• Luama Socio

“Meu nome é Jacque” fala da maravilha que é o amor


A história de Jacqueline Rocha Côrtes é um filme. E felizmente foi filmada. Sob o título “Meu nome é Jacque”, dirigida por Angela Zoé, a história, contada em formato documentário de 72 minutos, produzida pela Globo Filmes, foi lançada em São Paulo no dia 03 de Maio de 2016.

Quando dizemos que a história de alguém é um filme, é que estamos querendo dizer que os acontecimentos narrados nos parecem tão incomuns, que mesmo sabendo que são reais, eles nos surgem como um romance fantasticamente imaginado, recheado de fatos surpreendentes.

É maravilhosa a existência e a trajetória de uma mulher que nasce num corpo de homem numa família amorosa e compreensiva; na adolescência dança no grupo do famoso coreógrafo americano Lennie Dale; faz uma carreira de sucesso como docente de língua inglesa no início da vida adulta; infecta-se com o vírus da aids; descobre uma angina e coloca várias pontes de safena; encontra o grande amor de sua vida e casa-se com ele; faz a reversão cirúrgica corporal para o sexo feminino; torna-se militante das causas relacionadas aos direitos das minorias sexuais e à aids; é convidada a trabalhar no Ministério da Saúde para a implantação das políticas públicas relacionadas aos temas de seu ativismo; expande os limites das fronteiras nacionais indo trabalhar na ONU; e por fim demite-se das funções profissionais para se dedicar à criação de seus dois filhos, pois chegou a hora de realizar sua missão de mãe nessa vida.

Mas apesar da singularidade dos fatos históricos da vida de Jacque, o impacto que ela nos causa se dá justamente no contraponto com a realização do fundo trivial e singelo de sua mensagem: para se viver dignamente como ser humano só é necessário amor e justiça: ensinamentos da mãe e do pai de Jacque; tão antigos como o velho e o novo testamentos da bíblia sagrada.

Então a personagem Jacque nos aparece como alguém que está aqui para nos alertar sobre o fato de que, embora nos imaginemos habitantes de um universo social estável em seus códigos e linguagens, a realidade vai muito além das convenções. Posto isso, é óbvio que o amor existe justamente como a mais privilegiada das características humanas, aquela que deve prevalecer sobre quaisquer convencionalismos, aquela que nos faz compreender o mundo e as pessoas como eles realmente são, na medida da própria dinâmica da vida que se desenrola.

Assim, se para qualquer mulher que nasceu num corpo feminino, é trivial ter seios, menstruação, filhos, etc., para Jacque, tudo isso aparece como algo a ser conquistado a duras penas num contexto de muito sofrimento. Tudo causado pela inadequação das pré-formatações das trocas simbólicas e biológicas entre corporalidade e identidade subjetiva, independentes da própria Jacque como pessoa. E aquilo que seria compreendido como nada trivial, ou seja, a trajetória profissional de importância e alcance inusitados e incomuns para a maioria dos mortais, aparece na vida de Jacque como consequência naturalizada do seu ser. Ou seja, aquilo que seria “natural” para os comuns, no caso de Jacque é “artificial”, e aquilo que seria “artificial” para os comuns é “natural” para Jacque. Portanto só o amor, esse estado possível de ser alcançado pela dimensão emocional humana, é capaz de fazer as pessoas compreenderem integralmente essas coisas que, apenas pelas lentes do preconceito é que se afiguram como enigmas. E esse amor permeia toda a vida de Jacque, irradiado de sua família, concentrado na própria Jacque e espalhando-se através de suas ações no decorrer de sua história.

É preciso dizer ainda que Jacqueline é também uma pessoa de agudíssima inteligência. Desse tipo de inteligência que causa admiração imediata e serve de guia para todos. Tudo o que Jacqueline fala sai do centro do coração. Sua palavra é verdadeira e transparente, e por isso é agradável ouvi-la e também é impossível não se maravilhar com a exatidão e clareza de sua posição dentro de assuntos muitas vezes espinhosos que vão surgindo ao conversarmos com ela. Pelo contexto de seus discursos ela exemplifica o exercício dessa liberdade que também faz parte da caracterização dessa típica prerrogativa da especificidade humana. Mostra como o ser humano é capaz de viver a vida aproveitando todas as oportunidades para afirmar a sua liberdade intrínseca de realização individual que, no limite, é a realização do sentido da vida.

No debate após a estreia do filme em São Paulo, Jacqueline agraciou a plateia com suas palavras lúcidas sobre questões diversas colocadas pelo público, dentre as quais, a atual atmosfera retrógrada que ronda as determinacões das políticas públicas relacionadas aos direitos humanos num futuro próximo e disse: “O mundo mudou. Não cabe mais a mentalidade dos Bolsonaro, Malafaia… o que eles vão fazer? Matar todo mundo? É certo que historicamente há retrocessos e avanços, mas nosso papel político é resistir sempre a esses retrocessos. Nosso lugar é na resistência.”

Segundo as informações da diretora Angela Zoé, o filme “Meu nome é Jacque” não tem finalidade comercial, portanto pode ser solicitado por educadores, entidades educativas, etc., para uso pedagógico. Para fazer a solicitação é necessário enviar uma mensagem na página de divulgação do filme no facebook. O título da página é o mesmo do filme: Meu nome é Jacque.

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