrudesce a entropia e a decadência da própria cultura que ela almeja estabilizar.

Portanto educação sem liberdade é pura contradição.

foto: Walter Antunes

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