• Walter Antunes

Impressões não Impressas no Papel


"Já se disse que o analfabeto do futuro não será quem não sabe escrever, e sim quem não sabe fotografar".

Walter Benjamin

um texto sobre fotografia sem fotos

Em tempos de novas coisas velhas e de próxima tela, próxima postagem, esta linha deste parágrafo talvez já não esteja sendo lida. Mas ela continua ainda assim.

Nunca antes no mundo - em números absolutos ou em outra contagem qualquer – houve tanta gente apertando um botão que gera uma imagem, independente de bela ou significante, de imagem qualquer ou foto inesquecível, afinal cada humano tem a sua medida de beleza e de significação.

Bem distante de qualquer queixume sobre o valor da fotografia, que várias vezes toma conta de muitas discussões desde o início e torna infrutífero os diálogos, o que tentamos verificar aqui é que a questão-monstro-coisa não está na fotografia, mas no tempo e nas escolhas de cada um, muitas vezes disfarçados ou legitimados pelas falas, tais como o mundo é assim mesmo ou ninguém pode com a máquina-sistema.

A atual ânsia generalizada de registrar tudo e a ânsia maior de publicar, gritar o status momentâneo ao mundo, fazem com que o próprio registro-foto-publicação do instante seja feito apressadamente e de qualquer forma, pois não se está com o pensamento nele, mas já no futuro-próximo registro-foto-publicação, seja ele qual for, mesmo quando nem se tenha ideia do que virá a ser.

Alguém em algum dia recente me disse sobre a fotografia e o fotógrafo estarem definitivamente mortos. Argumentava ele que ao contrário das expectativas do início do século 21, o fácil acesso à produção e a imensa quantidade de pessoas fotografando não produziu a valorização da arte fotográfica, que as pessoas ao mesmo tempo que nunca fotografaram tanto também nunca viram tão pouco a fotografia do mundo e a fotografia feita pelos outros.

O propagado amplo acesso à literatura e à música ou a qualquer arte universal parece não tocar o coração das pessoas. Cada vez mais temos concentrações de eleitos nessas áreas todas, o que não faz da fotografia a única arte ou linguagem em triste situação. Não se discute os mecanismos de manipulação para se produzirem os eleitos para as massas de consumo.

Ainda assim as tentativas de fama persistem por todos os lados, o frisson por não se perder a oportunidade, a imaginação da exclusividade, da foto única, o novo-tema-novo jamais antes trabalhado.

Essa imaginação pode por vezes levar ao delírio ou à paralisia mesmo que momentâneos. Outro amigo me contou sobre chegar num estúdio de música numa destas tardes, estava lá não para fotografar, sem câmeras ou equipamentos, quando soube que Ney Matogrosso também estava no estúdio. Este amigo que não tem o mínimo perfil de deslumbrar-se diante de artistas, mesmo da grandeza do Ney, entrou em pânico por estar sem sua câmera, tempos depois me contou envergonhado que após o pânico ficou paralisado e não conseguiu nem mesmo responder ao “Boa Tarde!” do Ney, ter uma conversa feliz como a coincidência da situação clamava.

Parte da explicação de como as coisas estão ou para onde as coisas podem estar indo nesses tempos pode estar sinalizada em duas falas que vi-ouvi em dois recentes shows da mais elevada arte que um brasileiro pode alcançar como artista. Shows que assisti e que não fotografei. No lançamento em São Paulo do álbum Dos Navegantes, Edu Lobo, em determinado momento quando surgiu no palco uma certa brincadeira sobre o Grammy, contou que ao receber o prêmio tempos atrás, telefonou feliz para a sua própria mãe para contar a novidade e que ela perguntou se era o Grammy mesmo ou se era “aquele outro”, referindo-se ao Grammy Latino. Na mesma apresentação ele havia contado como considera estranho que a imprensa chame este trabalho novo de Dois Navegantes e não Dos Navegantes, já que até mesmo na capa do cd aparecem três artistas. Noutro show, o de Yamandu Costa, cuja grandeza não existem muitas palavras que possam definir, ele contou que após um recente cd seu ficar pronto, enviou-o pelo correio para a sua avó, que também ao telefone, depois de ouvir as músicas, disse a ele que era um cd que parecia inteiro feito de introduções.

Tempos não-difíceis mas indubitavelmente curiosos. Percepções e sentenças instantâneas e variadas, as próximas selfies, o não escutar, o não debruçar-se sobre o outro, a impermanência, a muitas vezes desesperada procura por se fazer notado, a possibilidade ou impossibilidade de parar a vida para tomar um café com o velho amigo encontrado por acaso na rua no meio de um dia qualquer.

Uma outra história também ouvida num show recente, de outro deus da música, Egberto Gismonti, mostra a face perdida da delicadeza nas relações humanas. Numa das trocas de instrumento ele contou sobre os segredos e maravilhas de certo luthier que leva anos (não o tempo de uma selfie no instagram) para preparar um pedaço de madeira que se transforma num violão mágico e único. Gismonti contou que após a ligação sobre a encomenda finalizada perguntou ao luthier se os violões iriam de João Pessoa para o Rio de Janeiro via transportadora e este respondeu que levaria pessoalmente “para aproveitar e tomar um café juntos”.

Walter Benjamin, em 1931, na sua Pequena História da Fotografia, finaliza o texto equilibrando duas opiniões contrárias sobre a fotografia, emitidas ainda no século XIX por duas famosas personalidades, Antoine Wiertz, entusiasta otimista da fotografia, e Baudelaire, amargurado e pessimista com a nova técnica de reprodução de imagem.

Benjamin lembra que Wiertz disse em 1855 que "em cem anos, essa máquina será o pincel, a palheta, as cores, a destreza, a experiência, a paciência, a agilidade, a precisão, o colorido, o verniz, o modelo, a perfeição, o extrato da pintura... não se creia que o daguerreótipo será a morte da arte".

Já Baudelaire, em 1859, pronuncia palavras "sóbrias e pessimistas" a respeito da fotografia: "Nesses dias deploráveis, uma nova indústria surgiu, que muito contribuiu para confirmar a tolice em sua fé... de que a arte é e não pode deixar de ser a reprodução exata da natureza... Um deus vingador realizou os desejos dessa multidão. Daguerre foi seu Messias... Se for permitido à fotografia substituir a arte em algumas de suas funções, em breve ela a suplantará e corromperá completamente, graças à aliança natural que encontrará na tolice da multidão. É preciso, pois, que ela cumpra o seu verdadeiro dever, que é o de servir as ciências e as artes".

Porém considerando essas duas posições contrárias, e indo além delas, Walter Benjamin situa o fotógrafo como o "sucessor dos áugures e arúspices", ou seja, aquele que capta o inconsciente, e coloca a fotografia como uma técnica de escrita e leitura do mundo comparável à escrita alfabética: "Já se disse que o analfabeto do futuro não será quem não sabe escrever, e sim quem não sabe fotografar".

Atravessamos os séculos XIX e XX, estamos no século XXI e talvez a arte da fotografia ainda possa um dia desses existir não impressa no papel, mas nas mentes e nos corações.

PS. A bandeira da Paraíba não tem nela escrito NEGO e sim NEGO.

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