• Inês Monguilhott

A Fita da Maçã


Eu era pequena, bem pequena mesmo, e estudava em uma das inúmeras escolinhas de fundo de quintal que minha mãe me colocou ao longo de todo meu curso primário. Mamãe tinha esse raro dom de descobri-las e algumas eram boas, outras nem tanto. Nessa, minha classe ficava onde seria originalmente a garagem da casa.

Foi um tempo "puxado", frequentava diariamente duas dessas escolas. Acordava bem cedo e uma perua me levava a uma escola e me trazia de volta à hora do almoço. Almoçava correndo, trocava a camisa do uniforme por outra com outro escudo bordado no bolso e com a mesma saia plissada azul marinho ia agora em outra perua assistir minhas aulas na garagem sofrendo com o sono do começo da tarde. À noite, retornando, eu fazia as lições da escola matinal, as lições da escola vespertina, a da garagem, não entendia muito bem o motivo, parecia não serem necessariamente obrigatórias.

Assim, aconteceu que no fim de umas férias surgiu uma aluna diferente. Eu estava começando a aprender os traços básicos para a escrita, a fazer retas e círculos equilibrados nas linhas do caderno, deduzo por isso que deveria ter entre 5 e 6 anos e, nessa época, fazer a ponta do lápis era a coisa mais emocionante do dia, prova individual de destreza, era mais importante que qualquer resposta certa que se desse à professora e uma enorme responsabilidade. Talvez por isso um lápis em nossas mãos raramente chegava à sua segunda semana: apontávamos furiosamente após qualquer uso.

A recém-chegada não era hostil, estava sempre limpa e arrumada feito uma boneca de loja e me pareceu boba. Como ficou evidente que recebia um tratamento mais cuidadoso dos adultos que o resto de nós, além de boba, uma besta!

Após as apresentações infantis foi posta ao lado e assim ficou. Tratada às vezes com hostilidade não reagia e isso acabou por protegê-la de hostilidades maiores. No recreio a faxineira a punha sentada ao lado e cumpriam juntas um ritual diário instituído em silêncio: uma maçã era descascada à faca e entregue à menina estranha que a esperava e comia da mesma forma. Nunca uma outra fruta. Duas coisas me causavam espécie, a maçã, fruta muito "fina" para ser comida todos os dias e o fato de só ser maçã. A inalterabilidade da fruta oferecida e o luxo presumível dava ao lanche uma função de rito.

No mais do recreio a menina não acompanhava as brincadeiras nem as correrias, lembro que achei estranho, sabia que tinha algo de estranho, tive certeza e para confirmar perguntei. Os adultos sempre escolhem a mentira como a saída mais rápida: a menina não estava doente, não tinha nada errado com ela, era igual a todas nós. Desisti de perguntar e fui cuidar de minha vida sempre acompanhando pelo canto dos olhos a menina no pátio. Sem amigas ela apenas vagava um pouco e logo era chamada a sentar no tamborete da cozinha. Ficava lá encarapitada até o lento ritual da maçã se cumprir, o que coincidia com o fim do recreio. Tentei a princípio fazer com que ela participasse de alguma brincadeira e levei tempo para aceitar que embora os adultos dissessem que não havia nada estranho, ela era diferente. Levei um pouco mais de tempo que as outras meninas para aceitar isso, não sei se porque via a oportunidade de uma amizade, ou porque não quis supor que adultos pudessem enganar, cheguei enfim à conclusão indubitável: ela não era igual, ou era, mas não completamente.

Depois disso, retomei ao meu treinamento diário de perguntas e respostas, de escrita, correrias e apontamento de lápis.

Entre aulas e exercícios havia sempre o recreio e nele o ritual da maçã. A faxineira, com sua rara habilidade, descascava a fruta inteira em uma única tira de casca homogênea que chegava a arrastar no chão: a mesma espessura, a mesma largura. Tinha um secreto orgulho disso, igual ao que tínhamos em apontar um lápis.

Aos poucos fui me aproximando das duas na cozinha e sem permissão para entrar, sentava nos degraus para assistir ao desenrolar diário da fita vermelha e perfumada. A mulher percebia minha admiração e caprichava nas demonstrações de sua perícia. A menina parecia aceitar esse nada entre as três: uma maçã, ou menos: a fita envernizada da casca da maçã.

Não lembro quando o ritual se modificou, mas em algum momento fazíamos assim: a faxineira descascava a maçã com sua eterna e infinita paciência. Nós, as duas meninas, esperávamos, uma dentro da cozinha, outra fora. Depois do corte era dada a maçã sem a pele para a menina estranha e a casca para mim, que a comia muito compenetrada. Às vezes envergonhava comer o lixo da menina; a parte recusada da fruta era a minha parte nesse ritual que não parecia oferecer nenhuma revelação, mas dessa forma atingíamos, nós todas, uma harmonia nessa divisão aparentemente desequilibrada. Sabíamos o que esperávamos e o que faríamos, tínhamos fraternalmente nossa fatia no mundo, cada uma das três aceitando, sem nenhuma necessidade de compreender, a função de cada uma para com a maçã que se dividia e, nesse curto espaço do recreio, dividindo a maçã, estávamos unidas.

Inês Monguilhott, ou Inês Pedrosa de Araújo Monguilhott, nasceu em 20 de Julho de 1958 no Recife, Pernambuco. Criada em João Pessoa, Paraíba, vive em São Paulo há mais de 25 anos: “Desenraizada, sinto que só pertenço à lembrança. Tenho um casal de filhos, uma neta e três livros - toda a minha fortuna”. Os livros de Inês Monguilhott fazem parte de uma trilogia finalmente completa: NATURAL, DE MIM e OUTROS.

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