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Da Lagoa do Peixe ao Forte de São Miguel, uma viagem pelo Sul


A Lagoa do Peixe é um delicado santuário ecológico que fica nas imediações da cidade de Mostardas, no Rio Grande do Sul, próxima também à Lagoa dos Patos.

Mostardas seria hoje um balneário relativamente comum, se não tivesse junto a si a Lagoa do Peixe. Claro, as praias abertas irrestritamente ao público são lindas e muito agradáveis. O farol é um dos mais bonitos do Brasil. Mas quem ama a Natureza dificilmente deixará de tentar visitar a Lagoa do Peixe. Isso é possível contatando um guia credenciado, com autorização para entrar no Parque da Lagoa do Peixe que regula a visita de turistas em quantidade limitada.

A paisagem da Lagoa do Peixe é verdadeiramente uma riqueza de variedades: elementos de florestas, dunas, lagos, ilhas, praia. E o principal: a incrível variedade de pássaros! As cores que surgem com eles, nessa paisagem, são de um indefinível sombreado: tons de branco, marrons, pretos, vermelhos e as águas sempre muito brilhantes.

Garça-moura, Maguari

Flamingos, Ostreiros

Maçaricos, Gaivotas

Mergulhão

Trinta-réis, Gaivotinha, Gaivotão

Trata-se de uma grande festa dos pássaros. Aqui na Lagoa do Peixe eles fazem um banquete. A comida, obviamente, são os peixes, que abundam na Lagoa e no mar. Os pássaros namoram, têm filhos, conversam com os amigos. Pelos lados do mar a água é revoltosa. Na praia, todos estão pescando, limpando, voando, andando, em bandos, às vezes solitários.

Assemelha-se também a uma peça fantástica encenada no Teatro da Natureza. Como esse lugar é muito diferente dos ambientes a que estamos acostumados, sua visão provoca um efeito de irrealidade, assim como quando assistimos a um filme e sabemos que aquilo é irreal. A diferença nesse caso é que não se trata de um filme. No mínimo o corpo do visitante da Lagoa do Peixe entrou no ambiente da peça por alguns momentos, e ainda vai achar, depois disso, que toda aquela paisagem existirá lá, sempre, como um tesouro guardado no cofre dos tesouros ecológicos do Brasil.

É uma coisa deslumbrante ver a Lagoa do Peixe de perto. Até agora - na verdade desde 1986 -, esse lugar importantíssimo para várias espécies de aves migratórias e outros seres da Natureza, é relativamente protegido da destruição dos humanos através de estatutos de ordem política, científica e cultural, que protegem a área em nível de Parque Nacional.

Infelizmente, parece, na atual política brasileira, tem havido uma predominância dos partidários dos interesses dos proprietários locais em detrimento de uma possessão estatal garantindo políticas de âmbito federal e internacional. Parece que a visão dos “homens de poder” do momento, os proprietários e políticos dos desgovernos dos brasis, está convencida de que o caso da Lagoa do Peixe é de uma peça de teatro que pode ser extinta ou, na pior das hipóteses, passar a ser exibida por outros bilheteiros.

O incrível é que o Rio Grande do Sul parece já ter praticamente cada milímetro do seu solo cultivado, quando não, a terra é pasto para o gado. A Lagoa do Peixe protegida não é uma maneira fútil de tratar a realidade ambiental. Trata-se de um canto do istmo entre o mar e a Lagoa dos Patos, nas proximidades de um dos maiores portos do país, com um gigantesco dique seco, onde se constroem e se reparam navios em meio a plataformas de petróleo, bases militares navais, infinitos arrozais e à “poluição biológica” dos extensos pinheirais importados do Canadá.

A Lagoa do Peixe definitivamente não precisa ser “desreservada”. Sua suprema importância está nessa reserva. Mesmo do ponto de vista da vantagem inteligente segundo padrões de lucro, o Parque é decerto mais vantajoso - respeitando e dignificando também seus habitantes humanos - do que o simples ceder às pressões parciais, as quais são sempre inevitáveis.

Seguindo nossa jornada pelo istmo, outros lugares peculiares e belos, por essa região, estão inscritos no destino do viajante do Sul. O próprio istmo já é uma coisa fantástica. Em alguns trechos vê-se o mar de um lado e as imensas águas associadas à Lagoa dos Patos do outro lado. Desloca-se por uma área alagada de beleza singular.

São José do Norte, importante cidadezinha que dá acesso, através das águas, a outra cidade mais importante, Rio Grande (antiga capital do Rio Grande do Sul), possui uma encantadora igreja de 1832. E Rio Grande, por onde se chega então, navegando pela Lagoa dos Patos, é um cartão postal, com seu cais e suas praças.

A famosa Praia do Cassino é a maior praia contínua do mundo, indo de Rio Grande até Chuí, uma das mais lindas que já vi: lisa, espelhada, calma, sem maré. Nas fase de Lua Crescente, ali, no céu, é possível distinguir a certa hora especial, com extrema nitidez, de um lado o Sol, do outro, a Lua.

Dali o viajante deve se estender até Chuí, divisa do Brasil com o Uruguai, cruzando campos, numa visão de extenssíssimas distâncias, o que só é possível por conta do relevo tão plano.

De Chuí, passa-se para o lado do Uruguai, onde se descobre o curioso e belo Forte de São Miguel, de cor ferrugem brilhante, construído com pedras de quadrado perfeito pelos espanhóis em 1734 em tempos e terras disputadas por portugueses e espanhóis.

Por entre as fendas do chão e das paredes do Forte, as flores agrestes e a vasta paisagem lembram-nos do contraste entre os tempos da Natureza e da História.

Desse ponto em diante o viajante já está em outra dimensão.

fotos Walter Antunes

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