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Tristeza não tem fim ou sim?


Roselena e Walker Dante, mais uma vez sentados em confortáveis cadeiras dispostas estrategicamente no quintal após um longo almoço, não conseguem conversar de outra coisa a não ser sobre o Brasil… que os tem deixado muito, mas muito tristes mesmo:

Walker Dante - Tem aquela música… “o trópico tropica, emaranhado no trambique, a treta multiplica*…”

Roselena - Esse sentimentalismo não resolve nada, embora não seja de todo mau desabafar inteligentemente, poeticamente, musicalmente.

W. D. - Então o que é esse Brasil que nos entristece? Sempre apenas uma abstração?

Roselena - Temos que entender o processo, a estrutura, o sistema. O irmão do João Cabral mostra isso naquele “O negócio do Brasil”, o próprio pai do Chico Buarque também, naquele “Raízes do Brasil”. Depois tem o Darcy Ribeiro em “O Povo Brasileiro” e outros mais. A minha conclusão sobre a nossa tristeza é que isso que a gente chama de Brasil é uma coisa que tem dono, e este não somos nós, o povo.

W. D. - Cada uma dessas coisas que você falou, processo, estrutura, sistema, são diferentes umas das outras. Meu descontentamento recai justamente no problema da passividade desse povo, que parece que vem desde sempre aceitando que o Brasil não é dele, prosseguindo cego, escravo, conformado em não participar do poder de transformar o sistema numa totalidade social mais justa. Assim essa coisa de “entender” é que não resolve nada! Entendimento é mais uma qualidade psicológica que política.

Roselena - Estou começando a temer por sua saúde mental. A ação deve seguir o entendimento! Você não vê que as pessoas são enganadas pelas palavras, pelos discursos? Os políticos simplesmente iludem o povo com as palavras.

W.D. - Mas simplesmente acreditar no entendimento me parece totalmente ingênuo. Basta tentar, com vistas a demover alguém de um posicionamento político irracional, argumentar com informações corretas sobre o erro de tal posicionamento. Simplesmente não se convence a pessoa a mudar de opinião. A maioria das pessoas não consegue ser livre diante da repressão generalizada.

Roselena - Pois então continua enigmática a possibilidade de transformação social, tão necessária e urgente, já que vemos que o país está literalmente andando para trás.

W.D. - A estrutura está dada, o sistema se discerne, o processo se realiza. Sabemos do inconsciente, da análise e da performance envolvidos na questão social. Nenhum desses conceitos se relacionam obrigatoriamente. A relação que você faz entre esses aspectos é apenas o esforço harmônico da sua mente inconformada com a desigualdade de poder na sociedade. Mas já que você quer: no caso do Brasil, “o povo” só participa - e olha lá! - do “processo”, a saber, no caso político, da “eleição”.

Roselena - Pois é isso mesmo, justamente a “eleição” é a ferramenta do sistema que cabe ao povo utilizar para alcançar, a partir daí, uma possibilidade de mudança na estrutura.

W.D. - Mas você é esperançoso mesmo. Como é possível a transformação social num sistema estruturado justamente na ausência do conceito de povo? Para a classe dominante o povo não existe! Essa classe é composta sempre do mesmo tipo através dos séculos: agentes da exploração de riquezas da terra, visando ao mercado externo. Para esses agentes é sempre uma vantagem tática manter as massas exploradas em perene situação de pobreza ou, melhor ainda, em miséria extrema.

Roselena - A possibilidade está em eleger candidatos oriundos da representação dos interesses do povo. Isso, obviamente, se tal representação não for esmagada pela classe senhorial proprietária durante o processo eleitoral. Penso que, justamente, se é a palavra, o discurso, que tem o poder de enganar o povo, é também a palavra que pode revelar o descalabro da desumanidade da classe dominante brasileira ao mundo. Talvez o medo da opinião externa coloque um freio à audácia totalitarista dos mandatários. O próprio Darcy Ribeiro assinalou a “sensibilidade" dos ricos “brasileiros" frente a má opinião internacional sobre eles.

