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A sátira sádica de Marcelo Mirisola em “A vida não tem cura”


Em seu novo livro, “A vida não tem cura”, Marcelo Mirisola dá voz àquele adolescente inocente e indefeso, vítima do Marquês de Sade. Isso em primeiro plano. Logo em seguida aparece aquele cinismo que irrita o feminismo. Isso em segundo plano. Depois, parece que na verdade o livro fala desse mundo-lixão, mundo-resto-cão dessa sociedade horrorosa que, afinal, encarna o significado do conteúdo do sadismo como metáfora desse nosso capitalismo monstrengo.

É curioso como o livro vem de encontro a esse desespero que nos acontece - frente à mudez das vítimas do sadismo -, satisfazendo nosso desejo de ouvir o que é que esses coitados têm a dizer. Nesse ponto, além de se alinhar debochadamente aos maneirismos do politicamente correto típicos do nosso “momento cultural”, o livro ultrapassa o sadismo sem deixar de reverenciá-lo como inevitável referência. Aponta para Sade, mas não o repete, obviamente por não concordar com ele não só em matéria de estilo como também em matéria de concepção de mundo.

No quesito estilo, Mirisola sabe contar história, imprimir aquele ritmo que conduz o leitor por entre uma atraente dança de ideias metafóricas perspicazes e sutis sobre as nossas bizarras realidades culturais. Ao passo que o feito estético de Sade, como autor, é algo bastante enfadonho, aquele falar muito do mesmo, como uma lista de conferência, milhares de palavras repetindo as mesmas coisas - a saber, aquele muro de bruta e demoníaca barbárie com o qual nos chocamos - intentando o sublime pelo método, o qual não passa de ser o expediente de agigantar aquilo que não mereceria ser valorizado. Mirisola, agora, recoloca a estética sadista ao nível do gracioso, em sua “novelinha” - como ele mesmo referiu ao texto numa postagem na rede social mais utilizada - de singelas e agradáveis 85 páginas.

Aquilo em que Mirisola concorda com o sadismo encontra-se no lamento implícito do título. A palavra vida no lugar da palavra doença porque a palavra cura ocupa o lugar da palavra amor, e no meio disso a miséria do “não tem”. O nosso mundo, simbolizado pelo sadismo, é mundo esqueleto, abstrato, sem sentido, sem substância, apenas funcionando sob a matemática crua para o objetivo da eficiência do puteiro. Nem vida, nem amor, nem cura. Um mundo preenchido pela ausência do fundamental.

Irrita o feminismo porque, em gradação e degradação, coloca primeiro uma mulher no papel do Marquês (Natacha) e depois uma travesti no papel de Baronesa. Todos sabem vagamente que a posição do baronato, ocupada aqui por uma travesti, está no terceiro grau abaixo do marquês na hierarquia da nobreza medieval.

Eis aí o duplo esculacho no feminismo politicamente correto - nas mulheres-mulheres e nas mulheres-travestis - o que, afinal, pode ser entendido como algo ligado à sátira sádica na medida em que… será que haveria algo mais medieval do que a expressão “politicamente correto”? E haverá uma idade média mais bem representada em sua melancolia anacrônica pelo poder aristocrático hierárquico sempre na moda, velha matrona do capitalismo destrutivo, do que no tal Marquês? Conclusão: há obscuridades nas interpretações dos processos históricos que só a arte, como essa literatura do Mirisola, tem o poder de tocar sem se prejudicar por contradições mortais.

Objeto entre objetos, ou lixo entre os lixos, o protagonista, Gui, é um monge e uma besta, perdido nesse mundo-lixão, que também em gradação e degradação, é um mundo abaixo do mundo-cão. Porque aqui os cães são os dois anjos, o branco-mau e a preta-boa, que mostram na abertura do livro que focinho de porco não é tomada. Ou é.

E se por fim o protagonista aprende na pele um dos Provérbios do Inferno de William Blake, que diz que “o caminho do excesso leva ao palácio da sabedoria”, é porque ainda há esperança na mente de um ser humano que, com a ajuda da sua imaginação, vê estrelas no espaço infinito para além do teto desse tal palácio.

Finalmente é preciso dizer que o tom da narrativa é verde como o verde que aparece na capa do livro, e transmite o sentimento de uma grande ternura, a despeito de ser uma obra madura.

“A vida não tem cura” é o décimo oitavo livro de Marcelo Mirisola; foi editado pela Editora 34 e lançado durante este mês; está à venda nas melhores livrarias.

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