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A palavra belicosa e alguma periculosidade filosófica cotidiana


O que é bastante curioso em Filosofia é que as questões que os filósofos gostam sempre parecem obviedades sem valor para o não-filósofo.

A arte do pensamento não tem tido muito apreço, desde o começo dos tempos.

De um lado quase que há uma ditadura do estilo analítico em Filosofia: o corporativismo universitário. Do outro lado, há a ojeriza ao pensamento e às palavras, típica da cultura da nação.

É hilário e algumas vezes desesperador conversar com as pessoas até o ponto em que elas se contradizem porque passam a “pensar” no significado das palavras quiçá compartilhadas pelo contexto subjetivo do discurso “bate-papo”. Elas acabam tentando impor o limite da conversa a todo momento simplesmente porque discordam sobre o “sentido” das palavras.

Vive-se por esta vida levando broncas quanto à impropriedade de palavras: desde o vendedor da loja de tintas até a mãe, as pessoas querem dizer qual é o verdadeiro significado de uma palavra, ou ensinarem que aquelas palavras que se está falando não existem!

Num determinado ponto da interatividade verbal, é claro, as pessoas podem arrefecer e talvez consintam, se estiverem com disposição ou energia, em ouvir melhor as palavras, em conexão com as outras áreas da interação comunicativa, mas isso só no caso em que for vantajoso: por exemplo, no caso do vendedor de tintas.

Porque nos relacionamos com palavras - essa é a verdade - as situações verbais, cotidianas, revelam muita coisa, pasme, justamente a respeito dessa relação! Assim, compartilho aqui, sete coisas reveladas:

Primeira revelação: as palavras chamam a atenção sobre elas; tornam-se centrais nas situações de comunicação verbal.

Segunda revelação: como as palavras são, na verdade, instrumentos para a comunicação, e não os objetos de comunicação em sua totalidade, elas desconcertam o pensamento daqueles que as usam “sem pensar”, ou seja, geralmente o pensamento da pessoa não-filosófica, o homem ou a mulher “comuns”.

Terceira revelação: as pessoas filosóficas são cheias de palavras e pensamentos; no homem filosófico, o instrumental das palavras vai muito em direção ao pensamento, à “reflexão” do verbal no espelho da mente (basicamente imaginação, raciocínio e julgamento); no homem não-filosófico, o instrumental das palavras dirige mais o sentido das ações de cada um, em seu cotidiano trabalhador, de pessoas adultas que fazem ou produzem coisas.

Quarta revelação: o homem-filosófico pode ser considerado inferior, quanto à sua utilidade na sociedade, pelos outros; e o vice-versa também pode ocorrer.

Quinta revelação: os quid-pro-quos oriundos das contendas sobre o significado das palavras tornam-se uma fonte maravilhosa para a produção de representações humorísticas que podem ser publicadas facilmente nos meios de comunicação acessíveis a quem quiser utilizá-los. Estamos numa cultura nacional e talvez global, de bastante ênfase ao uso dos mecanismos de representação, principalmente no suporte trans-humanista dessas maquinetas e sua gigantesca e inefável memória. O humor é considerado nessa cultura-nação, sob o ponto de vista antropológico ordinário, um estado bastante evoluído de inteligência do ser. Nossos grandes pensadores “de massa” têm sido os caras da “Porta dos Fundos” (nem vamos associar aqui, para não nos alongarmos, o significado da metáfora do nome desse programa de “youtube”) e mais uma gama enorme de humoristas, cuja arma humorística tem sido basicamente a palavra.

Sexta revelação: pelo fato de muito quid-pro-quo de sucesso estar baseado em interpretações sobre as situações comunicativas capitaneadas pela palavra, chegamos à conclusão que a atenção direcionada à palavra leva à produção desses objetos estéticos cuja função é ilustrar nossa imaginação, sendo úteis, no entanto (fazendo sua parte), na circulação dos bens materiais que são usados para manter a nação abundantemente provida de elementos formais de sobrevivência (elementos coesos a todas as impressões dos sentidos), tais como computadores, telas, teclados, reprodutores de som e imagem, filmes, músicas, textos, livros, aparelhos e suportes de reprodução estética de toda espécie etc…

Sétima revelação: Wittgenstein.

Epílogo: As revelações subsequentes poderão ser recebidas por você e por todas as outras pessoas do mundo até o infinito dos tempos e a eternidade dos lugares.

Foto: Walter Antunes

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