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“A Intrusa” e a tragicidade do “eu” no transcurso literário


Maestria, leveza e inteligência são qualidades difíceis de serem encontradas numa obra literária, mas são esses traços que compõem as definitivas impressões formadas pela leitura de “A Intrusa”, de Izabela Leal, esse livro que traz no seu núcleo a inevitável reflexão sobre o paradoxo trágico da concomitante frivolidade e centralidade do “eu” como existência literária e, evidentemente, fazendo disso metáfora da vida plena, incluindo aí o exercimento da escrita como atividade vital.

A metalinguagem quase sempre faz da literatura uma leitura instigante, assim como as evocações de estruturas arcaicas, clássicas ou tradicionais. A autora de “A Intrusa” lança mão dessas técnicas, porém sem afetação, numa escrita natural e agradável de ser assimilada.

Estruturado sob datas de um diário e cenas de um teatro, sendo cada uma dessas estruturas relacionadas às duas personagens principais da história, o texto relaciona a própria metalinguagem ao fecundo fenômeno psicológico da percepção do “duplo”, imputado tradicionalmente ao desafio à pretensa unicidade da existência individual do “eu”.

Trata-se do desenvolvimento do tema do espelho psicológico estilhaçado em faces refletindo discursos, simbolizado pelo dualismo “o eu e o outro”. Desenvolve-se o mote da reunificação a partir da realidade esquizofrênica, também típica dos anseios estéticos do momento (se é que existe algo assim na realidade).

“A Intrusa” trata também da coerção do discurso como inerência da natureza da linguagem, essa lei que aprisiona e ao mesmo tempo instrumentaliza uma talvez-liberdade (quiçá errância) existencial. Isso pode ser concluído pelas palavras do coro: “a literatura está repleta de decisões absolutórias proferidas em casos em que o réu havia confessado…” (p.12).

Estilisticamente, a escritora não gosta das maiúsculas iniciando as frases, porém não dispensa os pontos finais. No que se conclui que há fins, mas não necessariamente começos: apenas redes de rupturas como procedimento técnico nesse nível.

Há um eu: o que escreve; há um ela: sobre quem se escreve; há outros de entremeio. O discurso pode aparecer como o esforço de uma voz querendo se estruturar em pessoas: “suspeito de tudo principalmente dela.(…) aprendi com ela. (…) conheci vários tipos de gente, certa vez encontrei um sujeito que falava na primeira pessoa do plural. (…) era um cara esquisito” (p.13).

O cotidiano prosaico do mundo feminino, com suas corriqueiras interações, feito de mil pequenas bagatelas, recheia de concretudes poéticas o conteúdo psicológico/temático da superfície da personagem “eu”, como por exemplo: “preciso voltar a caminhar na praça. (…) ultimamente a boca anda seca. dor de garganta. a vizinha receitou um gargarejo” (p. 15).

As duas personagens principais, “eu” e “ela” se refletem e se transbordam sobre e sob as concretudes poéticas, ora espaciais (Cena 4), ora temporais (Cena 5). Encontros, fugas e a evocação da loucura constituem sub-temas sobrepostos ao espaço-tempo. E ao longo do discurso, a textura do prosaico reaparece indefinidamente através das coisas da cozinha, da televisão, enfim, objetos do cotidiano banal, que forjam o jogo poético de dissimulação da tragicidade da primeira parte do livro ao final de dez cenas: “é possível um testamento sem defunto ?”.

Segue-se o transbordar da experiência do “duplo” pelo reino da lembrança lúcida da mulher por entre essas banalidades inevitáveis, porém logo tudo volta ao “zero”, ao começo da mesma relação problemática entre “eu” e “ela”, mas a volta se faz numa variação de tom na espiral discursiva a ponto de, na Cena 16, constar: “um dia ela me perguntou o que eu faria se ela desaparecesse”. Seguem-se receitas de comida e coros trágicos. A personagem “eu” é como que pintada insistentemente com algumas variações de cores, mas sempre com tons similares entre si e delineando invariavelmente os mesmos traços, ainda que justamente as características desses traços sejam de natureza fugidia e desconcentrada e que, enfim, acabem expressando contornos por conta da insistência da repetição dos caminhos de suas formas.

Em certo momento Izabela Leal parece mostrar que alguma mulher, esse “eu”, é a figuração daquela que já apareceu em Clarice Lispector. Citação evidente: “medos de conviver numa cidade sitiada” (p. 41). Trata-se também, talvez, de uma homenagem à mestra, essa “outra”; quem sabe entre outras ou outros, sempre os mesmos.

Embora no início a voz que conduz o discurso declare que o livro não se trata de um diário, de repente acontece exatamente esse diário, e isso mais fortemente na cenas a partir do número 20. Tal forma desemboca na pergunta sobre as vozes: “que importa quem fala?” (p. 50). Talvez disso decorra a amargurada admissão da “frivolidade”, da “banalidade” do transcurso desse “eu”, que apesar de tudo se faz centro e sentido do drama-trama: a falsa modéstia concomitante à consciência da nulidade; a essência do “duplo” forjada em traços psicológicos indesejáveis existencialmente e desejáveis esteticamente. Por fim o “eu” deveria assumir sua vocação para a materialidade ou sensualidade, mas se faz isso, se desconcentra de sua fugacidade peculiar: “há queimaduras cicatrizes. ela passava dos limites. eu nunca consegui dizer não” (p. 63).

Assim, a centralidade do “eu”, efetiva e impossível ao mesmo tempo, se conclui como no começo: trata-se de loucura: “há histórias de loucura nas mulheres da minha família. (…) e não gostei do meu papel. sempre quis algo mais elevado.”

O livro “A Intrusa”, de Izabela Leal, foi ganhador do Primeiro Lugar no Prêmio Rio de Literatura 2016, é editado pela Garamond, e está à venda nas melhores livrarias.

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