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Todo Mundo Lê Lacan


Sentados em gostosas cadeiras, sob a sombra da mangueira do quintal, Roselena e Walker Dante conversam sobre “o Sujeito” e chegam à conclusão de que todo mundo lê Lacan, principalmente o Seminário 11. A partir disso conversam:

W.D. - A questão do Sujeito, que se pode depreender da extensão da leitura de Lacan sobre o Inconsciente freudiano, leva à consequência de se considerar a opinião linguística como base - tanto do Inconsciente quanto do Sujeito - como perfeitamente válida, porque o “Inconsciente é homólogo ao Sujeito”, seja o que for que isso signifique. O Inconsciente é como uma textura na paisagem psicológica do Sujeito. Não se adentra aqui pelas amplidões do “coletivo” junguiano; mas, no entanto, contudo, Lacan ama os símbolos e a leitura antropológica poética de Lévi-Strauss.

Roselena - Não se pode desconsiderar também o horizonte kantiano do Lacan nessa ligação da Língua com o Sujeito.

W.D. - Parece então que o Sujeito de Lacan é universal intrinsecamente, qualquer coisa é universal daí, tudo é universal, pois cada uma das coisas está fechada em si e pode também ser discernida em separado. Qual é a diferença disso com a ideia do Inconsciente coletivo? Em que essas duas teorias, a do indivíduo e a do coletivo, se opõem? O conceito de coletivo também parece garantir a universalidade. Ou não? Tanto um como outro elemento dessas teorias terapêuticas psicológicas em uso talvez sejam muito semelhantes quanto ao instrumental e fundamento linguísticos, o qual emergirá privilegiadamente no processo de análise ou psicanálise.

Roselena - Então essa base, ou seja, o Sujeito, tão enfatizada teoricamente, deverá também ser identificada sobretudo ou, no ponto de partida, ao analista, ao terapeuta. Me parece uma incrível temeridade essa, de ocupar o lugar de analisador de alguém. O Sujeito analista se me afigura como o guardião da sala de espelhos. Na pior, melhor, ou única hipótese disponível, o paciente é aquela pessoa que precisa passar por uma vertigem de possibilidades de identificações. Mas e esse analisador… quem é ele?

W.D. - Com essa evocação da imagem do labirinto de espelhos você me fez pensar no sentido do contraste entre os conceitos de “individual” e “coletivo”. Talvez uma diferença que se possa apontar entre as impressões teóricas de Freud e Jung nessa questão, é que o primeiro dá ênfase ao Sujeito individual como centro de um processo psíquico ou psicológico ou, na verdade, linguístico. E Jung enfocaria de uma certa forma especial as semelhanças entre os processos individuais compreendendo-os num espectro mais generalizado de traços psíquicos. Mas o interessante é que, instrumentalmente, o ponto de vista de Freud tem a aparência de estabelecer um ponto de partida metodológico mais “acessível”, ou seja, a individualidade visível, quiçá concreta, do indivíduo analisado. Nesse ponto concreto acessa-se uma linguagem e daí um “saber”. Em Jung, elementos heterogêneos à instrumentalidade circunscrita, tanto por essa espécie de concretude, quanto pela teoria advinda dela, podem entram em consideração. Ou essa visão sobre Jung seria irrelevante para uma comparação do legado desses sábios à nossa compreensão da dimensão psicológica?

Roselena - Você está mudando de assunto. Vamos voltar ao tema inicial? Parece que a caracterização do Sujeito como o ponto para o qual também converge o conceito de Inconsciente, traz junto um agradável sabor de aceitação, que é a própria bondade do ato terapêutico. O Sujeito é essa paisagem, com suas montanhas e vales. Os significantes, as palavras, não são um jogo simples, com regras rígidas, mas sim partes de uma espécie de quebra-cabeça, o qual deverá ser montado sob a direção do analista.

W.D. - Você me fez pensar agora no contrapeso da bondade terapêutica. O Sujeito, que é eixo da Língua Universal, como ele pode estar relacionado com a barbárie? Desculpe-me o salto tonal.

Roselena - Vamos voltar novamente ao tema do começo? De alguma forma é bonita a emergência dessa singularidade do Sujeito freudiano do Lacan. O padrão dos significantes, da fala, das palavras, das expressões via verbo, vai sendo desvendado pelo analista tendo como centro esse falante Sujeito, esse paciente junto a ele. Cada uma dessas pessoas, o analista, o paciente… uma paisagem singular. Um dos pontos do problema proposto por Lacan está na tentativa de conjugar esse método da singularidade, esse princípio, esse ponto de partida, com um discurso teórico que obviamente generaliza e formaliza procedimentos, como qualquer outra teoria, e converte-se em mais um mapa do tesouro perdido por entre as mãos de todos nós, subconscientemente moralistas, éticos e analistas.

W.D. - Parece que você acha que esses sábios estavam preocupados com alguma harmonia oculta, já que você acha que há uma forma, mesmo que difusa, de beleza, aqui. Então, no caso do analista ser artista, ele vai tentar buscar ou resgatar o Sujeito como se o Sujeito fosse a chave ou a peça que falta num quebra-cabeça de coerência harmônica por entre as formas dessa paisagem que é, pasme: o Sujeito! Leia o belo livro da Dra. Pankov relatando o tratamento dado a pacientes esquizofrênicos, utilizando técnicas de construção de discurso através de palavras também, mas sobretudo a partir de atividades de modelagem, pintura, desenho.

