• Pedro Teixeira da Mota

Acerca da meditação, uma metodologia


Meditar é uma prática valiosa e bem necessária nos nossos dias, no fundo sendo um ato sagrado e íntimo, por vezes mais difícil de se conseguir, outras vezes surgindo fácil e rapidamente, como numa súbita inspiração, mas que apela ou é favorecida por uma certa perseverança diária na vida justa e fraterna, e no alinhamento consciencial com o amor, o espírito, a Divindade…

Muitas metodologias podem ser ativadas e eis então uma:

Após um certo alinhamento ou desbloqueamento, para o que podemos fazer alguns exercícios de movimentação ou, já sentados, direitos e descontraídos, delinear alguns gestos e sons com os dedos ou mãos, estimuladores da energia nos meridianos que começam ou terminam nas mãos, de modo a limpar, harmonizar e elevar os sutis fluxos energéticos e psíquicos, ficamos mais prontos a singrar na viagem auto-consciencial e meditativa...

No início podemos (e devemos...) fazer uma invocação da Divindade, dos Seres divinos, dos mestres, imams, santos ou anjos com quem nos sentimos mais ligados ou afins, que pode ser dita em voz alta, espontânea ou seguindo alguma oração ou mantra... Por vezes pode haver uma expansão consciencial imediata, pelo que este momento deve ser privilegiado ou mesmo alongado...

Em seguida começaremos por observar o ritmo da respiração, descontraidamente, se quisermos sentindo as energias luminosas a entrarem, sendo retidas para nos purificarem e vitalizarem e, na expiração, saindo e deixando-nos mais harmonizados. Esta observação e interiorização será a base ou raiz do alinhamento meditativo, mas pode contudo focar a sua atenção inicial seja nas partes do corpo tensas ou mais necessitadas de energia (prana, ou shakti) equilibrante, seja nos chakras ou centros de força no corpo sutil...

O foco da nossa consciência deve ser a auto-consciência verticalizante, e a plena atenção sobre os conteúdos objetivos que se manifestam em pensamentos, em geral derivados do que dança na nossa aura ou do que nos preocupa, dos nossos instintos ou carências, mas que aos poucos vão-se acalmando e dissipando, pois sendo vistos ou observados com mais interioridade e calma, estando nós a abrir-nos a níveis, canais e ligações identificativas superiores, vão perdendo as suas energias emotivas ou conflituosas que os tornavam por vezes repetitivos ou afetando-nos mais, sobretudo no sentido de pensarmos que não conseguiríamos desprender-nos deles e de acalmar as ondulações emocionais e mentais e portanto meditar...

Depois de termos então apaziguado mais o nosso ser psíquico, tentaremos estar mais no coração, no silêncio, ou então no invocar mais intensamente o que intuímos ou recebemos de modo sensível na alma, de modo a que se comece a sentir mais a presença interna energética do Espírito e a sua ligação com o Infinito ou o Ser Divino, o que acontece normalmente pelo sentir, ver e ouvir interior e sutil...

Se tivermos dificuldades, o que é normal, em chegar a um estado imediato de poucos pensamentos e a uma ligação maior da consciência consigo mesma ou com o espírito, deveremos de quando quando invocar, mantrizar, orar e adorar, com mais aspiração, a forma ou nome do Divino ou do aspecto ou atributo sagrado que mais nos toca, para isso podendo por vezes ainda contribuir, por exemplo, o inclinar-nos sobre o peito e aí juntar as mãos, sentindo bem nessa postura e a receptividade invocativa grata e humilde...

Entre nós e o Espírito, ou mesmo a Divindade, não deveria haver tantas barreiras, véus e canais desviando-nos para outras direções e seres, pensamentos e imagens. E, por isso, estes momentos de aspiração despertante e de tentativa de unificação maior são valiosos, sendo reforçados, como já dissemos, pela criatividade ou fidelidade aos cantos, preces, mantras e mandalas (diagramas contemplativos), ou mesmo, como já referidas, pelas mãos juntas, que equilibram as polaridade e unificam sempre algo em nós. Mãos que podem depois elevar-se ao céu em forma de Graal, taça ou cálice, e acolher melhor as bênçãos luminosas ou, ainda, ao findar, derramá-las para as pessoas ou países que mais precisam.

A meditação pode ser então considerada como uma destilação maior do elixir da imortalidade, como a criação do corpo espiritual perene ou dharmico (do sânscrito dharma, Ordem do universo), realizando-se então pela auto-consciencialização do Ser profundo, do Espírito que está em nós, que se sente (mais ou menos...) na circulação energética, no som sem som, na luz interior que começa então a ser mais vista no olho espiritual, na paz e amor, e que nos impulsionam assim a mais intuições, expansões de consciência e determinações, que desaguarão posteriormente na ação harmonizadora e libertadora do dia a dia...

Meditamos, portanto, não só para nós, mas para os que nos estão próximos, o ambiente e os seres da Natureza e a própria Gaia, Gea, Tellus, Zamyat ou Terra, mas também para os espíritos sutis ou fora da existência física, desde os antepassados aos que mais gostamos, numa fraternidade cósmica, angélica e dévica, sentida e amada, sobretudo quando a Luz circula e emana visivelmente do coração ou do olho espiritual, ou que desce do Alto, e que, pelo nosso amor, chega até eles e deles recebe também sinais ou graças, como o símbolo das três Graças indica...

Quando meditamos, ou apenas perseveramos no respirar consciente e no orientar e concentrar das ondas do pensamento, estamos a acalmar as ondulações psíquicas, a harmonizar os dois hemisférios, a dar coerência ao crescimentos das sinapses dos neurônios, a clarificarmos e lucidificarmos a nossa mente e alma, e estamos também ainda, unindo mundos e seres, personalidades e o Espírito Divino, talhando o corpo espiritual, dissolvendo ódios e separatividades, recuperando a nossa dimensão mais profunda, extensa e sábia, fiéis do Amor divino ou verdadeiro, cooperando assim na harmonização e iluminação planetária, na religação à Unidade, à Divindade, ao Supremo Bem...

Boas meditações... Om Tat Sat... Tu és o Espírito...

Pedro Teixeira da Mota é escritor e mora em Lisboa

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ilustração do texto: foto de Walter Antunes

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