W.D. - Fatos expressivos da audácia totalitarista, exploratória e repressiva, difundidos discursivamente pelo mundo é que não faltam, a começar pelo golpe de 2016, que derrubou a presidente eleita…

Roselena - A lista é longa: continua em curso a tentativa de fraude às eleições deste ano, mesmo ainda longe de sua data, na tentativa de impedir a candidatura Lula, teoricamente o representante mais forte dos interesses do povo, à presidência; o atual governo, através de todas as suas frentes (executivo, legislativo, judiciário, e com o apoio dos grandes meios de comunicação) tornou irrelevante a Constituição, desmontando sistemas de saúde, educação, previdência social; abriu as áreas de infraestrutura, tais como portos, aeroportos e rodovias ao capital privado, além de promover sistematicamente a destruição da Petrobrás; até a água está sendo vendida (porém ainda não conseguiram vender o ar), e junto com tudo isso promove-se sistematicamente espetáculos de repressão militar…

W.D. - Não tenho condições de discordar inteiramente da possibilidade de fazer da palavra um instrumento democrático e político. Porém isso continua me parecendo incrivelmente insuficiente e fraco diante das circunstâncias políticas. Porque, além do mais, isso que é o Brasil, ou seja, nesse caso apenas uma simples presa do capitalismo, parece se coadunar com a realidade global, embora baseada sobre estruturas diversas de acordo com a peculiaridade de cada lugar. Diz-se que a concentração do capital, hoje, assumiu um estágio nunca dantes visto. Em todos os setores importantes da economia, apenas uma ou duas empresas controlam o mercado mundial. Diante disso, que solidariedade o discurso de protesto democrático poderia angariar, ao se propagar pelo mundo, visto que o “projeto social-democrata" parece estar se dissolvendo como uma mera fantasia ideológica em todo o mundo?

Roselena - Pois então se os argumentos apocalípticos baseados na perspectiva econômica hegemônica forem os únicos válidos, quanto aos rumos da história social, damos aqui, agora, o próprio mundo como acabado. Porém a questão é que esse ponto de vista, que me parece eivado de um cientificismo positivista, contém correspondentemente o clássico obscurecimento ontológico - e diga-se de passagem, isso denota uma flagrante má fé -, o qual favorece um “inefável nada" (como diz Adorno) no ponto de partida da análise da questão. O “capitalismo” vira uma abstração indomável, magicamente dominante e invencível, harmonizado com as massas que se sentem “socialmente supérfluas, nulas, apegando-se mesmo assim ao sistema que, querendo subsistir não pode deixá-las morrer de fome”. Um grande respeito ao Capitalismo não te parece também meio ingênuo, insuficiente e meio “fraco” como posicionamento político?

W.D. - Ah! Então agora você está concordando com o meu “dane-se o entendimento”! É isso que eu quis dizer. Muitas vezes, sob uma espécie de “entendimento" esconde-se um servilismo que, por vezes, apenas mascara uma sentimento de impotência.

Roselena - Finalizo minha participação nessa conversa, confiante no ser humano como tal, na glória de seu poder, citando o Berkeley, para que você tire suas conclusões: “poderá haver um povo trabalhador que seja pobre e um ocioso que seja rico?”

W.D. - E eu replico o Adorno (será o Betinho?): “quando, numa sociedade em que a fome seria inevitável, aqui e agora, em face da abundância de bens existentes e evidentemente possível, e da mesma maneira existe a fome, então isto exige a abolição da fome pela intervenção nas relações de produção. Esta exigência brota da situação, de sua análise em todas as dimensões, sem que para tanto se precisasse da universalidade e da necessidade de uma representação de valor”.

Referências:

* “Tristes Trópicos”, música de Itamar Assumpção que faz trocadilho com o título da obra de Lévi-Strauss: https://www.youtube.com/watch?v=jh-HWGecr20

“Introdução à Controvérsia sobre o Positivismo na Sociologia Alemã”, ensaio de Theodor Adorno.

“The Querist”, texto anti-metalista para uma Irlanda livre do jugo Inglês, de G. Berkeley.

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