Roselena - Eu acho sim, que essa abordagem da singularidade no Freud de Lacan nos lega um sabor de esperança quanto à dignidade que confere ao ser humano essa própria ideia de singularidade e unidade de sua personalidade ou de Sujeito que possa chamar de si ou a si. E ligando paradoxalmente essa teoria da singularidade com a teoria do Inconsciente coletivo que vemos, por exemplo, nos mapas psicológicos, observamos que a singularidade se comprova como um fato para o Sujeito. Exemplo: mesmo que, “tecnicamente”, as “estratégias” de propaganda e o sucesso de vetustos mapas de tipos universais de personas sejam amplamente utilizados e considerados eficazes, comprovando a vulgaridade das singularidades da paisagem psicológica de todos nós humanos, Lacan explica como no além da Língua - e aqui, no caso, incluindo a Tradição judaica, arcabouço freudiano, na Língua Mesma -, a singularidade se vela e revela no tradicional jogo cabalístico fundado no Deus Único, inominável e de mil nomes. Esse ponto fecha com o método da psicanálise, o qual se atualiza no encontro e, de novo, no qual a singularidade é também uma concretude, e jamais uma abstração, para Lacan.

W.D. - Mas aí eu também poderia argumentar que nesse ponto junta-se o um ao múltiplo: o um do Deus Único, judaico, e o múltiplo da massa nebulosa, indeterminada, mas determinante e útil miríade de simbolismos culturais de todas as épocas e oportunidades, no nível da Explicação no estatuto científico, didático e formal do ensinamento sobre essas coisas.

Roselena - Me parece que você está reduzindo a psicanálise a uma formalidade! Essa terapia psicanalítica, embora religiosamente pressuponha o Deus Único, não se pode dizer dela, de modo simplista, que tenha como meta obscura a conclusão do “inominável” como inefável verdade comparada ao verbalismo obsessivo do Modo Ocidental. O Caso da Paciência é muito ilustrativo: claro que, só quando “não se tem paciência” é que se pensa e se fala dela, mas quando se é ou se está na paciência, “nem se percebe sua existência”. A palavra é sempre o substituto do que não está ali, do que não se sente, mas se tem memória de que se sentiu. A estética chinesa ou japonesa dos escritos zen é minimalista e espontânea frente às paisagens estudadas e detalhadas do teatro das personas espalhadas da zona ocidental.

W.D. - Agora foi você que fez uma digressão bastante descontextualizada. E vou me permitir complementá-la com outra: uma coisa interessante ocorre no campo da Teoria da Escolha (Livre Arbítrio). Onde estará a escolha do Sujeito, já que a pluralidade do quadro do Inconsciente está dada? Aí, parece que o autor e, conjuntamente, o autoritarismo do Deus Único, emerge em sua grandeza, como uma daquelas estátuas da Ilha de Páscoa emergindo de repente no meio de um… areal?

Roselena - Tudo bem. Já que você foi tão longe, te desafio: se em outras teorias o humano é o universo, quem será erigido como rei do reino?

W.D. - Vejo que as metáforas da profundidade e da extensão se impõem: profundidade do Inconsciente e extensão verbal. Na imaginação, essas duas abstrações se fundem em filmes, quadros, romances e sei lá que mais: livros de história.

Roselena - Continua pairando a questão do Sujeito. Do ponto de vista pragmático: o Sujeito analista pressupõe, “sente”, a existência de um outro Sujeito, quiçá (e é desejável e saudável que assim seja) o paciente. A Dra. Ida Rolf* expressa isso bem. A prática da Dra. Rolf tem um imaginário firme, fixo, como base metodológica, que é a configuração anatômica dos músculos, ossos e fáscia. Mas esse imaginário tem um limite. O limite está, é óbvio, no outro.

W.D. - Olha o Paredão!

Roselena - As artes do espelho, do caleidoscópio, mandalas, danças circulares e rede de computadores são desse nosso tempo eterno da pedra, da Caverna!

W.D. - Adiciono aqui mais uma digressão em nível de complemento cósmico à sua fala: ao debruçarmo-nos por entre esses reflexos, criamos todo nosso mundo, seu e meu, por entre todos os nascimentos e mortes, aparecimentos, desaparecimentos, deformações e consertos.

Roselena - OK. Chega, vai!

* Ida Rolf desenvolveu o “rolfing”, um método de cura para pessoas que sofrem de desorganização muscular imperceptível e não-óbvia, condição que contribui para conferir doenças físicas e psicológicas ao Sujeito.

FEITIS, Rosemary. Ida Rolf fala. São Paulo: Summus, 1986.

LACAN, Jacques. O Seminário, livro 11. Versão de M. D. Magno. Rio de Janeiro,: Zahar, 1979.

PANCOW, Gisela. O Homem e sua Psicose. Campinas: Papirus, 1989.

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